Confiado ao povo da Nova Zelândia por um chefe Maori, o pico vulcânico coberto de neve do monte Ngauruhoe é sentinela de uma paisagem épica de florestas, trechos áridos e crateras.
Ao contemplar o coração do Parque Estadual Tongariro – três picos que se erguem em um dos lugares mais lindos da Nova Zelândia, país famoso por sua beleza –, é bem possível que você permita que questões estéticas interfiram na apreciação da cena espetacular a sua frente.
Ao sul fica a massa escarpada do Ruapehu, com 2.797 metros de altitude, o pico mais alto da ilha Norte. Atividades vulcânicas esculpiram o Ruapehu por 250 mil anos. O vulcão está em ação até hoje – de anos em anos ele acorda, enviando para o alto enormes colunas de vapor e cinzas. Ao norte fica Tongariro, ainda mais antigo; é um complexo extenso de crateras milenares, onde ventarolas exalam nuvens sulfurosas, de maneira contínua e ameaçadora.
No meio fica o Ngauruhoe. Menos volumoso do que seus companheiros, o Ngauruhoe (o Monte das Trevas na trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson) forma um cone absurdamente simétrico, que chama a atenção pela simples perfeição de sua forma. À montanha só faltam alguns riscos de lápis de cor vermelho vivo para ser o desenho arquetípico de vulcão feito por qualquer criança.
E nos perguntamos: “O que esta forma tão sensual e anômala está fazendo em uma vizinhança tão tosca?” Mais: “Que negócio é este de nos sentirmos tão atraídos por ela?”
“Age, I do abhor thee; youth, I do adore thee” (Idade, eu a abomino; juventude, eu a adoro), escreveu Bardo. E é bem isto: uma explicação e uma justificativa, para quem estava precisando. Este pico nasceu há apenas alguns poucos milhares de anos. A glaciação da Idade do Gelo, que dilacerou e marcou Ruapehu e Tongariro, ocorreu muito antes do nascimento de Ngauruhoe. Chuva e explosões de fogo ainda não prejudicaram sua face. Também no mundo geológico, a beleza da juventude exerce seu poder de sedução.
Os Maoris, integrantes do povo nativo da Nova Zelândia, olham para os três vulcões com reverência e os consideram tapu, palavra cujos diversos significados incluem tanto “sagrado” quanto “santidade”. Quando os europeus começaram a colonizar a região central da ilha Norte, na segunda metade do século 19, dividindo o terreno em cidades e fazendas, os Maoris temeram pela integridade dos picos. O chefe máximo, Horonuku, ou Te Heuheu Tukino IV, apresentou uma solução visionária: transferiu o tapu dos vulcões para a rainha Vitória e, em 1887, confiou as montanhas e o terreno no raio de uma milha (1,6 quilômetro) ao governo e ao povo da Nova Zelândia. A região se transformou no primeiro parque nacional do país e se expandiu até a área protegida atual, de 78.618 hectares.
O tapu Maori explica por que Tongariro detém a rara distinção de ter sido nomeado como Patrimônio Mundial duas vezes, por suas características físicas e, depois, por sua importância cultural. A combinação de fogo e gelo de vulcões ativos e geleiras que se encontram no parque conquistou com facilidade o status de patrimônio natural de lugares como a Grande Barreira de Corais e os Everglades. Mas o comitê da Organização das Nações Unidas, que toma decisões a respeito dessas questões, inicialmente rejeitou a proposta da Nova Zelândia de aceitar a relevância cultural de Tongariro, já que a classificação, antes disso, só tinha sido concedida a estruturas construídas pelo homem (pense na catedral de Chartres e nas pirâmides do Egito). Mas, depois de uma nova apresentação, que contou com uma delegação, incluindo anciãos Maoris, Tongariro tornou-se, em 1993, o primeiro local no mundo a receber o status de patrimônio de acordo com um novo critério chamado “paisagens culturais associativas”, devido à importância espiritual da área para os povos nativos.
A trilha de 19 quilômetros de extensão chamada de Tongariro Alpine Crossing (cruzamento alpino de tongariro) começa em uma pradaria, depois sobe por encostas de lava e morainas glaciais (montes de dejetos acumulados por geleiras antigas) até a base do Ngauruhoe, onde quem está disposto a encarar um par de horas de subida através de pedras soltas no chão, pode fazer um passeio paralelo até o topo do vulcão. O caminho principal sobe as encostas de Tongariro até o topo da cratera vermelha. Fumegante como o portão do inferno, a cratera Vermelha recebeu este nome devido à rocha que rodeia sua boca, de tom castanho por causa da oxidação do ferro. Lascas de lava negra ao redor são testemunho da longa história de erupções da cratera, que se deram até o final do século 19.
Na descida da cratera Vermelha, três lagos preenchem buracos causados por explosões, tingidos por minerais em tons de esmeralda que lhes valeram o nome Maori de Ngarotopounamu. Pouco depois, o caminho passa por outro lago, o Te Wai-whakaata-o-te Rangihiroa, ou Lago Azul. De fato, em um dia limpo, a água parece ter sido arrancada do céu lá em cima. A trilha então desce por encostas cobertas de capim e passa por ventarolas vulcânicas fumegantes para acabar em uma floresta densa ao longo de um riacho gorgulhante, chamado Mangatipua.
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12/10/2009 17:37:59