No parágrafo acima, narrado por Woody Allen na cena de abertura de sua obra-prima Manhattan, o cineasta deixa claro seu amor pela cidade, cenário de suas histórias, combustível de suas neuroses e lar-doce-lar de seus crimes e pecados... Assim como Woody, sou um eterno apaixonado por Nova York, tantas vezes narrada, cantada e filmada. Quem nunca desejou estar lá? É minha Esfinge pessoal: o destino que mais visitei no mundo e que ainda assim me permanece indecifrável. Porque não existe lugar melhor para realizar todos os seus desejos. É como se o gênio da lâmpada tivesse decidido: liberou geral! Basta escolher quem você quer ser: romântico no Central Park, moderninho no Soho, perdulário na Madison Avenue, doidão no East Village, artista no Chelsea, quatrocentão no Upper East Side, sacoleiro em Chinatown, intelectualóide ou, melhor ainda, ser qualquer uma dessas pessoas em qualquer um desses lugares.
As combinações são infinitas. Afinal, em que outro lugar do mundo você pode, em um mesmo dia, comprar dois pares de sapatos, assistir ao show da última melhor banda de todos os tempos, morder um cachorro-quente delicioso em qualquer esquina, esbarrar com sua celebridade favorita, patinar numa pista de gelo, descobrir o exemplar raro do seu livro favorito em um sebo e chorar com a última ária de uma ópera? Se você ainda não se convenceu, lembre-se: o Metropolitan está aqui, os corais gospel do Harlem também, bem como o charme art déco dos arranha-céus Chrysler e Empire State, o olhar protetor da Estátua da Liberdade, o melhor museu de arte moderna do mundo e os musicais da Broadway.
Depois da queda das torres do World Trade Center, a cidade mudou. Mas continua igual, já que uma coisa não exclui a outra. Nova York sempre será a mesma porque sua natureza é justamente esta: mutante. Uns dizem que Berlim já a ultrapassou no quesito capital do mundo. Outros preferem Londres. Alguns nacionalistas mais afoitos até ousam especular o nome de São Paulo como a Babilônia do terceiro milênio. Na dúvida, eu não arrisco e continuo fiel a Nova York, simultaneamente cérebro e coração do planeta.
Desde sua descoberta por Giovanni da Verrazano em 1524, nem por um segundo sequer ela se fez discreta no mapa. Tanto que você já deve ter ouvido milhões de histórias sobre a cidade. Mas acredite: o melhor mesmo é ter a sua própria.
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