"I ain't got no body ["Eu não tenho ninguém", que também soa, em inglês, como "Eu não tenho corpo"]", cantarola Andy Mullins na Feira Anual do Texas. "Eu saúdo as pessoas", diz ele. Mas o jogo de espelho que o faz parecer um homem tronco é a atração. "Me perguntam se eu sou real."
Por fim, o jeito mais prático de secar sua calça consiste em embarcar numa engenhoca que sai rodopiando com você pelos ares. Seu petiz sugere dar uma voltinha no Tiro de Estilingue, à disposição do outro lado da rua. Uma fila comprida de garotos espera a vez de serem atados a uma jaula, dentro da qual se farão ejetar para o alto. A galera de espectadores aguardando os lançamentos lembra o público que se reunia antigamente para assistir a execuções públicas.
Você segue em direção à dupla roda-gigante - um bom secador de roupa que levanta você acima da zorra da feira com uma boa brisa batendo em sua calça numa série de parábolas geométricas. Lá do ápice, pairando sobre o alarido, você dá um zoom até enfocar em close uma gangue de agroboys de jaquetas de couro verde. Cheio de nostalgia, você conta a sua filha que costumava reservar a roda-gigante para o fim do passeio, lembrança que o transporta de novo até sua infância. Ela dá um tapinha afetuoso em sua mão, como se você estivesse sofrendo, e diz: "Tudo bem, pai. Você vai ficar legal". Dez minutos depois, você retorna ao chão, sequinho. A comida também assentou em seu estômago, de modo que você está pronto para outra.
Entre os dez maiores prazeres, o que nós, do meio-oeste, relutamos em reconhecer é o de número 3, o mergulho às cotoveladas na massa humana, delícia que o Google e o Facebook não conseguem oferecer. A vida moderna tende a fixar você num cubículo, diante de uma tela de computador, depois dentro de um carro a rodar direto para sua casa, em que você emboca na garagem e desce praticamente em sua cozinha, sem roçar em ninguém. As pessoas privilegiam isso, em oposição ao tumulto e à imundície.
No entanto, temos necessidades que não gostamos de admitir. Uma delas é se ver no meio de uma almôndega de corpos humanos pouco vestidos sob o sol, diante de uma barraquinha de sorvete frito (uma bola de sorvete empanada em massa de panqueca e mergulhada em óleo fervente), sentindo o atrito de cotovelos e ancas, o toque de mãos em seu braço ("Opa, desculpe!"). E o calor da humanidade com seu leque de odores (desodorante, suor, cerveja, cigarro, gases digestivos), os corpos sólidos a rodeá-lo feito matilha de cães, sendo que você - sim, o elegante você, com seus gostos refinados e sua inclinação pelas artes - não passa de mais um desses cães. Durante toda sua vida você ansiou pelo status de cisne branco ou de cavalo puro-sangue, mas seus colegas caninos farejam você de longe, satisfeitos de encontrar um igual.
Algumas feiras anuais são mais desafogadas, outras mais atulhadas de gente, mas há grande similitude entre elas, do mesmo jeito que acontece entre as igrejas católicas. Nenhuma feira anual corre o risco de ser chamada de modernete, luxuosa, fantástica - nada disso. Um negócio que tem a ver com fazendas ou porcos nem de longe se confundiria com as altas rodas. Riqueza e status social, aliás, não são, digamos, tão evidentes na feira anual. Não existe setor de primeira classe nem cordas de veludo demarcando áreas vip. A seleção de vinhos se resume a branco, tinto, rosé e espumante. Ninguém arrota fortunas.
A feira anual é, em essência, uma exposição agrícola, e a atividade rural por aqui não tem a ver com acumular riquezas. O negócio é trabalhar, sendo que há um Jeito Certo e um Jeito Errado de fazer isso. É o que se pode constatar na arquibancada diante do picadeiro vendo o jeito como rapazes e moças conduzem suas imaculadas vacas no sentido horário em torno de um juiz rabugento. Eles seguram o cabresto de modo a manter levantada a cabeça do animal, expondo seu perfil nítido ao escrutínio do juiz. E, para entrar em fila, os expositores se postam cara a cara com as vacas, mantendo-as em prontidão.
Você e eu talvez não tenhamos mais parentes que trabalhem no campo. Nossa memória da vida em fazenda, se é que ela existe, deve ser bem rarefeita. Mesmo assim, a avaliação do gado por um juiz é algo que faz sentido a nossos olhos. O esporte é uma metáfora sedutora - a vida é um jogo no qual obtemos a vitória por meio de trabalho árduo, disciplina e foco no sucesso. Entretanto, a mais antiga metáfora agrária - a vida é dura labuta sujeita às intempéries e aos caprichos do destino cego, e não fique surpreso se isso não trouxer nenhuma recompensa - ainda corre em nossas veias. Sempre dá para aprender algo com essa gente.
Nesta reportagem
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01/07/2009 15:32:18