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O caminho para Shangri-lá

Duas visões do futuro competem pela alma do efervescente oeste da China.

Por Mark Jenkins
Foto de Frtiz Hoffman
O caminho para Shangri-lá

Na trilha ornada por flâmulas de oração, uma peregrina sobe por um desfiladeiro de 4 486 metros de altura. Para circundar o monte Kawagebo, sagrado para os budistas, ela caminhará por quase duas semanas.

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Ao contrário de outros lugares plenos de aura mítica, como Timbuktu ou Machu Picchu, uma Shangri-lá de verdade nunca existiu até agora. Esse nome foi retirado de um romance de James Hilton, Horizonte Perdido. O livro, publicado em 1933, conta a história de sobreviventes de um desastre de avião que encontram um utópico mosteiro de lamas chamado Shangri-lá, em uma região erma do Tibete. Situada no sopé do monte Karakal, uma fulgente pirâmide de neve e rocha, a lamaseria fora fundada no século 18 por um missionário católico de nome Perrault, e agora era administrada por um grande lama. Servia como morada de 50 monges de vários países, todos imersos em estudos espirituais – um grande repositório da sabedoria da humanidade, acolhendo o melhor do Oriente e do Ocidente. Na metade do romance, o leitor descobre que o grande lama é o próprio Perrault. Ele tem mais de 200 anos, mas está conservado graças a seu empenho nos estudos, ao ambiente de serena imersão de Shangri-lá e ao isolamento do mundo moderno que resvala para o holocausto.

Consta que Hilton teria achado inspiração em textos do excêntrico botânico Joseph Rock cujos relatos sobre aventuras na remota Yunnan e no Tibete foram publicados em National Geographic de 1922 a 1935. O irascível Rock chefiou expedições em busca de plantas exóticas e culturas desconhecidas. Escreveu sobre travessias do rio Mekong em tirolesa feita com cabo de bambu, relatou ataques de salteadores, misteriosos rituais e encontros com reis. Sua queda para o mirabolante deve ter cativado Hilton, autor britânico de 22 romances, entre eles Adeus, Mr. Chips.

Hilton também se baseou em outra fonte, esta bem mais antiga que as aventuras de Joseph Rock. Shangri-lá parece ser – e quase certamente é – uma mal disfarçada alusão a Shambala, o paraíso terreno do budismo tibetano onde não existe guerra nem sofrimento, e as pessoas vivem em paz e harmonia com a ajuda da meditação e da autodisciplina. Em textos budistas, Shambala fica além do Himalaia, na falda de uma montanha de cristal, e seus habitantes são intocados pela venalidade e pela avareza do mundo exterior. Para Hilton, que nasceu em 1900 e testemunhou toda a devastação da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão, essa sedutora lenda oriental deve ter sido arrebatadora.

Misture imaginação de escritor com mitologia tibetana, acrescente uma pitada de Joseph Rock e uma generosa porção de anseio: eis uma boa receita para Horizonte Perdido. Embora esse romance não tenha muitos leitores hoje, a palavra Shangri-lá, e tudo o que ela simboliza – um lugar distante em que reinam a beleza, o revigoramento espiritual e a longevidade –, há tempos faz parte da cultura popular mundial.

O problema do livro é o mesmo de todas as narrativas utópicas: subestimar males também naturais da humanidade, como inveja, luxúria, cobiça e ambição. Isso faz tanto o livro quanto seu tema unificador, Shangri-lá, parecerem simplistas – justamente o oposto da cidade de Shangri-lá do nosso tempo, um lugar que não poderia ser mais complexo e desnorteante.

Na encarnação anterior, Shangri-lá foi Zhongdian, uma cidade a 3 160 metros de altura, escala de rota comercial na fronteira leste de alguns dos mais profundos e impressionantes desfiladeiros do mundo. Três grandes rios, o Yang-tsé, o Mekong e o Salween, separados por imponentes cordilheiras e conhecidos na região pelos nomes Jinsha, Lancang e Nu correm para o leste do Himalaia, depois dobram na direção sul em rigorosa formação paralela e por fim se afastam em sentidos diferentes. Essa foi a remota região que Rock explorou nos anos 20 e 30.

Muita coisa mudou desde então. A extração comercial de madeira começou na década de 1950. Estradas foram entalhadas nas montanhas, e milhares de hectares de floresta de crescimento antigo foram derrubados sem dó das encostas íngremes. Em meados dos anos 90, mais de 80% da renda da região provinha de madeireiras. Em 1998, em parte devido ao desmatamento excessivo na área de captação do Jinsha, o rio transbordou. Quase 4 mil pessoas morreram e milhões ficaram desabrigadas. O governo chinês reagiu proibindo a exploração comercial de madeira na região dos Três Rios.

Forçada a redirecionar sua economia, Zhongdian recorreu ao turismo, aproveitando sua arquitetura única e a proximidade a uma estupenda geografia. Na época o vilarejo não tinha aeroporto, e a viagem até o local por uma estrada ruim demorava dois dias da cidade grande mais próxima, Kunming. Um aeroporto foi construído em 1999, e a rodovia de Kunming foi concluída um ano depois. Em 2001, as receitas do turismo já haviam superado o que antes se ganhava com madeira.

Nesse mesmo ano, os astutos dirigentes locais receberam de Pequim a autorização para rebatizar sua cidade e seu condado como Shangri-lá – um belo golpe de marketing, pois muitos outros vilarejos de Yunnan e Sichuan competiam pelo famoso nome. A Roda de Oração da Auspiciosa Vitória foi construída no ano seguinte, e hotéis e lojas de suvenir começaram a brotar como os caros cogumelos matsutake que os tibetanos colhem no verão e exportam para o Japão.


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Publicado em 05/2009

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Comentários

jose c ferreira - Trabalho esclarecedor que atua sôbre a mente fantasiosa e imaginativa, indo do virtual para o real.
24/05/2009 19:30:50

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