
Foi inesperada e bem-vinda a ausência de barulho no Japão. Talvez por ter como referência a compulsão musical e verbal que emana do Brasil, eu tenho me surpreendido com a quietude nestas metrópoles. 

Ninguém grita, ninguém buzina, todos os motores parecem conspirar com esse silêncio. Há um incessante movimento e uma intensa atividade mas parece que tudo foi azeitado, lubrificado, para evitar os rangidos, os atritos, poupando assim o entorno de decibéis desnecessários. 

Todas as cidades do planeta têm o seu respirar próprio, quase um zunido, que pode ser ouvido de longe. Um somatório de pequenos ruídos que criam a identidade sonora do lugar. Por aqui, a minha leitura é que essa assinatura tem pinceladas minimalistas, talvez para ser coerente e consoante com a arquitetura despojada dos templos, com a culinária de muitos itens e poucas misturas, quiçá para poder conversar em voz baixa com a delicadeza dos detalhes que nunca são barrocos. E, principalmente, para manter a harmonia social. 
Aqui, tanto em Tóquio quanto em Kyoto, há no entanto um som que foge ao padrão estabelecido. O dos corvos. Centenas, milhares deles - incontáveis - estão em todos os cantos das cidades. Em duplas ou pequenos bandos, nas árvores e nos altos edifícios. Acordados dia e noite, pontuando de forma estridente o silêncio que os homens tentaram delinear. Não chegam a incomodar, ao menos não ainda, mas provocam uma certa estranheza.
Passos
Sempre gosto de cuidadosamente reconhecer o terreno que piso. "Conversar" com ele. Semanalmente uma imagem sem legendas.
Patrocínio:
Copyright © 2009, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados. All rights reserved. Site melhor visualizado em 1024x768 px