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O caminho para Shangri-lá

Duas visões do futuro competem pela alma do efervescente oeste da China.

Por Mark Jenkins
Foto de Frtiz Hoffman
O caminho para Shangri-lá

Na trilha ornada por flâmulas de oração, uma peregrina sobe por um desfiladeiro de 4 486 metros de altura. Para circundar o monte Kawagebo, sagrado para os budistas, ela caminhará por quase duas semanas.

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Um alegre bando de turistas chineses vindos de cidades do leste empurra uma enorme roda de oração tibetana. Estão em uma excursão pelo ebuliente oeste chinês e se divertem tentando girar o colossal instrumento. A Roda de Oração da Auspiciosa Vitória tem pelo menos 15 metros de altura e 7,5 metros de diâmetro, onde estão retratados em baixo-relevo 56 grupos étnicos da China trabalhando juntos em idealizada harmonia.

Três monges de túnica marrom-avermelhada e cabeça raspada chegam para dar uma mão. Os turistas tentavam empurrar a roda no sentido anti-horário, a direção errada no budismo tibetano. Os monges invertem a energia e põem a roda para girar como um pião tamanho-família.

Um celular trina uma música pop chinesa. Uma mulher de meia-calça azul vasculha sua enorme bolsa. Um homem de terno enfia a mão em seu sobretudo de couro preto. Uma garota de tênis xadrez de cano alto remexe sua mochila prateada. Mas é um dos monges que larga a roda e tira um aparelho das profundezas da túnica.

Ele fala alto ao telefone com os olhos na cidade abaixo. Lá está o Hotel Paraíso, um gigante cinco-estrelas ao redor da piscina e da enorme réplica do sagrado monte Kawagebo em plástico branco. Lá estão as cinzentas habitações da cidade, espraiadas por todo lado. Numa encosta distante, brilhando na névoa de fumaça de lenha como um palácio imaginário, surge o restaurado mosteiro Ganden Sumtseling, construído no século 17 - uma versão menor, porém não menos inspiradora, do grandioso Potala, no Tibete.

Bem-vindo a Shangri-lá.

Há uma década o lugar não passava de um fim de mundo na orla do planalto tibetano. Depois de um extreme makeover, é hoje uma das mais movimentadas cidades turísticas da China e porta de entrada para Três Rios Paralelos, a área de natureza no noroeste da província de Yunnan decretada Patrimônio da Humanidade.

Dez anos atrás o vilarejo original estava em vias de se tornar uma cidade fantasma. A maioria dos habitantes mudara-se de seus tradicionais chalés campestres, habitações com paredes de pedra e magníficas vigas de madeira, para moradias mais modernas com água encanada e esgoto. O bairro histórico parecia condenado.

O turismo salvou o lugar. Os chalés tibetanos foram redescobertos como uma arquitetura única da região, e a remodelação começou logo. Tubulações para água e esgoto foram instaladas no subsolo das vielas tortuosas. Cabos serpentearam, trazendo eletricidade e internet. As velhas casas foram reformadas e transformadas em lojas elegantes. Novos estabelecimentos foram construídos no mesmo estilo, mas com fachadas de ornamentação rebuscada com dragões, cisnes e tigres esculpidos para atrair turistas chineses. Mais de 3 milhões de turistas, quase 90% chineses, visitaram Shangri-lá no ano passado.

Veja, por exemplo, a mulher de calça de couro preta que desce de um utilitário esportivo no estacionamento do mosteiro Sumtseling. Ela pede para segurarem sua bolsinha e sobe num iaque enfeitado que está aos cuidados de um tratador tibetano metido numa indumentária caprichada, com espada e tudo. Os amigos dela tiram fotos. Assim como a cultura dos nativos americanos virou mercadoria no oeste dos Estados Unidos, também a cultura tibetana é comercializada no oeste da
China. Na cidade antiga, lojas sofisticadas que vendem imitações de joias, facas e peles tibetanas (as peles pintalgadas de felino são, na verdade, couro de cachorro tingido) substituíram as galinhas e os porcos que antes habitavam o piso térreo dos lares de Shangri-lá.

Na roda de oração gigante, turistas e monges se cansaram do carrossel dourado e estão indo embora quando chega uma budista idosa. Seu avental de lã tradicional está imundo, como se ela tivesse percorrido longa distância a pé fazendo prostrações durante a peregrinação. Ela dedilha 108 contas de oração enquanto sussurra o mantra sagrado "Om mani padme um", uma prece que pede compaixão e iluminação. Ela agarra o trilho do pião gigante, põe todo o seu peso nesse ato de devoção e mantém a roda girando.


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Publicado em 05/2009

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jose c ferreira - Trabalho esclarecedor que atua sôbre a mente fantasiosa e imaginativa, indo do virtual para o real.
24/05/2009 19:30:50

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