Na trilha ornada por flâmulas de oração, uma peregrina sobe por um desfiladeiro de 4 486 metros de altura. Para circundar o monte Kawagebo, sagrado para os budistas, ela caminhará por quase duas semanas.
A escalada de dois dias até o desfiladeiro começa a 2 150 metros, onde o Lancang é largo e da cor de lama, e as encostas, cheias de cactos. O vale é tão quente que os agricultores plantam uva. A cada 300 metros acima surge novo ambiente, com florestas, até que o verde espeta a neve. Do alto, o monte Kawagebo assoma na bruma como um monstro, seu topo carregado de massas de neve pendentes. Naquele mesmo lugar uma avalanche matou 17 montanhistas japoneses e chineses em 1991. Agora a montanha é proibida para escalada, não por causa do perigo, mas por seu significado religioso. O Kawagebo é um dos picos mais sagrados do folclore tibetano. Todo ano, milhares de budistas circundam a pé o maciço, em um trajeto circular de duas semanas, o kora, em busca de purificação que lhes assegure uma reencarnação mais propícia.
Mas os tempos estão mudando. Antes de ver, já podemos ouvir um grupo de peregrinos. Todos jovens tibetanos, eles vêm cantando e rindo, e passam por nós como uma trupe circense. Nada de solenidade melancólica: a peregrinação, para aquela moçada, é uma festa. Um deles agita no ar um MP3 player chinês de onde sai em volume máximo um clangor metálico.
A trilha desce sem parar e fica tão íngreme que requer um ziguezague a cada 6 metros. O caminho erodido na rocha macia tem meio metro de profundidade. A neve dá lugar a um terreno rochoso, depois a uma mata densa. Centenas de metros abaixo de nós, engastado na curva de um vale ao lado de uma abrupta floresta de crescimento antigo, avistamos um quadrado verde vivo: outra visão de Shangri-lá.
A descida até o lugar encantado leva horas. Um homem com um fardo de lenha às costas está à espera e vai mostrando o caminho. Passamos sob uma gigantesca nogueira, por porcos ariscos e cabras indiferentes. Pulamos uma cerca de pedra, seguimos por uma plantação de cevada e nos avizinhamos de uma casa tibetana com porte de fortaleza. Subindo uma rampa, puxamos uma correia de couro. Uma portinha se abre e entramos no século 15. Uma mulher mirrada de lenço vermelho na cabeça nos saúda com as mãos postas, nos serve duas escaldantes xícaras de chá com manteiga de iaque e desaparece.
A planta do andar superior é tibetana tradicional: no centro há um espaçoso átrio a céu aberto onde mergulha a cálida luz solar. Um corrimão de madeira repleto de jardineiras com ervas sortidas amuralha o átrio no piso principal, impedindo que bebês ao engatinhar despenquem no piso térreo, em que porcos e galinhas vivem em gloriosa imundície. Por uma escada de mão sobe-se ao telhado. O lugar está coberto por estoques de alimento e ração: pinhas empilhadas como abacaxis, duas variedades de grão, castanhas espalhadas sobre uma lona, nozes, três variedades de pimenta em vários estágios de dessecamento, maçãs verdes num cesto, sacas de arroz, nacos de carne de porco postos a secar, a carcaça do que parece ser uma marmota.
Avós, pais, filhos e um tio habitam aquela casa campestre. Cada um tem suas tarefas: o tio esquelético carrega sacos de grão e organiza as ferraduras; a jovem mãe, com um bebê às costas, cuida do fogão e faz a comida; o patriarca escreve devagar num livro contábil, em trêmula caligrafia tibetana. A rija mulher que nos serviu chá é a matriarca. De um balde de cozinha ela despeja lavagem para os porcos por sobre o corrimão, em seguida ordenha as vacas, alimenta os cavalos e bate a manteiga de iaque. Fazendo mímica, ela explica que sente dor nos olhos e nos pede remédio. Eu só tenho ibuprofeno.
A noite cai. A casa fica em trevas e gelada. Um guincho pavoroso corta o silêncio. É o patriarca girando uma manivela de metal instalada na parede para enrolar um cabo. Quando ele encaixa o cabo da manivela, compactas lâmpadas fluorescentes penduradas por toda a casa ganham vida. O cabo de metal, descubro, estende-se por 365 metros até um riacho, onde está preso a uma tina. Quando a manivela é girada, o cabo é puxado e ergue a tina, que manda água do riacho para um barril de madeira. Conectado à base dele há um cano de plástico azul que leva água até um microgerador de eletricidade chinês.
O jantar é servido, com arroz e pratos variados - gordura de porco ao molho de alho, carne de iaque apimentada, legumes fritos, vinho de cevada de fabricação caseira que escalda a garganta, maçãs de sobremesa. Depois o patriarca abre a porta de um armário e clica no controle remoto. Estão transmitindo uma partida de futebol que ele não quer perder. As mulheres da casa levantam-se horas antes do amanhecer, vão buscar água e madeira, ordenhar e alimentar os animais. A jovem mãe nos serve chá com manteiga. Ela se chama Snaw. Usa um boné de beisebol bordado, um surrado suéter roxo que deixa entrever seu corpo esquelético, um cachecol fino de imitação de pele, calça jeans justa e tênis verde do Exército chinês. Com o bebê em um braço, ela ao mesmo tempo amamenta, põe lenha no fogão, verifica o arroz, mexe o chá, joga cascas de batata para os porcos por sobre o corrimão, lava louça, escolhe pimentas e conversa.
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24/05/2009 19:30:50