Sinto saudades de ouvir gente falando em português", diz Ulysses Matarozzi, um brasileiro que trabalha em Aruba como professor de educação física, técnico em um viveiro de camarões e, eventualmente, quebra-galho em um restaurante de Oranjestad, a animada capital da ilha. Depois de subir de Santos até Martinica em um veleiro e dar um giro pelo Caribe, ele ancorou em Aruba, onde vive há 14 anos. Ulysses presenciou a invasão de turistas brasileiros no fim dos anos 90, durante os bons tempos do real forte como o dólar e viu os conterrâneos sumirem nos últimos anos. Mas as coisas estão mudando: desde julho, a Varig passou a voar uma vez por semana de São Paulo e do Rio para Aruba, com uma rápida escala em Caracas, Venezuela. Em um mês, o número de embarques aumentou em 138%. A partir de 10 de outubro, a Varig aumentará a freqüência para dois vôos semanais.
Junto com a facilidade de acesso, surgiu uma enxurrada de pacotes turísticos, e Aruba passou a concorrer com destinos como Cancún e República Dominicana. Há alguns meses, quem quisesse ir até lá era até desencorajado pelas operadoras porque precisaria trocar de avião em Miami ou Bogotá, e não havia bons acordos com hotéis para baratear o pacote. Hoje é possível passar sete noites por 1 029 dólares e pagar antecipadamente no Brasil, com descontos, por jantares em bons restaurantes. Tudo com um empurrãozinho do governo, que ainda por cima lançou uma promoção atrás da outra: a mais recente dá até mil dólares de descontos em restaurantes e passeios para casais em lua-de-mel - além dos básicos champanhe e flores distribuídos aos recém-casados mundo afora.
SEPARADAS NO NASCIMENTO
Vizinhas de Aruba, Bonaire e Curaçao completam o ABC das ilhas holandesas no Caribe. Elas podemser visitadas em viagens de um dia (embora mereçam uma temporada inteira).
Nada desse esforço teria efeito, não fosse um detalhe importante: Aruba é sensacional. O turquesa imbatível do mar do Caribe, quilômetros de areia que arde os olhos de tão branca, sol praticamente garantido e um vento constante para refrescar. Lojas com preços de free shop e variedade de shopping centers americanos. Onze cassinos e dezenas de baladas que disputam quem tem os drinques e as festas temáticas mais criativos. Resorts gigantescos e suas piscinas cinematográficas (alguns, como o Radisson, passaram por reformas milionárias e outros mudaram de marca, como o Sonesta, agora Renaissance). Atividades suficientes para preencher muito mais que uma semana de férias - e o direito de ignorá-las completamente e não fazer absolutamente nada.
ARUBA É A SUA PRAIA SE VOCÊ...
...nunca volta de férias sem ter feito compras.
...adora um cassino.
...é capaz de começar a noite em um luau na praia, continuar a farra em um bar e encerrar, muitas horas depois, numa pista de dança.
...considera que praia que é praia tem de ter banana-boat, garçons que levam drinques à areia e marquase sem ondas.
...esquece a cotação do dólar assim que pisa no exterior.
FIQUE LONGE DE ARUBA SE VOCÊ...
...sua visão do inferno é bem parecida com a imagem de
uma piscina de resort em horário de pico.
...não imagina como funciona uma roleta de cassino - e não tem a mínima curiosidade de descobrir.
...suas lembranças mais recentes de discoteca são da sua adolescência, que já vai longe.
...considera que praia que é praia tem de ser praticamente só para você, sem nenhum sinal de urbanização na orla.
...não se imagina dividindo a mesma faixa de areia com uma multidão de gringos.
Aruba é uma filial dos Países Baixos nos trópicos. Há até um moinho trazido da Holanda, onde funciona o restaurante The Mill, do hotel homônimo, um favorito dos brasileiros que compram pacotes econômicos. As construções de Oranjestad são como as casas de Amsterdã, coloridas e com o telhado recortado - projetadas para não acumular neve. Uma piada em um lugar ensolarado por natureza, onde caem apenas 245,5 milímetros de chuva por ano. Os coqueiros que enfeitam a orla tiveram de ser importados da República Dominicana pelos holandeses, porque quase nada cresce no solo árido. Jardins floridos são sinônimo de prosperidade, porque a água dessalinizada custa uma fortuna. E mesmo os temidos furacões que assolam o Caribe de junho a outubro passam longe da ilha.
MINIGLOSSÁRIO PORTUGUÊS PAPIAMENTO
Como vai? Con ta bai?
Tchau Ayo
Peixe pisca
Quente cayente
Farmácia botica
Boa noite Bon nochi
Assim como os nativos têm passe livre (e estímulos governamentais) para estudar nos Países Baixos, os holandeses se mudam para lá para trabalhar, muitos deles estudantes e profissionais de turismo. Loiríssimos mas bronzeados, eles convivem em paz com a população local, composta por descendentes de índios e mais de 40 nacionalidades - não há conflitos raciais, coisa comum em outras ilhas caribenhas. "Meu plano é ficar aqui dando aulas de holandês", diz Marislia van Uroenhoven, em sua segunda temporada fugindo do frio de casa. Enquanto não conseguia o emprego, ela curtia com o namorado a areia de Palm Beach, a praia mais famosa, que concentra os resorts bacanas e está constantemente na lista das melhores do mundo das revistas americanas. Ali, a palavra de ordem é tomar sol (e drinques) e, uma hora ou outra, acabar se rendendo às lanchas, aos jet-skis, banana-boats e parasails (uma espécie de pára-quedas puxado por uma lancha) que desfilam o dia inteiro. Acompanhei do barco quando Marislia resolveu experimentar o vôo. "Agora é que eu não volto mesmo para a Holanda", dizia ela, na volta, eufórica.
Ao sul de Palm Beach fica sua irmã gêmea, Eagle Beach, menos agitada mas igualmente linda. Sua continuação, Manchebo Beach, reúne a galera jovem e o pessoal do topless e fica pertíssimo de Oranjestad. Ao norte de Palm Beach, na Praia Hadikurari (ou Fisherman's Huts, em inglês), as coloridas velas de windsurfe dão um show ao pairar sobre o mar completamente sem ondas. Fiquei horas ali, apreciando as manobras, a areia praticamente só para mim. Por causa dos ventos constantes, Aruba é um dos melhores lugares do planeta para aprender e praticar a atividade. Mais do que isso, é um playground que reúne toda a sorte de brinquedos esportivos. Um dos melhores campos de golfe do Caribe, o Tierra del Sol, fica lá, assim como um enorme cargueiro alemão naufragado na Segunda Guerra, o Antilla, que se tornou um ponto de mergulho de primeira. Para os não iniciados em aventuras subaquáticas, há cursos rápidos e até a possibilidade de conhecer os corais que circundam a ilha a bordo de um submarino.
O visual muda drasticamente no interior, dominado por cactos e pelas fotogênicas árvores divi-divi, que crescem tortas, com a copa voltada para o sentido em que o vento sopra. Aruba é muito pequena: tem apenas 181 quilômetros quadrados de área, o que equivale aproximadamente ao tamanho de Ilhabela, no litoral paulista. Mas para desvendá-la por inteiro você precisará alugar um veículo 4x4 ou juntar-se a uma expedição em jipes, que ali se chama Jeep Safari. O conforto também é muito diferente do que nos domínios da areia branca e dos drinques coloridos. Como roupas em uma máquina de lavar, o povo sacoleja dentro dos jipões - e sai como se tivesse lama no reservatório para sabão. No dia seguinte, o corpo dói como quando se volta a fazer ginástica depois de tempos parado. Mas o off-road é uma das grandes delícias de Aruba, os sacolejos inclusive. A expedição passa por lugares espetaculares, muito diferentes da redundante imagem de praia dos folhetos de propaganda. Uma enorme ponte natural, esculpida em uma pedra de coral pelo mar bravio (que torna a selvagem costa norte da ilha imprópria para banho). As ruínas de uma mina de ouro. Uma pitoresca capela com vista para o mar. Cavernas com pinturas rupestres. O Farol California, construído depois que o navio de mesmo nome, famoso por ter recebido e ignorado os sinais do Titanic em agonia, afundou no mar da ilha.
Aruba é como um amor antigo que ficou esperando você por anos, tão perfeito quanto a lembrança que se tem dele. O que mudou fomos nós. Ou melhor: o valor do nosso dinheiro. Mas isso tem jeito. Pelo menos se Aruba continuar fazendo todo tipo de agrado para nos reconquistar de vez.
VÁ ÀS COMPRAS
Uma das poucas plantas cultivadas em Aruba, o aloe vera serve de matéria-prima para cremes e loções pós-sol fabricados lá mesmo. Os produtos da marca Aruba Aloe (www.arubaaloe.com) são exportados para vários países, embora sejam especialmente providenciais in loco. Na falta de outros produtos típicos, a ilha vende o melhor dos seis continentes, com impostos muito baixos. Em Oranjestad, encontram-se relógios suíços, câmeras japonesas, jóias, bebidas e perfumes franceses por preços mais baixos que nos Estados Unidos.
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