Na trilha ornada por flâmulas de oração, uma peregrina sobe por um desfiladeiro de 4 486 metros de altura. Para circundar o monte Kawagebo, sagrado para os budistas, ela caminhará por quase duas semanas.
Snaw tem 17 anos. Seu bebê, de 3 meses, sofre de algum problema de saúde indiscernível. Ela diz que seu sonho é deixar aquele lugar - na Shangri-lá da minha imaginação - e ir para a cidade de Shangri-lá. Ouviu dizer que lá as mulheres de sua idade estudam e aos sábados passeiam no shopping de braços dados com as amigas.
Os sonhos de algumas jovens já se realizaram. Yang Jifang, uma moça alta e atraente do grupo étnico naxi, formou-se pelo Instituto Profissionalizante do Tibete Oriental, no centro de Shangri-lá. Aprendeu inglês e informática e hoje trabalha como guia em uma firma de turismo de aventura chamada Khampa Caravan. Tem apartamento próprio e uma vez por mês volta a seu vilarejo rural levando dinheiro e remédios a seus pais. "A vida no vilarejo é muito difícil", diz ela. "Lá não há empresas, só plantações."
O instituto foi fundado em 2004 por Ben Hillman, professor da Universidade Nacional da Austrália especializado em desenvolvimento do oeste chinês. Oferece um curso intensivo de 16 semanas subsididado destinado a preparar estudantes das áreas rurais para competir por empregos urbanos. "A cultura está sempre em evolução", diz Hillman, que me alerta para não enxergar com olhos de ocidental nenhuma autenticidade na moderna Shangri-lá.
Estamos sentados no café Raven, ouvindo Bob Dylan e tomando cerveja Dali. O Raven, instalado em uma antiga oficina de sapateiro reformada, é bem do tipo de bar e café descolado que se vê em Katmandu: bolo de cenoura no menu, pôster de John Coltrane na parede. Os donos, um de Seattle, outro de Londres, contrataram duas tibetanas para tocar o negócio. "O desenvolvimento pode reavivar o interesse pela herança cultural, mas ela acaba sendo reinterpretada", diz Hillman. "Enxergo uma forma de elitismo: os afortunados ricos que têm condição de viajar a partes remotas do planeta querem manter tudo trancado em um zoológico cultural."
O verdadeiro desafio para as minorias étnicas de Shangri-lá, na opinião de Hillman, é adquirir competências para atuar no mundo moderno. "Eles são lavradores e pastores, sabem tudo de agricultura de subsistência: como cultivar cevada, criar iaques. Só que essas não são habilidades necessárias para a maioria dos jovens de hoje."
Seus alunos são das mais diversas etnias - tibetana, bai, lisu, naxi, han, yi -, mas todos vêm de família agrícola paupérrima. Todos tiveram de implorar aos pais que os deixassem ir a essa escola, com salas de aula limpas, alojamentos para os estudantes e uma cozinha aconchegante. Nenhum deles pretende voltar às agruras da vida do campo. O instituto profissionalizante é o tipo de lugar sonhado por Snaw enquanto ela ordenha iaques sob uma gélida nevasca.
Em um fim de tarde, vários formandos do instituto estão sentados num sofá na sala dos professores, ardendo de impaciência para contar suas histórias. O último a falar é Tashi Tsering, um animado magricela de 21 anos. Ele é tibetano, aprendeu inglês e hoje trabalha como guia, levando turistas a cidades e vilarejos tibetanos distantes. Ciente de que escapou de uma vida de labuta ingrata, ele desejaria que seus amigos do vilarejo natal tivessem a mesma oportunidade. "Agora posso ter um papel no futuro", acredita. Tsering olha com orgulho para seus colegas de turma e depois contempla pela janela a movimentada Shangri-lá nas ruas abaixo. Seus olhos acompanham um avião que aterrissa.
Daqui não se vê, mas no centro do primeiro cruzamento depois do aeroporto há uma grande estupa branca, um monumento tibetano sagrado que os budistas contornam em sentido horário, o mesmo em que gira a roda de oração. Por sua vez, os carros, ao passar pelo cruzamento, trafegam no sentido anti-horário. Resultado: a tradição budista põe mulheres vergadas sob fardos de grãos, levados à casa para alimentar os porcos, e homens tangendo iaques, como fazem há séculos, bem no caminho dos ônibus que chegam com turistas. Trombadas acontecem, mas ainda assim as coisas estão dando certo.
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24/05/2009 19:30:50