"I ain't got no body ["Eu não tenho ninguém", que também soa, em inglês, como "Eu não tenho corpo"]", cantarola Andy Mullins na Feira Anual do Texas. "Eu saúdo as pessoas", diz ele. Mas o jogo de espelho que o faz parecer um homem tronco é a atração. "Me perguntam se eu sou real."
A feira anual é um evento ritual e carnavalesco que marca o fim do verão, dos jardins floridos e dos pomares carregados de maçãs, e assinala o início das aulas, a volta das regras estritas de conduta e daquilo que, no norte, os americanos chamam de A Longa Temporada de Escuridão, também conhecida como inverno. A feira nada tem a ver com a Exposição Mundial Comemorativa da Chegada de Colombo às Américas (Chicago, 1893), nem com o festival de Woodstock (Estado de Nova York, 1969), nem com a Grande Mostra de Feitos Industriais de Todas as Nações (Londres, 1851) nem com a roqueira Assembleia das Tribos (Califórnia, 1990). É apenas um evento para nossa diversão enquanto damos um tempo na arte de plantar batatas.
Os dez maiores prazeres da feira anual são:
1. Comer com as mãos.
2. Sentir uma força centrífuga extrema remodelar sua cara - papada, queixo e bochechas - ao ser projetado em linha reta ou em rodopios pelos ares, num deleite indistinguível de angústia.
3. Deixar o corpo misturar-se, amalgamar-se a gentis cotoveladas com patotas, galeras e multidões de pessoas magras ou corpulentas, bregas ou alinhadas, jovens ou caquéticas a vagar pela zoeira e a barafunda amplificadas, sob um néon selvagem e nuvens de vapor emanadas de salsichas ferventes, em busca de algo indefinido e fugidio que ninguém sabe direito o que é.
4. Notar a estupidez e a gulodice alheias, suas obsessões e seus modos rudes, a jequice esbugalhada com que respiram de boca aberta, e sentir-se, em comparação, uma pessoa sofisticada.
5. Apreciar a arte dos pregoeiros, com seu vozerio estridente a caçar e aliciar a freguesia, constatando como isso funciona com os outros, mas não com este ser bacana que é você.
6. Conhecer galinhas geneticamente aperfeiçoadas, leitões monumentais, cavalos de tração, lhamas, linhagens raras de ganso, cobras venenosas, um bezerro de duas cabeças, um homem de 300 quilos e tudo mais que apela à perspicácia e à inteligência das mentes superiores.
7. Assistir a concursos de gado.
8. Observar animadores tentando capturar .
a atenção dos passantes indiferentes.
9. Sentar-se e descansar no meio do bulício, ponderando sobre o sentido da vida.
10. A certa altura, dar as costas à comida, às diversões e aos prazeres grosseiros, decidindo viver num plano superior a partir de agora.
O meio-oeste americano, que conta com 12 estados, entre os quais Ohio, Iowa e Minnesota, minha terra, é a cara da feira anual. Ele floresce nessas plagas porque somos o celeiro, o pasto, o curral, a granja e a serraria dos Estados Unidos. E também porque o pessoal da região é insular, trabalhador, abstêmio, introspectivo e arisco quando se trata de contato físico, sendo que um evento como a feira representa a liberação disso tudo, um mergulho na piscina da autoindulgência, a começar por uma suculenta e gordurosa costela de porco saída da grelha e servida num espeto. A gordura não faz bem à saúde. Mesmo assim, você traça a costela, mais um imenso milk-shake de baunilha, adquirido no bar de laticínios, que servirá para amortecer em seu estômago a queda de todo um saco transbordante de minidonuts. Agora sim você está pronto para seguir direto até o campo de provas das salsichas empanadas fritas - o tradicional corn dog, um tipo de cachorro-quente envolvido em massa de panqueca de milho imersa em óleo fervente.
Mas, antes, vamos encarar um passeio de Splash, aquela espécie de trenó que desce por uma calha aquática tortuosa e despenca quase verticalmente por uma cachoeira até um tanque lá embaixo, fazendo a vontade de sua filha. A queda final faz levantar uma onda de meio metro que salta pela proa do trenó e deixa sua calça encharcada. Ao desembarcar, você parece alguém que sofreu de incontinência urinária de tanta excitação lúdica. Você tenta se esconder no meio da multidão, caminhando bem atrás das pessoas até a barraca de milho cozido para se consolar com uma espiga untada de manteiga e sal, sentindo a calça úmida atritar-se com as pernas. Você vaga à procura de calças masculinas, mas não acha nada além de enciclopédias, janelas reforçadas contra tempestades, cortadores de grama, moedores de vegetais, umidificadores, rachadores de toras e saunas domésticas.
Sua busca por uma calça seca o conduz a recintos em que geleias e gelatinas premiadas são expostas em mesas decoradas com fitas púrpuras, azuis, vermelhas e amarelas, ao lado de bolos e potes de picles classe A. E também a pavilhões “educativos” capitaneados por caçadores de talentos à espera de uma chance de estabelecer contato ocular e saltar sobre seu cangote, obrigando-o a conhecer as vantagens de um treinamento para esteticista profissional ou as oportunidades no campo da radiodifusão.
Nesta reportagem
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01/07/2009 15:32:18