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O caminho para Shangri-lá

Duas visões do futuro competem pela alma do efervescente oeste da China.

Por Mark Jenkins
Foto de Frtiz Hoffman
O caminho para Shangri-lá

Na trilha ornada por flâmulas de oração, uma peregrina sobe por um desfiladeiro de 4 486 metros de altura. Para circundar o monte Kawagebo, sagrado para os budistas, ela caminhará por quase duas semanas.

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A transformação em ímã de turistas foi coroada, em 2003, com o reconhecimento oficial pela ONU da prodigiosa biodiversidade das gargantas fluviais. A região dos Três Rios Paralelos foi designada Patrimônio da Humanidade, e Shangri-lá tornou-se o novo destino dos sonhos para viajantes chineses ávidos por calçar botas de trekking e se aventurar pela natureza.

Alimentados pelas tempestades de monção, os rios cavaram abismos que superam os 3 mil metros, o dobro da média do Grand Canyon americano. Também há mais de 100 picos de alturas superiores a 5 mil metros. Graças a essa assombrosa verticalidade, os ecossistemas podem variar do subtropical até o semelhante ao ártico em poucos quilômetros.

Descrito pela ONU como "epicentro da biodiversidade chinesa", o sítio Três Rios Paralelos abriga mais de 6 mil espécies de planta – 500 delas são medicinais. A fauna segue o mesmo caminho. Só de mamíferos, há pelo menos 173 espécies, algumas raras, como a pantera-nebulosa e o goral-vermelho. De aves, há mais de 400 tipos. A topografia radical também engendrou a diversidade humana. Separados por rios intransponíveis e montanhas estratosféricas, cada grupo étnico adquiriu língua e tradições exclusivas de seus respectivos meios. A área contém no mínimo 12 desses grupos, entre eles tibetano, yi, naxi, lisu e nu, com cerca de 300 mil pessoas.

A designação de Patrimônio da Humanidade para Três Rios Paralelos, dada pela ONU, destina-se a preservar a insubstituível diversidade ambiental e cultural, mas ironicamente não protege os próprios rios. Uma razão é que boa parte do hábitat natural ao longo desses cursos d’água é afetada pelo povoamento humano. No entanto, excluir os rios atende a outro propósito: suprir a desesperada necessidade de energia da China. Usinas a carvão fornecem 80% da eletricidade do país. O carvão é uma fonte suja, e a poluição do ar prejudica a saúde de milhões de chineses. As hidrelétricas,que hoje geram 15% da eletricidade na China, são uma alternativa óbvia e polêmica. Há projetos para 12 barragens no Jinsha – quatro já em construção. O Lancng tem três barragens – outras duas estão sendo construídas e mais de nove estão no papel. Existem apenas duas barragens no Nu, mas um plano apresentado em 203 propõe 13. Alarmados, os ativistas desdobram-se para salvar o rio.

"Represar o Nu tornou-se um debate nacional na China", diz Yu Xiaogang, fundador da ONG Green Watershed ("Vertente Verde"). Até agora, Xiaogang, junto com jornalistas e acadêmicos ambientalistas, ajudou a reduzir de 13 para quatro o número das barragens propostas. Mas dada a demanda de energia na China e nos países vizinhos (boa parte da eletricidade destina-se a ser vendida) é provável que algumas das barragens propostas sejam construídas em breve.

Embora a mais próxima das monumentais gargantas esteja ao alcance dos hotéis turísticos de Shangri-lá, perto da cidade não se vê quase nada da diversidade biológica da região. Se existir outra Shangri-lá – um lugar de isolamento e serenidade que lembra o encantador mito da nossa imaginação coletiva –, ela deve estar onde Rock descobriu um local sedutor e brutal, o mesmo que Hilton transfigurou em paraíso. É lá que fui procurar uma Shangri-lá mais palpável.

Atravessando a neve acumulada sob uma arcada de flâmulas de oração que o vento estala como chicotes, Rick Kent, meu companheiro de caminhada, e eu somos varridos do desfiladeiro Shu, de 4 815 metros de altura, e jogados no Tibete através do fio de navalha que é a fronteira rochosa de Yunnan. Estamos passando da vertente do rio Lancang para a vertente do Nu. A distância em linha reta entre os dois rios é de 35 quilômetros, mas ali a paisagem pode ser tudo, menos reta. O monte Kawagebo, o mais alto na área de Três Rios Paralelos, atinge 6 740 metros, e na presente estação seu topo fica oculto nas nuvens.


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Publicado em 05/2009

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Comentários

jose c ferreira - Trabalho esclarecedor que atua sôbre a mente fantasiosa e imaginativa, indo do virtual para o real.
24/05/2009 19:30:50

Nesta reportagem


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