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Adriano Gambarini

O dia-a-dia dos fotógrafos da National Geographic Brasil

Sobre este Blog

Adriano Gambarini Adriano Gambarini é fotógrafo e escritor há 15 anos. Seu arquivo tem 50 mil imagens do Brasil e do mundo, com ênfase à biodiversidade, ecossistemas, vida selvagem, cavernas, cultura e arquitetura. Colunista da agência ambiental OECO, é autor de 7 livros de fotografia.

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O SERTÃO - Primeira parte

Adriano Gambarini - 19/11/2009


Voltei recentemente do sertão baiano. Cada investida pela caatinga e alma sertaneja é como um tapa de luva de pelica em nossos padrões e individualismo urbanos. Andar pelo chão ressequido do sertão é um caminho de mão única, rumo a uma reconstrução de valores e conceitos até então aparentemente sólidos. 


Mas basta o olhar puro de uma criança, o sorriso ingênuo de outra, o carinho desapegado dos que te recebem, para tudo que é sólido desmoronar. E você se vê sem tempo para desfrutar tanta felicidade, tanta paz de espírito, tanto envolvimento nos gestos simples daquelas pessoas; que cedem a cama pra visita, matam a maior galinha para comemorar a vida com a visita, andam léguas para comprar café no mercado para a visita. E você, sem se dar conta do tempo, nem percebe que já voltaram e passaram um café no coador de pano, na chaleira empretejada pelo fogão a lenha, para a visita.


E você, sem perceber que não existe o tempo, pára de perceber a parede de taipa, a colcha poída, a xícara trincada, e sente que aquelas pessoas não te veem como visita - afinal, você é uma pessoa! E cuidar da pessoa, não importa quem seja, é tudo que o sertanejo faz. “A água é pouca, a terra é árida, o sol é quente, a rotina é doída! Então, vamos cuidar das pessoas... nossos irmãos.” 


E você, agora se tornando cúmplice do tempo, agora percebendo que a vida é para ser vivida, e não visitada, começa a reconhecer a si mesmo...


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Fotografia ambiental na Cidade Maravilhosa

Adriano Gambarini - 23/10/2009



Em tempos de preocupantes alterações ambientais e de suas graves conseqüências é cada vez mais clara a necessidade de mudança de hábitos. Temos de usar melhor os recursos naturais. Na fotografia, onde a popularização e volatilização do ofício é cada vez maior, surge no Rio, ao pés do Cristo Redentor, a exposição fotográfica Floresça! Imagens da Fronteira da Conservação.


Promovida pela Conservation International (CI) e pela Empresa BG Brasil, a exposição traz 58 imagens fascinantes de diversas regiões do mundo onde a CI apoia intensas atividades de pesquisas, seja no estudo da biodiversidade, na avaliação dos impactos causados por mudanças climáticas, por exemplo, quanto nas ações sustentáveis de comunidades locais para um melhor convívio homem-ambiente.




A proposta é apresentar a fotografia como uma importante ferramenta para a divulgação de ações ambientais e sustentáveis, conscientização e educação ambiental. Para tanto, a exposição é acompanhada por um grupo de monitores, estudantes de biologia, que conduzem os visitantes e explicam sobre o que está sendo abordado em cada fotografia.




Foto: Russ Mittermeier

A convite da Conservation International estive presente na abertura da exposição, compartilhando com os monitores e convidados um pouco do que aprendi nos últimos vinte anos envolvidos com expedições científicas, e relatando sobre o dia-a-dia das atividades de pesquisas na Calha Norte.


Foto: Cristina Mittermeier

A exposição já ocorreu em Washington e Londres, e mescla fantásticas imagens de fotógrafos como Sterling Zumbrunn, John Martin e Cristina Mittermeier. Fiquei responsável pela documentação do fascinante e inexplorado cenário da Amazônia paraense, no extremo norte do estado, em expedições próximas às Guianas e ao Suriname. Luciano Candisani e Charles Young documentaram outras regiões no Brasil.


Foto: Sterling Zumbrunn

Assim, é possível admirar desde recifes de corais da Ilha de Bantanta, em Raja Ampat, aos rostos marcantes de moradores de Madagascar trabalhando com agricultura sustentável. Passear pelos olhares profundos de chimpanzés órfãos aos gorilas das Montanhas do Congo.


Foto: John Martin

A Conservationl International apoiou, ao longo do ano passado, todas as expedições ocorridas na região da Calha Norte, coordenadas pelo Museu Emilio Goeldi, SEMA-PA e o apoio de diversos parceiros. O resultado pôde ser visto aqui no meu Blog, na edição de setembro da National Geographic Brasil, e agora, no centro de visitantes do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Local: Centro de Visitantes do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Até o dia 9 de novembro, das 8h às 17h. A entrada é gratuita.



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Cerrado ou Serrado?

Adriano Gambarini - 14/09/2009


Foto: Parque Nacional Campos Amazonicos, RO.

O dia 11 de setembro foi escolhido pelo governo para ser o Dia do Cerrado. Mas resolvi pensar um pouco em números, veja lá o que achei:

É o 2º maior bioma do Brasil.
Está espalhado em 12 estados brasileiros.
Ocupa cerca de 24% do território nacional.


Foto: Parque Nacional Serra da Canastra, MG.

Mas...

48% de sua área já está desmatada!
Apenas 7% de sua área está protegida em Unidades de Conservação.


Foto: Campos de lírios (Habranthus sp), MG.


Foto: Campos rupestres, MG.


Foto: Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla).


Foto: Galito (Alectrurus tricolor).

Paradoxalmente, esta savana brasileira, que abriga a maior biodiversidade do mundo, é palco de uma das luzes mais fantásticas para se fotografar! Sua localização em regiões propícias e a pouca umidade no ar permitem uma luz polarizada, com cores intensas, que só acentuam a beleza de suas flores endêmicas, aves, lobos, tamanduás... Mas tanta grandiosidade está dando lugar para a monótona monocultura de grãos e o tom avermelhado de queimadas seguidas de um cinza mórbido.


Foto: Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus).

"Sr. Governo", talvez seja melhor, ao invés de criar um dia para homenagear um bioma, proteger mais este bioma, para então ter algo a se comemorar neste dia...


Foto: Queimada.


Foto: Queimada... De novo.


Foto: Queimada... De novo, de novo!!


Foto: Pote de ouro no final do arco-iris... Cerrado?


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Calha norte, paraíso intocado

Adriano Gambarini - 03/09/2009



"A gente precisa mostrar a magia daquele lugar!". Foi esta frase que ficava ecoando dentro de mim toda vez que falava com Felipe Milanez, editor da National Geographic Brasil.



Nos últimos meses foram vários e-mails trocados, lembranças e ideias sobre a viagem que fizemos à região da calha norte, em janeiro deste ano. Ficávamos confabulando juntamente com o pessoal da redação, a melhor forma de conseguir descrever com fotos e textos, toda essa magia que existe por lá!



Em uma das expedições, foram cerca de 20 dias enfurnado num acampamento dentro do coração paraense da Amazônia, cujo único acesso era por ar: um vôo de uma hora e meia de monomotor até um acampamento principal, e mais uma hora de helicóptero. Ao longe, uma pequena clareira aberta apenas para o pouso, nos esperava misteriosa. E após o desembarque, nosso único contato com o mundo exterior era um telefone por satélite, usado apenas para emergências.



O acampamento, apesar da impecável estrutura montada pelos mateiros, era, no final das contas, um acampamento com tudo que se tem direito: uma ou outra cobra coral (daquela bem "marvada"!) cruzando entre nossas barracas; centenas de mosquitos Tatuquiras nos visitando (o mosquito que transmite leichmaniose); banho de canequinha, necessidades fisiológicas no buraco, enfim... Coisas boas de se lembrar! Mas tinha também feijão bom, farinha grossa de mandioca, pimenta brava, bolacha doce, suco natural de saquinho, muitas risadas, muitos amigos que marcam historia...



Eu acompanho e fotografo expedições científicas há pelo menos quinze anos. E devo confessar que uma das sensações que mais me motiva - do ponto de vista humano, é conviver com a empolgação dos pesquisadores. O amor incondicional que muitos deles têm pela arte de pesquisar, é algo fora do comum. O que os rege é uma curiosidade pelo mundo que os rodeia, a ideia de entender todo aquele complexo emaranhado de vidas dentro da floresta. É acreditar que suas descobertas podem mudar o destino de toda uma biodiversidade! Isto me impressiona, me estimula a trabalhar em total parceria com suas necessidades;  entregar minha dedicação, física e mental, até meu corpo exaurir de cansaço! (não foram poucas as vezes, nestas expedições amazônicas, em que fiquei 40 horas acordado, acompanhando diferentes equipes de pesquisa). Tudo para conseguir a fotografia que represente melhor o trabalho dos pesquisadores, o melhor close do animal, o melhor ângulo para expressar aquela floresta mágica. Certa vez um pesquisador comentou que tenho alma de naturalista. E isto foi um dos maiores elogios que já recebi, realmente uma honra dentro desta vida errante de fotógrafo.



E como se não bastasse, convivemos com a alegria contagiante dos mateiros, que passam um perrengue danado para nos ajudar, sempre de prontidão! Muito do sucesso de nosso trabalho na floresta está condicionado à ajuda destas pessoas.

Mas nesta viagem um outro tipo de empolgação estava presente. A de um jornalista, empolgado com a perspectiva de ficar tantos dias à mercê do humor da maior floresta do mundo. A vontade do Felipe em conhecer sobre tudo, mais e mais, a cada minuto, foi decisiva para que esta matéria desse certo! Sua boca nervosa, falando compulsivamente, denotava a rapidez das suas idéias e das infinitas possibilidades de conteúdo que certamente passavam em sua cabeça. Imagino que a cada caminhada com um diferente grupo de pesquisadores, ele refazia todo seu pensamento, e começava novamente a redigir seu texto mental!

O resultado está aí, neste mês, cobrindo dezesseis paginas da National Geographic Brasil. Confira no site da National. Ou então compre a revista, que já está nas bancas.

E como se não bastasse, o Felipe arrumou tempo para filmar algumas situações inusitadas vividas por um fotógrafo obcecado, sem pudor algum em ficar testando o limite dos seus equipamentos. Assista ao vídeo.



* Dedico esta matéria, fotos e todo resultado positivo que este trabalho venha gerar na conservação da Amazônia, ao meu irmão Marcos e ao taxidermista Arlindo Jr.

Boa viagem!


 


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Árvores

Adriano Gambarini - 03/08/2009


No filme "Senhor dos Anéis" elas andam, falam e decidem o futuro do mundo. Em "Alice no País das Maravilhas", suas raízes escondem o portal para um mundo mágico, onde tudo é possível. 



Depois de tanto caminhar por este Brasil com fim, me pergunto o que elas diriam se fossem coadjuvantes em algum filme qualquer. O que fariam se vissem tudo ao seu redor sendo impiedosamente devastado, restando apenas a si mesmo, num vasto campo árido e quente? Será que dariam um suspiro de alívio por terem sido estranhamente poupada, ou desejariam que também fossem cortadas, encurtando assim seu fatídico destino? 



Na Amazônia, as Castanheiras são proibidas de serem cortadas. Assim, nos campos onde desceram com a floresta para formar pastos, é possível ver estas árvores isoladas, esquecidas no meio do vazio, enquanto alguns poucos bois brigam por uma réstia de sombra. Dizem até que alguns morrem, quando o azar derruba um ouriço de castanha em suas cabeças, que como uma bomba, cai vertiginosamente de quarenta metros de altura!



Mas a ausência de floresta ao seu redor impede também que o inseto que a poliniza faça seu trabalho. Assim, ela, a castanheira, que nasceu para viver quinhentos anos, mingua, seca, perde sua vitalidade até morrer e cair. 



Ou então, alta e isolada num vasto campo que outrora abrigara uma floresta tropical de solo arenoso, é assolada por uma ventania, e sem a sustentação de suas parceiras vegetais, simplesmente cai. 



"Ahh, mas não fomos nós que cortamos, estamos dentro da lei. Ela caiu, foi coisa do céu". Assim numa frase simples, aqueles que correram a floresta com tratores e correntões dizimando enormes áreas em poucas horas, lavam as mãos em seus míseros sessenta anos de vida. Enquanto elas, as árvores, seres viventes mais antigos deste mundo moderno, capazes de viver dois mil anos ou mais, ficam à mercê dos despropósitos humanos. 



Quando as vejo isoladas em vastos campos secos, lutando por um fio de umidade naquele solo sem vida, graciosamente dedicando seus galhos secos às poucas aves que se aventuram a voar naquele ambiente inóspito e quente, lembro de um antigo poema, que escrevi há muito, muito tempo atrás. "Solidão não é ser um único ipê florido numa floresta de eucaliptos. Solidão é ser um ipê florido e não ter ninguém ao redor para compartilhar seu valor." (Verde Magia, 1991). 



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