
Foto: Semana de vela de Ilhabela.
Nestas duas semanas passadas estive, por motivos diversos, em duas regiões de intrínseca beleza: Ilhabela, em São Paulo, e Itacaré, na Bahia.

Foto: No canal de São Sebastião petroleiros aportam diariamente.
Para aqueles que não conhecem a Ilhabela é preciso explicar que nela somente se chega navegando e a maioria de seus visitantes usa as balsas para atravessar o mar. Balsas, todos sabemos, são geralmente sinônimo de intermináveis filas de espera. Em inúmeras ocasiões se cogitou a construção de uma ponte para sortear o canal, essa curta distância que separa a ilha do seu continente. Essa ideia, no entanto, nunca vingou e a ilha continua assim, ilhada, feliz e controversa.

Foto: Embarcações diversas no canal de São Sebastião.
Para chegar em Itacaré por terra é necessário seguir pela estrada litorânea que cruza uma porção de Mata Atlântica ainda preservada. Estradas na concepção humana servem para aproximar mundos, pessoas, culturas, etcetera. Neste sentido uma estrada é a linha a unir dois pontos.

Foto: O rio Canoeiros deságua na praia de São José, em Itacaré.
Ao mesmo tempo toda estrada divide a paisagem em duas metades, a da esquerda e a da direita. Sob esta ótica ela provoca uma cisão e se transforma numa perigosa fronteira para aqueles que não tem o visto do saber: os animais. Quando estes, desavisados, cruzam essa linha, inúmeros deixam a sua vida na tentativa. É sempre muito triste ver os cadáveres destes bichos estirados no asfalto e saber que a nossa pressa é a maior culpada.
Nesta estrada eu vi algumas estreitas passarelas suspensas feitas de cordas, arquitetadas para que os saguis e outros pequenos mamíferos, no seu diário percurso atrás do alimento, possam cruzar a estrada de forma segura. Nada mais justo. Mesmo sendo um paliativo, pois outras espécies continuarão a cruzar por terra, é uma pequena alegria. No futuro poderão vir os túneis se é que eles já não estão lá e eu não os vi.

Foto: Teias de aranha à beira-mar.
Mais adiante, o Rio de Contas separa a Península de Maraú de Itacaré. Ainda não há ponte e as balsas cumprem essa função. Como estávamos de bicicleta não careceu aguardar a próxima leva, procuramos um canoeiro que numa rápida negociação fechou em seis reais a travessia. Através dele soubemos que a ponte estará pronta em breve, espalhando veloz os confortos da civilização e, obviamente, seus consequentes desconfortos.

Foto: A foz do rio Piracanga, na península de Maraú.
Enquanto pedalava em silêncio pelas desertas areias da península, estradas e pontes assaltavam meus pensares em busca de um cruzamento capaz de equilibrar aquilo que se une com aquilo que se separa. Não posso dizer que achei, mas intuo que o tempo consciente, aquele que nos permite apreciar o entorno de forma real, seja um caminho para se chegar lá.
Passos
Sempre gosto de, cuidadosamente, reconhecer o terreno onde piso. "Conversar" com ele. Semanalmente uma imagem sem legendas.
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