
Alguns anos atrás o escritor José Saramago esteve em São Paulo e tive a oportunidade de assistir sua palestra, no SESC Vila Mariana. Ele contou uma história que tentarei resgatar da memória:
"Estamos na época do homem das cavernas, em alguma Savana da África. Depois de uma longa jornada de caça, o dia ainda aceso de luz, dois homens sobem um promontório próximo ao seu refúgio. Eles sentam-se no topo a contemplar o vasto mundo ao seu redor. O sol vagarosamente avermelha o céu e a terra. Os dois homens mantêm os seus olhos fixos no horizonte, até que o astro finalmente se oculta. Neste momento um deles vira-se para o outro e com os olhos embargados declara: BONITO."
Nas palavras de Saramago, seria este o hipotético surgimento do Belo. Me pareceu bem plausível.
Desde essa remota época, diariamente, milhões de habitantes deste planeta, nos mais recônditos recantos, contemplam o nascer ou o pôr-do-sol.
Deve ser raro alguém que, em algum momento da sua vida, não tenha dedicado alguns ansiosos minutos a esse ato, quase essencial à vida humana. Como se ele, por si só, fosse capaz de desvendar alguns dos muitos enigmas da nossa existência.
Para alguns fotógrafos, entre os quais me incluo, a luz do início e do final do dia apresenta-se, em muitas ocasiões, como a mais propícia para bons resultados. Isso não é novidade nem enigma para ninguém. Apenas uma escolha tonal ou de quietude.
Neste último feriado de Corpus Christi estive num sítio próximo de Itatiba, interior de São Paulo, região muito desnudada e explorada pela agricultura e pecuária. Confesso que, normalmente, diante destas condições, o meu Eu fotográfico relaxa, adormece e às vezes até hiberna. Mas eis que um dia acordei antes do sol. 
O sol que nasce, traz primeiro a luz, mais veloz, e em seguida o calor. Ilumina e esquenta, transformando rapidamente a paisagem inerte da noite. Segundos se passam e o que estava lá não mais está: a neblina se desfaz, o orvalho vai. As nuvens correm, rosadas, quase envergonhadas, até ficarem brancas. 
São breves minutos. A contemplação atenta é gratificante, não necessariamente em termos fotográficos, mas humanos.
Hoje eu acho que a percepção da paisagem pode envolver, além do sensorial, o lado racional, capaz de provocar o imenso prazer do entendimento. 
Passos
Sempre gosto de, cuidadosamente, reconhecer o terreno onde piso. "Conversar" com ele. Semanalmente uma imagem sem legendas.
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