"Você é nova no bairro?", pergunta Nick, grego de Salônica, ao colocar na minha frente o prato de omelete de queijo com batatas. Não era. Já havia me hospedado no Brooklyn uns cinco anos antes, não exatamente em Park Slope. Naquele momento, entretanto, achei melhor dizer que minha intenção não era fixar residência. "Estou só de passagem, de férias", disse. "Então está aqui em casa de amigos?" Menti que sim, embora tudo conspirasse para que eu e Julia, dançarina do ventre, professora de ioga, esposa do baixista Jason, de quem eu havia alugado o apartamento por meio de um anúncio de um site da internet, virássemos de fato amigas. Tudo para não ter de explicar ao Nick por que eu havia escolhido ficar no Brooklyn e não em Manhattan, coisa que nem mesmo eu sabia direito.
Nathan Glass, o personagem-narrador de Desvarios no Brooklyn, de Paul Auster, tinha motivos mais concretos. Recuperando-se de um câncer de pulmão, buscava um lugar sossegado para morrer e alguém lhe recomendou o Brooklyn. Simples assim. Eu não procurava um lugar para morrer, mas estava numa onda mais para "papos-cabeça-numa-tabacaria-do-Brooklyn" ao estilo de Cortina de Fumaça ou Sem Fôlego, ambos roteiros escritos pelo mesmo Paul Auster, do que para enfrentar o ritmo nervoso de Manhattan. O próprio autor é morador da área (Park Slope, fui descobrir mais tarde) há 25 anos e já disse em entrevistas que resolveu se mudar para aquele lado do rio pois estava muito caro comprar alguma coisa em Manhattan. Hoje, não sai de lá porque adora a atmosfera. Segundo ele, a vida no Brooklyn é mais calma e de uma certa forma mais cosmopolita que a de Manhattan, talvez porque o lugar não se leve tão a sério.
Julia Aronson, que se auto-define uma típica "Brooklyn girl", só fez confirmar que eu havia escolhido o lado certo da ponte. Ao telefone, depois de diversos e-mails de um lado e de outro, perguntei como era Park Slope. "Eu amo isso, há restaurantes ótimos, lugares bem legais para sair à noite e todo mundo é feliz", respondeu. Imaginei uma propaganda de margarina, mas comprei a idéia. Mesmo porque nunca conseguiria alugar um apartamento de dois dormitórios só para mim em Manhattan por 50 dólares ao dia. Por esse preço eu até poderia ficar num quarto com banheiro compartilhado no YMCA do Harlem. Mas nunca no da 47th Street ou no da 63th Street.
Se eu esperava um Brooklyn de filme do Spike Lee, Park Slope não era o lugar. Nas ruazinhas numeradas que cortam as avenidas maiores, seqüências de impecáveis browntones, aqueles sobrados geminados de pedra escura, mostram que a grana circula forte por ali. "Isso aqui já foi um lugar de jovens profissionais alternativos. Mas hoje eles ganharam dinheiro, já têm filhos e o que era hippie virou chique", disse Julia, me levando para dar uma volta na 7th Avenue e apontando o restaurante tailandês mais criativo, o café mais yummi, o sebo mais necessário e o bagel shop mais sensacional. E, depois de dizer que eu poderia ouvir seus mais de mil cds, comer qualquer coisa que estivesse na despensa (coisa que não fiz, claro), foi encontrar o marido em Budapeste e me deixou o apartamento inteiro.
Naquela primeira manhã por ali ainda não havia visto como todo mundo era feliz, mas, caminhando pelo Prospect Park, a algumas quadras de "casa", percebi que ao menos eu seria. Com lagos, bosques, zoológico, jardim botânico e mais de 2 milhões de metros quadrados (o Ibirapuera, em São Paulo, tem três quartos disso), ele não chega a ter o tamanho do Central Park (os dois, inclusive, são obra dos mesmos arquitetos: Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux). Em compensação, não é nenhum alvo mundial de turistas, mesmo tendo em uma de suas esquinas o Brooklyn Museum, que exibe de uma importante coleção de 4 mil peças do Egito Antigo a obras-primas de Degas ou Cézanne. Se estivesse do lado de lá do rio, com seu recém-inaugurado foyer de vidro à la pirâmide do Louvre, viveria lotado. Desse lado, é apenas mais uma das "coisas do bairro". Como se o Brooklyn ainda conseguisse manter uma aura de normalidade despretensiosa que Manhattan, com toda sua simbologia de poder, não consegue mais. Se a imagem clássica do Central Park é a daquelas carruagens que levam turistas, a do Prospect é bem mais roots: turmas de adolescentes da região em suas aulas de equitação matinais.
É errado chamar o Brooklyn de bairro. Apesar de não gozar da autonomia de uma cidade, é quase isso. Ele tem 60 vizinhanças, 2 milhões e meio de habitantes e mais de três vezes o tamanho de Manhattan. Seria o quarto maior município dos EUA, caso ainda mantivesse esse status. Fundado pelos holandeses em 1645 como "Breuckelen", o Brooklyn permaneceu como cidade até 1898, quando, juntamente com os outros então "municípios rurais" do Bronx, Queens e Staten Island, se uniu a Manhattan para ser um dos cinco boroughs, os distritos que formam a Grande Nova York. E virou o perfeito subúrbio classe média americano cujo combustível para o crescimento foi - e ainda é - a limitação física e conseqüentemente o cada vez mais impraticável preço do metro quadrado na Ilha de Manhattan. Um tranqüilo bairro-dormitório que, no entanto, a cada dia conta com mais enclaves que se parecem com a vizinha "that never sleeps".
O melhor exemplo disso é o bairro de Williamsburg. Sua espinha dorsal, a Bedford Avenue e todas as transversais entre as ruas 4 e 10 são hoje uma continuação natural da cena alternativa de Manhattan. Graças à linha L do metrô, um verdadeiro "expresso da balada", que começa no badalado Meatpacking District, passa pela Union Square, segue pelo East Village e desemboca imediatamente depois na Bedford Avenue. É o mais acessível pedaço bacana do Brooklyn para quem está no coração de Manhattan - e muitas vezes o máximo de Brooklyn a que se permitem os nova-iorquinos mais resistentes em relação ao que está acontecendo fora da ilha.
Até eles, no entanto, perceberam que vale a pena cruzar o rio para jantar em lugares como o restaurante tailandês Sea, que serve pratos deliciosos a preços bem razoáveis e, lá pelas tantas da noite, quando o dj aumenta o volume, transforma-se numa animada baladinha. Ou quem sabe para assistir a um show de uma nova banda no Galapagos ou provar da fonte a cerveja que, apesar da produção bem pequena, ultrapassou em muito as fronteiras do Brooklyn e já virou cult principalmente na Europa, a Brooklyn Lager. O bar da cervejaria Brooklyn Brewery abre apenas nas noites de sexta-feira para happy hour e promove tours com degustação aos sábados.
Durante o dia, vale rodar pelas galerias de arte (desde a década de 80, cerca de 3 mil artistas foram do SoHo para lá, em busca de aluguéis mais baixos), comer um hambúrguer no descoladinho Diner acomodado num vagão de Pulmann centenário ou apenas tomar um café na melhor vitrine dos tipos que circulam pelo bairro: o Verb Cafe, localizado numa curiosa galeria, onde um estúdio de piercing fica na frente de um cibercafé freqüentado principalmente por judeus ortodoxos.
Cena que não poderia ser mais Williamsburg. O trecho ao sul da Division Avenue é o reduto dos Satmar, uma corrente de judeus hassídicos ortodoxos que chegaram em massa do Leste Europeu para escapar da Segunda Guerra e passaram a dividir a vizinhança com porto-riquenhos e dominicanos. O trecho norte do bairro, Greenpoint, é o reduto polonês - e hoje também muito procurado por jovens artistas para quem Williamsburg, com seus antigos galpões industriais transformados em luxuosos lofts com vista para Manhattan, já não cabe no orçamento.
Foi em busca de aluguéis mais baixos que a artista plástica Elma Slater, hoje com 91 anos, trocou, ainda na década de 50, o Greenwich Village pelo Borough Park, bairro que concentra uma das maiores comunidades de judeus hassídicos fora de Israel. "As pessoas aqui têm muito dinheiro, repare na quantidade de joalherias e bancos", diz, me levando para dar uma volta na 13th Avenue, a movimentada rua comercial do bairro. Ela tinha razão, mas eu reparei ainda mais na quantidade de lojas de perucas, restaurantes fast-food lituanos e mães empurrando carrinhos de bebês duplos ou triplos - em índice de natalidade, Borough Park só perde para Williamsburg. Judia alemã nem um pouco ortodoxa, ela, que sempre se considerou uma outsider por ali, hoje adora. "Eles cuidam de mim, sempre querem saber como eu estou, me convidam para jantar. Me sinto segura", diz. "E, quando canso de comida kosher, fujo para Sunset Park", brinca, se referindo ao bairro hispânico, ao lado.
Resolvi então fazer um teste: fui andando pela 53th Street da 13th Avenue até a 4th Avenue, típico passeio de quem não tem muito o que fazer. Descobri então por que o rapper Guru, brooklynite da gema e famoso por sua inventiva mistura de hip hop e jazz, apelidou o Brooklyn de "The Planet". Um planeta, aliás, bem estranho, em cuja singular geografia está correto dizer que a Ucrânia faz fronteira com a República Dominicana. O segredo está em descobrir o melhor desses mundos.
O mais saboroso latte só poderia vir dos italianos de Carroll Gardens, em lugares como a cafeteria da família Amico, desde 1946 na Court Street. A rua paralela, a Smith, que concentra alguns dos restaurantes mais agradáveis do Brooklyn, desemboca no Oriente Médio, ou melhor, nos mercados árabes da Atlantic Avenue. E o melhor clubinho de jazz que encontrei ficava, por pura sorte, a três blocos de "casa". Se eu estivesse em Manhattan, muito dificilmente resistiria aos seus encantos a ponto de chacoalhar meia hora no metrô até o Barbès, em Park Slope. Ou nem saberia que ele existia. Se o prazer de Manhattan está em seu jeito escancarado, exibido, eu acabava de descobrir o do Brooklyn: encontrar as portinhas certas, como era o caso daquela ali.
Benjamim Goldberg tinha guiado mais de uma hora para chegar lá. Veio do haras onde mora, ao norte de Nova York. A paixão pelos cavalos nasceu na infância em Park Slope, das aulas de equitação no Prospect Park. "Em Manhattan é difícil encontrar um lugar como este, onde o vidro está sempre embaçado e todas as noites há ótimas bandas de jazz experimental. Lá todos os papos giram em torno de dinheiro, de poder. Todo mundo quer saber quem você é, o que você faz. Manhattan é Chanel; o Brooklyn é Levi's", compara.
Isso me lembrou da última temporada de Sex and the City, quando a advogada Miranda Hobbes, casada e com filho, decide morar no Brooklyn, para horror de todas as amigas, inclusive dela mesma. Quando seu marido, Steve, a aconselha fazer o trajeto do trem para casa de tênis, ela desabafa: "Você pode me fazer sair de Manhattan, mas nunca desistir dos meus sapatos". O Brooklyn não combina com as sandalinhas Manolo Blahnik, imortalizadas por Sarah Jessica Parker, a Carrie da série.
Quem estiver disposto a conhecê-lo precisa calçar um tênis, sair andando e, mesmo assim, estar ciente de que não será possível ter esse desejo completamente satisfeito. "Só os mortos conhecem o Brooklyn, uma vez que para isso é necessária uma vida", escreveu Thomas Wolfe, natural da Carolina do Norte e que se mudou em 1931 para uma casa na rua Montague Terrace, em Brooklyn Heights, pedaço que sempre foi e continua sendo o mais chique além-rio. Manhattan vista do Brooklyn Heights Promenade, passarela de pedestres, ali do lado, explica tudo.
Basta seguir por ele em direção à Brooklyn Bridge para chegar ao Empire-Fulton Ferry State Park, onde desembarcam as balsas de linha que chegam do píer 11, em Wall Street. Sem dúvida a melhor vista de Manhattan. Essa área entre as pontes é conhecida como Dumbo, sigla bem auto-explicativa para "Down Under Manhattan Bridge Overpass" e, desde a década de 90, é reduto de artistas, galerias de arte e lofts hoje milionários. E mesmo para quem acha que "time is money" e que o tempo em Nova York é muito precioso para visitar um primo pobre, vale gastar a sola das Manolo Blahnik para pisar ali. Nem que seja para voltar correndo, atravessando a pé os 1 825 metros da Brooklyn Bridge, e ver que linda é a Ilha de Manhattan surgindo, pouco a pouco, do outro lado.
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