Reescrevendo a história

Adriano Silva cria contos inspirado em fotos dos leitores
Junho
Milena Garcia Ramos (São Paulo - SP) - Foto tirada na Bolívia -

Milena Garcia Ramos (São Paulo - SP) - Foto tirada na Bolívia

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Tão perto do céu

A gente foi para o Atacama ano passado. Eu, a Ju e a Lu. Trocamos de avião em Santiago e voamos até Antofagasta. A Cordilheira, majestosa, nos acompanhou o tempo todo. Depois, mais 350 km de estrada - linda! - e chegamos a San Pedro de Atacama. Ficamos num hotelzinho maravilhoso. As três no mesmo quarto. Para ficar mais barato e mais divertido. E, claro, mais seguro também. Três brasileirinhas sozinhas, perdidas no meio da América do Sul... Já viu, né?

Foi esse argumento que usamos para convencer o gerente do hotel a permitir que ficássemos juntas no quarto. Alejandro. Que ojos verdes ! E uma voz... Acho que é o ar do deserto que deixa tudo mais seco e másculo. Ou então foi o espanhol dele que me encantou. Essa é uma língua que, quando bem falada, é a mais gostosa e sensual do planeta.

Alejandro nos convidou para jantar na mesa dele na primeira noite. O hotel estava cheio de gringos. E nos ofereceu um licor maravilhoso. Comemos muito bem e ficamos bebericando aquele néctar até irmos para a cama, quase desmaiando de felicidade, de prazer etílico e gastronômico e, claro, de jet lag.

Alejandro nos acordou no meio da noite para um passeio no deserto. O sol estava a pino. Topamos na hora. Quer dizer, eu topei, em nome das três. Depois fui tirá-las da cama. Mas elas já estavam completamente vestidas e radiantes. Então reparei que eu também já estava vestida. E com um lenço azul esmeralda na cabeça, divino, que eu nunca tinha visto na vida.

Saímos em disparada no jipe de Alejandro. A areia foi ficando branca, branca, se transformando em sal. Subimos até o topo de um platô que nos equiparava aos picos mais altos em volta. Nenhuma dificuldade para respirar. Oxigênio abundante. À medida que íamos chegando, o jipe foi diminuindo de tamanho, perdendo a velocidade, encolhendo até se transformar em um carrinho de brinquedo.

Quando o jipe parou por completo, fomos jogadas pela inércia para fora dele. Rolamos sobre o sal. A luminosidade era intensa, nos cegava. No chão, me recuperando da queda, percebi que estava com uma camiseta baby look do Peru. Uma peça cool, mas que eu jamais compraria e que simplesmente surgiu em mim. Apesar do absurdo da situação, Lu, Ju e eu não conseguíamos parar de rir.

Até que Alejandro reapareceu à nossa frente. Tirou as botas e as meias. Que pés. Pés de homem, com veias saltadas e pêlos nos dedos. Começou a arregaçar as calças. E à medida que o fazia, foi aumentando de tamanho. Até adquirir as proporções de um gigante. Deu uma gargalhada que ecoou por todo o deserto. A gente riu de volta, achando tudo aquilo muito engraçado. Então ele pisou na gente e a gente morreu.

Contos de Junho
Como funciona
Mande pra gente uma foto bacana da sua viagem, em que você apareça. Toda semana escolheremos uma imagem, que vai inspirar o Adriano a criar uma minificção. Ou seja: você corre o risco de virar personagem de um pequeno conto – que pode conter sexo, morte, intriga, conspiração internacional ou ser apenas uma história divertida.

O melhor conto do mês, segundo as notas dadas pelos internautas, ficará na nossa galeria. E o autor da foto que o inspirou vai ganhar um Guia Brasil. Envie sua foto
Adriano Silva Adriano Silva
Publisher do Gizmodo Brasil, foi chefe de redação do Fantástico, diretor do Núcleo Jovem da Editora Abril, diretor de redação da revista Superinteressante e diretor de marketing e editor sênior da revista Exame. Mas o que ele sempre foi mesmo é escritor. E foi isso o que veio fazer aqui: reescrever a sua história.
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