"I ain't got no body ["Eu não tenho ninguém", que também soa, em inglês, como "Eu não tenho corpo"]", cantarola Andy Mullins na Feira Anual do Texas. "Eu saúdo as pessoas", diz ele. Mas o jogo de espelho que o faz parecer um homem tronco é a atração. "Me perguntam se eu sou real."
O Lusco-Fusco desce sobre a feira, e, de repente, a pessoa se dá conta de que está farta disso tudo. Você gastou horas se gratificando à base de queijo de coalho e sorvete frito, mandando tudo para dentro com a ajuda de fartos goles de refrigerante, provando dos anéis de cebola fritos de sua filha e adiando a hora de saborear um sundae com cobertura de calda de mel. Bom, essa hora chegou, mas a barraquinha de sundae, no pavilhão da horticultura, está a quatro quarteirões de distância, com um mar de gente no meio. Você e a filhota se acham na entrada da alameda principal, e os pregoeiros continuam a berrar em seu ouvido, convidando vocês a arriscarem a sorte no jogo de argolas, no lançamento da bola de basquete, no tiro de pistola d’água contra a boca do palhaço, a ver se ganham o urso de pelúcia. Só que você não quer saber de nenhum urso de pelúcia azul. O que você iria fazer com ele? Já tem um monte de tranqueira em sua vida.
Agora se abate sobre você a deliciosa repulsa pela feira e suas diversões rasteiras. Bate-lhe uma discreta vergonha de tamanho consumo de gordura animal. Basta! Você pega a guria pela mão. Chega de doce por hoje, meu doce. Vamos para casa, vamos cair na real, vamos cuidar da vida.
Você segue em busca do lugar em que imagina ter parado o carro de manhã. Por graça divina, você o encontra, aboleta-se ao volante e dirige de volta ao mundo que faz sentido, o do trabalho. A Longa Temporada de Escuridão aproxima-se, e você precisa recolher o gado ao estábulo e armazenar as cenouras e batatas na despensa.
No dia seguinte, a feira já era: brinquedos e barracas já foram desmontados; as ruas, varridas. Você passa por ali, dias depois, a caminho do trabalho. Parece o assentamento provisório de um exército invasor que já retornou para casa. Você é o velho e bom você mesmo de novo, ambicioso, disciplinado, frugal, andando a passo firme de cabeça erguida. Ninguém jamais associaria a sua pessoa com aquele tipo lamentável a se fartar de salsicha, empunhando um bigode de mostarda e uma barra de chocolate empanada e frita na outra mão. Aquele não era você de verdade. Esse de agora é que é, um soldado da realidade dizendo frases simples e assertivas. Você não precisa de cintilações baratas e gordura de porco e rodopios sem sentido pelos ares. Você tem trabalho a fazer. Bola para a frente.
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01/07/2009 15:32:18