A origem do adjetivo que caracteriza os cerca de 700 quilômetros de costa ao leste da Cidade do Cabo não tem tanto a ver com a natureza agreste de suas praias, como se pode imaginar: a região é famosa pelo mar revolto e suas barreiras de rochas e corais a apenas alguns metros da arrebentação, combinação selvagem que levou a pique um sem-fim de embarcações ao longo de sua história. Entre maio e novembro, entretanto, o mar acalma e as baías abrigadas servem de "quintal" para a procriação de baleias. Os golfinhos são vistos aos montes, nadando junto a numerosos cardumes de peixes. Nem é preciso dizer que a pesca é um dos grandes atrativos dos 280 quilômetros desta faixa litorânea que começa no rio Kei, próximo a East London, ao sul, e vai até a foz do rio Umtamvuna, ao norte, na fronteira com KwaZulu-Natal.
Durante o apartheid, o rio Kei servia como divisa entre a África do Sul branca e o território independente do Transkei, onde eram segregados os indivíduos de ascendência xhosa (veja o boxe virando a página), tribo de origem bantu. Como resultado, ainda hoje, ao cruzar o rio se percebe a diferença de poder aquisitivo entre uma margem e outra. Isolada durante anos, a Costa Selvagem luta para recuperar o tempo perdido e se desenvolver economicamente. Em contrapartida, ela é também uma das áreas menos afetadas pelo turismo predatório.
Ainda é pequeno o movimento nesta área, ao sul de East London. São poucos os turistas de espírito mais aventureiro, dispostos a descer a rodovia N2, passar por Umtata, a antiga capital do Transkei, enveredar-se por estradas de terra, com animais na pista, para finalmente alcançar o paradisíaco (desculpem-nos o clichê, muito apropriado a despeito de não haver menções a praias no Éden) trecho de dunas, florestas costeiras, cachoeiras despencando diretamente no oceano e muito sossego. Mas sem muito conforto, deve-se dizer.
Port St. Johns é a principal cidade da Costa Selvagem. Boêmia, atrai artistas e mochileiros, principalmente para a Second Beach, uma das mais bonitas do litoral. Logo ao sul da cidade, fica a que é de longe a melhor opção de hospedagem na região, o confortável hotel Umngazi River Bungalows (047/564-1115, www.umngazi.co.za. Diárias a partir de R480, por pessoa, com pensão completa. Cc: MC, V). Os bangalôs em meio à mata costeira, a piscina à beira da praia, tudo é integrado de um jeito legal à paisagem. Outros vilarejos procurados, com bons lugares para se hospedar, são Coffee Bay e Cintsa (www.ectourism.co.za). Em Coffee Bay, o destaque é o "Hole in the Wall", uma formação rochosa na praia furada ao meio. Os xhosas a chamam "lugar de trovão", marco da grande tragédia de seu povo. Em 1856, uma criança da tribo profetizou ali que, se suas colheitas fossem destruídas e o seu gado morto, os ancestrais viriam em seu socorro e exterminariam o exército colonizador. As instruções foram seguidas, os ancestrais não vieram e a tribo jamais voltou ao lugar.
O mais célebre integrante da etnia xhosa é Madiba, como Nelson Mandela é carinhosamente chamado, em referência ao seu clã. Madiba nasceu num vilarejo perto de Qunu, onde hoje tem uma confortável casa para passar férias. A 30 quilômetros, na modernizada Umtata, fica o Nelson Mandela Museum (047/532-5110, www.mandelamuseum.org.za), inaugurado pelo próprio em 2000. Pequeno e acolhedor, retrata muito bem a luta deste ícone xhosa - e sul-africano.
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