"Ya vamos!", grita o condutor. E imediatamente os cinco cães da raça alaskan malamute começam a correr e - com esforço - puxar o trenó. São 20 minutos por uma trilha no meio de um bosque lindíssimo. Em Termas de Chillán, a estação se organizou nas encostas de dois vulcões: os Chillán Velho e Jovem. A base fica a menos de 1 700 metros, altitude que comporta árvores frondosas. "Stop!", grita o condutor. O comando desliga um botão nos cães. Chegam a voar flocos de neve na nossa cara.
O passeio é só uma das atividades outdoor de uma estação onde esquiar não é o principal, como é o caso de Portillo. Suas pistas não garantem grandes emoções aos mais experientes. Os fora-de-pista não são muito radicais nem os teleféricos muito novos. Para se tornar competitiva em relação a Portillo e até a Valle Nevado, a maior estação chilena, Chillán investiu numa estrutura hoteleira de primeira. Aposta certa para um lugar sossegado e belo por natureza, onde a paisagem, com bosques, é um dos pontos altos.
São as fontes termais, entretanto, o it da estação, e uma das coisas que fazem o Gran Hotel Chillán - o cinco-estrelas detentor de um competente spa - ser a maravilha que é. Além dele, há mais dois hotéis. A opção mediana, o Pirigallo, tem boa estrutura e até spa, mas pouquíssimo charme. O mais econômico, o Pirimahuida, tem o inconveniente de ficar em Las Trancas, a 8 quilômetros de lá.
Para ser franca, quem vai a Termas de Chillán tem de ficar no Gran Hotel. Guarde dinheiro, deixe para o próximo ano, mas fique lá. Ele é chique e discreto, um daqueles lugares onde você não entende bem por quê, mas acha tudo uma delícia.
A começar pelas piscinas. Na entrada, uma plaquinha avisa que não é possível controlar a temperatura da água (em geral,de 36ºC a 38ºC), já que ela vem direto do vulcão. É um tanto pegajosa e com odor de enxofre, mas basta se acostumar para caminhar, dentro dela, para fora do hotel, onde o céu negro passa a ser a cobertura. O choque térmico violento sente-se no rosto, mas o corpo não sofre.
Para chegar às piscinas é preciso passar pela recepção do spa - elegante, cheia de chazinhos gostosos. A melhor estratégia é reservar no primeiro dia todos os tratamentos que desejar, ainda mais se quiser conciliá-los com o esqui. Digo "se quiser conciliar" porque não é raro encontrar gente no Gran Hotel que vem só para relaxar mesmo.
Não é difícil tomar essa decisão. Num hotel em que há água termal saindo até das torneiras - e da banheira - do quarto, e onde se pode passar os dias entre uma sessão de shiatsu na água, uma de fangoterapia (aquele tratamento com lama vulcânica) e outra de spirit heal (massagem que une reflexologia, exercícios respiratórios e alongamento), dá vontade de sair para sentir o ventão frio do teleférico na cara?
É aí que entram os trenós puxados pelos cachorros. Eles são uma alternativa outdoor ao esqui. Junto com o esqui de fundo (modalidade para trilhas quase planas, incluída entre as atividades gratuitas do resort) e as motos de neve, que você mesmo pode pilotar por trilhas no bosque.
Por volta das 16h30, a massa volta dos passeios e das pistas diretamente para um chocolate quente com biscoitos à disposição no living do Gran Hotel. É um dos momentos auge do dia - reunidos nos sofás confortáveis, todos conversam. Isso pode durar horas, até o jantar, geralmente no restaurante Shangri-lá, único que não requer reserva prévia. Os dois restaurantes para variar são o aconchegante Montañes, com pratos mais elaborados e fondues, e a steakhouse do Club House. Ainda assim, a gastronomia não é o ponto alto de Termas de Chillán. (Esse problema se compensa com muito vinho.)
É no mesmo salão de convivência onde rolam, depois das 22h, shows de música ao vivo. Há quem continue a noite no pub anexo ao Club House. Mas não é a escolha da maioria. Chillán é a estação de esqui mais romântica da América do Sul. Depois de tanta água quentinha de vulcão, tanto vinho e um showzinho de sax no salão, o melhor a fazer é voltar para o quarto. Bem acompanhado.
RaioX de Termas de Chillán*
Só aqui tem água termal da piscina à banheira do quarto
Vá se quer outras atividades além do esqui ou está com o(a) namorado(a)
Não vá se for um esquiador avançado ávido por adrenalina
Altitude dos hotéis 1 680 metros
Quilômetros esquiáveis 47
Pistas 29 (4 verdes, 12 azuis, 10 vermelhas e 3 pretas). Poucas são difíceis, mas o bosque ao redor é lindo
Fora-da-pista 4 trilhas pouco radicais
Sinalização Suficiente. A montanha é pequena
Lifts 11 (5 teleféricos e 6 pomas)
* com dicas da Confederação Brasileira de Desportos na Neve
Portillo, a estação dos esquiadores
Parece casa de vó no interior. Você vai sabendo que não encontrará muito agito nem novidade. Só aquele clima acolhedor, comida boa e muitos cuidados. Um pequeno hotel, meio feião por fora, perdido no meio da Cordilheira dos Andes chilena. Para qualquer lado que se olhe, a paisagem é totalmente selvagem: montanhas muito pontudas, encostas assustadoramente íngremes. No meio delas, uma lagoa linda, a Laguna del Inca, que congela em muitos invernos. Melhor, porque assim os esquiadores que despencam pelas pistas ao redor podem fincar bastões também na neve de 1 metro que se acumula sobre ela. Em Portillo, eles são vistos por toda parte, e sempre voando. No hotel, entram de botas de esqui mesmo e se esparramam nos sofás do único living, na frente da lareira.
O hotel é antiguinho, mas superaconchegante. Há tábuas de madeira rangendo pelos corredores e o elevador nem tem porta automática, mas é forrado de tecido de tear indígena - um charme. Os quartos têm camas com fofíssimos edredons, mas não têm televisão. Até por isso, os 420 hóspedes vivem nos sofás do living, no bar com música ao vivo ou no único restaurante. Lá, todos têm sua mesa e seu garçom fixos, e comem (muito bem) quatro vezes ao dia. Não há bufês.
Todas as noites dá para ver, sentado à mesma mesa de jantar, a "avó" por trás de tudo isso: o americano Bob Purcell. Ele é o dono de Portillo desde 1962 e pode não ter bala para renovar os azulejos dos banheiros, mas acompanha de perto a preparação impecável das pistas (este ano, estréiam mais um lift e uma plataforma de serviços na base da pista Plateau). Uma delas, a Roca Jack, foi palco de um recorde mundial de velocidade - 217 quilômetros por hora -, e é a queridinha das equipes italianas e austríacas que treinam no Hemisfério Sul durante o verão europeu. Purcell também não descuida de detalhes como as fotos antigas, em preto-e-branco, penduradas nos corredores do hotel. A maioria mostra cenas de 1966, quando ali se realizou um campeonato mundial de esqui. Portillo é também a estação mais antiga da América do Sul. O hotel foi inaugurado em 1949, mas há registro de gente esquiando por ali desde 1887.
Ainda hoje, quem vai para lá é para esquiar. E bem. "Não há muitas pistas para novatos nem meio-termo: ou são fáceis demais, ou 'pirambas'", diz Riccardo Moruzzi, pentacampeão sul-americano de snowboard slalom, que já testou esses desfiladeiros por sete invernos.A atual campeã sul-americana de esqui, Luci Arnhold, também acha que principiantes se dão bem por ali."Sempre que me perguntam qual a melhor estação para aprender a esquiar com a família, recomendo Portillo. Ninguém precisa ficar carregando o equipamento. Todos entram e saem do hotel com os esquis nos pés", diz ela com a segurança de quem já foi mais de dez vezes. "Se você quiser esquiar, comer bem e dormir cedo, Portillo é pra você."
RaioX de Portillo*
Só aqui tem lifts do tipo va et vien - poma para 5 pessoas lado a lado; a Laguna del Inca entre as pistas
Vá se for expert; quiser aprender; estiver com a família
Não vá se quiser agito e badalação
Altitude do hotel 1 680 metros
Pistas 17 (3 verdes, 4 azuis, 6 vermelhas, 4 pretas), todas muito bem cuidadas. As azuis são mais difíceis que a média
Fora-de-pista17 ótimas trilhas
Heli-ski 6 percursos diferentes
Sinalização A estação é pequena, é fácil se localizar
Lifts 13 (5 teleféricos, 3 va et vien, 5 pomas). São rápidos. Só um deles abre para pedestres (qui., 13h/15h)
* com dicas da Confederação Brasileira de Desportos na Neve
...com a palavra, os EXPERTS
O HOTEL
Marcelo: "É superaconchegante. Você vai jogar um gamão na sala, sempre conhece gente nova. O chá da tarde é muito legal. Os quartos, no entanto, têm pouca coisa. Uma vezquase comprei uma TV para levar".
Ricca: "Se você for em quatro pessoas, é melhor ficar nos alojamentos anexos. São bem mais baratos e pode-se usar a estrutura do hotel".
Luci: "No restaurante do hotel, em 15 dias não se repete nenhum prato. E tem o chá da tarde, às 5 horas. Come-se o dia inteiro. E bem. Além disso, a localização do hotel é ótima. Para mudar de pista, passa-se por lá. Quer ir ao banheiro, dar uma descansadinha? É fácil. E não precisa nem tirar as botas".
HELI-SKI
Ricca: "Fiz o do Aconcágua, a seis minutos de vôo. Você desce do helicóptero e esquia o dia inteiro, cruza o vale, pára pro almoço. Até intermediários podem ir".
PROGRAMA LEGAL
Marcelo: "O restaurante Tio Bob's, em cima da montanha, só funciona para o almoço, mas toda semana promove um jantar especial. Dá para voltar para o hotel esquiando, mas quem não for esquiador desce de cadeirinha".
VISUAL
Luci: "O Tio Bob's é também o melhor ponto para ver a Laguna del Inca. Mas estar num quarto voltado pra ela é romântico, é show".
BALADA
Marcelo: "É fraca. Todos só querem saber de esquiar no dia seguinte. Para tomar cerveja, adoro ir ao restaurante dos funcionários, o La Posada. Os professores inventam alguma coisa por lá e muitos hóspedes acabam indo".
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