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Entre o fogo e o gelo

Entre no mundo surreal de O Senhor dos Anéis no Parque Nacional Tongariro, na Nova Zelândia.

Por Mel White
Foto de Stuart Franklin
Entre o fogo e o gelo

Confiado ao povo da Nova Zelândia por um chefe Maori, o pico vulcânico coberto de neve do monte Ngauruhoe é sentinela de uma paisagem épica de florestas, trechos áridos e crateras.

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Na encosta sudoeste do Ruapehu, bosques antigos de um outro tipo sobrevivem graças a um detalhe geográfico. A massa avantajada do Ruapehu protegeu a floresta da enorme erupção do vulcão Taupo no ano 186, ao passo que árvores, por quilômetros e quilômetros em todas as outras direções, foram destruídas. Uma trilha fácil avança sob árvores rimu, matai e kahikatea bem altas, cobertas de samambaias; embaixo, as plantas espalham suas folhas rendadas e as árvores kamahi parecem paralisadas em poses de uma dança de hula-hula.

A vegetação luxuriante, assim como os incontáveis riachos pedregosos e cachoeiras de Tongariro, é alimentada por nuvens que se deslocam do mar da Tasmânia e despejam sua umidade em cima das encostas da montanha. Nas terras altas da ilha Norte, você terá ótimas oportunidades para aperfeiçoar suas próprias definições de neblina, névoa, chuvisco, garoa, chuvinha e chuva, e todas as distinções sutis entre cada termo.

Em co-existência com a beleza de Tongariro, existem questões sérias ligadas a preservação e cultura. Assim como o resto da Nova Zelândia, o ecossistema do parque sofreu perdas terríveis com a introdução de espécies vindas de fora, desde ratos trazidos pelos primeiros Maoris até coelhos, arminhos, gambás australianos (possums) e gatos levados pelos europeus. Pássaros nativos, que evoluíram sem predadores mamíferos durante milhões de anos, foram devastados e sobrevivem hoje apenas em uma fração de seus antigos números. Até mesmo o kiwi – o pássaro estranho e que não voa, que se tornou o símbolo do país – quase desapareceu na natureza, já que os arminhos gostam muito de comer seus ovos e filhotes.

As plantas também causam problemas para os administradores do parque. Um dos primeiros guardas florestais introduziu tetrazes (aves parecidas com patos) da Grã-Bretanha, como caça, e trouxe urze para alimentá-las. As tetrazes morreram, mas a urze se espalhou como uma praga arroxeada, tomando o lugar da vegetação nativa em amplas extensões de terreno. O pinheiro Lodgepole veio da América do Norte para servir como lenha; suas sementes, carregadas pelo vento, espalharam-se para muito além das plantações, fazendo com que fosse extremamente difícil de ser erradicado.

Apenas o uso disseminado de armadilhas e veneno para lutar contra os intrusos impediu o declínio de espécies como o raro marreco azul, que ainda habita os riachos de Tongariro; o papagaio conhecido pelos Maoris pelo nome de “kaka”; e o tordo neozelandês absurdamente destemido, que fica saltitando ao redor das botas dos visitantes, procurando insetos nas folhas deslocadas por seus passos. Graças ao envenenamento intenso e a um programa de criação de filhotes em cativeiro, até que sejam capazes de se defender, o canto sobrenatural do kiwi ainda ecoa pelos bosques de Tongariro, emocionando aqueles que se aventuram pelas trilhas em noites calmas.

Como que por incongruência, as áreas preferidas para esquiar na ilha Norte ficam nas encostas do Ruapehu, com suas lojas, teleféricos e estradas associadas. Nenhum empreendimento assim de caráter tão abertamente comercial deveria se localizar em um parque nacional hoje, mas essas pistas datam de 1913 e, para o bem ou para o mal, atraem meio milhão de visitantes a cada temporada. Funcionários do Departamento de Conservação vivem tentando encontrar acordos com a administração do parque que vão deixar os esquiadores satisfeitos e ao mesmo tempo vão proteger um dos lugares mais maravilhosos do mundo.

As decisões a respeito da proteção de Tongariro estão se tornando cada vez mais complexas. Nas últimas décadas, os vizinhos Maoris de Tongariro, as iwi (comunidades nativas) – há muito excluídas de tais questões pelos pakehas (pessoas de ascendência europeia) dominantes – retomaram direitos políticos e influência. Alguns acreditam que Te Heuheu – que era, afinal de contas, chefe apenas da tribo Ngati Tuwharetoa – não tinha o direito de entregar os três picos vulcânicos em nome de todos os Maoris e gostariam de transformar o parque em território tribal sagrado. Outros, menos radicais, fechariam os picos das montanhas aos alpinistas ou restringiriam o acesso a quem se fizesse acompanhar por um guia Maori local.

Arminhos que devoram pássaros, construção de estacionamentos, valores espirituais e culturais profundos – todas essas questões atulham as mesas dos funcionários do Departamento de Conservação. Há ainda mais um item: teoricamente, pelo menos, o parque poderia explodir e virar migalhas a qualquer momento.

Quem visita o lugar pode tirar essas preocupações da mente por um tempo – o período suficiente para uma caminhada que, em um único dia, é capaz de abranger rochas vulcânicas estéreis e florestas ricas e complexas, o som de cachoeiras e a batida das asas dos pombos, o cheiro do enxofre que vem das profundezas do subsolo e o dos musgos e das samambaias e da terra que fica depois da chuva. E, acima de tudo, a visão dos três maravilhosos picos de Ruapehu, Ngauruhoe e Tongariro, os criadores e destruidores desta região.


Publicado em 07/2009

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Comentários

marina - Ve se essa reportagem é boaBjs
12/10/2009 17:37:59
Bernard - specially 4U
14/07/2009 11:18:07

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