








Continuo em Tóquio, percorrendo bairros e ruas que parecem não ter fim. Os trens não param nunca, tampouco se atrasam. Não sei que horas a cidade acorda, começo a suspeitar que nunca dorme. Outro dia cruzei no elevador um dos moradores deste bloco de apartamentos no qual me hospedo, eram oito horas da manhã, eu voltava de comprar qualquer coisa para o café-da-manhã e ele retornava, terno e pasta de executivo, imagino que do trabalho, imagino que para dormir.



Entrar em um supermercado é um atraente perigo, pode se passar horas tentando decifrar o que as embalagens claramente explicitam, em japonês, e no final arriscar levar algo que poderá não ser nem de longe aquilo que você acreditava pudesse ser. Anteontem comprei uma verdura que era o que mais se parecia com espinafre, mas claro que não era, o talo era muito grosso. Enquanto refogava a tal verdura, fui acometido por um pensamento quase tétrico: e se essa verdura fosse que nem a mandioca brava que precisa ser cozida durante horas a fio para liberar as suas toxinas? Felizmente a minha curiosidade foi mais forte que os temores. E como dois dias já se passaram e, estou escrevendo este post, deverei sobreviver.



Gosto de experimentar novidades. Encontrei expostos na seção de peixes, alguns pedaços, que acreditei, fossem de alguma espécie de carne branca, com o detalhe de estarem escarificados transversal e perpendicularmente. Numa bandeja havia alguns temperados com alguma pasta de pimenta e noutra com ervas frescas. Comprei um de cada. Chegando na cozinha rapidamente fui ver de que se tratava, joguei na frigideira para selar e qual não foi a minha surpresa ao constatar que parecia imune ao fogo, ou seja queimava mas parecia não cozinhar por dentro, não aumentava nem diminuía de tamanho. Mesmo assim experimentei. Não consegui identificar. A textura parecia de polvo e o sabor relembrava vagamente nuanças de algum ser do mar.
Passos
Sempre gosto de cuidadosamente reconhecer o terreno que piso. "Conversar" com ele. Semanalmente uma imagem sem legendas.


Foi inesperada e bem-vinda a ausência de barulho no Japão. Talvez por ter como referência a compulsão musical e verbal que emana do Brasil, eu tenho me surpreendido com a quietude nestas metrópoles. 

Ninguém grita, ninguém buzina, todos os motores parecem conspirar com esse silêncio. Há um incessante movimento e uma intensa atividade mas parece que tudo foi azeitado, lubrificado, para evitar os rangidos, os atritos, poupando assim o entorno de decibéis desnecessários. 

Todas as cidades do planeta têm o seu respirar próprio, quase um zunido, que pode ser ouvido de longe. Um somatório de pequenos ruídos que criam a identidade sonora do lugar. Por aqui, a minha leitura é que essa assinatura tem pinceladas minimalistas, talvez para ser coerente e consoante com a arquitetura despojada dos templos, com a culinária de muitos itens e poucas misturas, quiçá para poder conversar em voz baixa com a delicadeza dos detalhes que nunca são barrocos. E, principalmente, para manter a harmonia social. 
Aqui, tanto em Tóquio quanto em Kyoto, há no entanto um som que foge ao padrão estabelecido. O dos corvos. Centenas, milhares deles - incontáveis - estão em todos os cantos das cidades. Em duplas ou pequenos bandos, nas árvores e nos altos edifícios. Acordados dia e noite, pontuando de forma estridente o silêncio que os homens tentaram delinear. Não chegam a incomodar, ao menos não ainda, mas provocam uma certa estranheza.
Passos
Sempre gosto de cuidadosamente reconhecer o terreno que piso. "Conversar" com ele. Semanalmente uma imagem sem legendas.











Meu ultimo post de 18 de setembro foi enviado de Montevideu no Uruguai, onde estava documentando parte de uma história para a National Geographic Brasil, para uma reportagem que será publicada em 2010.

Retornando ao Brasil passamos pela cidade de Rio Grande, cidade portuária com um interessante casario. No porto inúmeros barcos pesqueiros estavam ancorados à espera do bom tempo. Nesses dias ventos que atingiram velocidade de até 70km/h impediam as embarcações de se lançarem ao mar.

No dia 20 de setembro, já em Porto Alegre, me deparei com um dos grandes momentos da pátria gaucha, a comemoração da revolução farroupilha.


Que nenhuma região do Brasil defende a sua identidade com tanta energia quanto o Rio Grande do Sul, isso é de domínio publico, mas o acampamento que é montado no parque próximo ao Guaiba surpreende quem nunca viu, tamanha a quantidade de participantes e empenho. Assemelha-se a uma cidade cenográfica.

Nesse dia, coincidentemente rolava o "Último rolo de Kodachrome". A ideia foi do Dimitri Lee, fotógrafo amigo que queria se despedir desse filme, pois a Kodak decretou o fim do processo Kodachrome e somente até dezembro de 2009 poderão ser revelados os exemplares ainda circulando por todos os continentes. Depois disso, nunca mais.

Dimitri convidou 30 amigos, deixou um rolo de 36 poses com cada, com o compromisso de utilizá-lo no dia 20. Bom, agora só resta aguardar, pois o resultado poderá ser visto somente em algumas semanas.
Até 2006 eu não utilizava câmeras digitais. Hoje totalmente adaptado a esse novo mundo, parece muito distante esse passado analógico. Nada de saudosismo, ficou muito mais fácil produzir imagens, sobrando mais tempo para pensar.
E no dia 25, em vez de escrever o meu post, fui participar do Paraty em Foco: rever os amigos que moram distantes e aqueles, que mesmo próximos, raras vezes temos a chance de encontrar.
Para mim é cada vez mais notório que a fotografia no Brasil ganhou um enorme impulso. Tornou-se presente em espaços antes restritos às outras artes, desenvolveu festivais, encontros, galerias, novas publicações e principalmente público. Enfim, está cada vez mais democrática e isso é claramente uma vitória do advento digital, tanto aqui quanto no resto do mundo.

Postei aqui uma imagem que reproduzi de um negativo em vidro no Instituto histórico de Jaguarão. Desta forma, quem quiser rememorar o passado analógico, pode revelar esta imagem no Photoshop. O autor é desconhecido mas obviamente trata-se de um gaucho, seu cavalo e seu cachorro.
Passos
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