Just another day in paradise
Ano que vem vou sair daqui. Abandonar o paraÃso.
Não tem mercado de trabalho aqui para mim. Eu sei disso. E é o que todos me dizem. Então eu sei que tenho que sair.
Não gostaria. Porque essa é a minha terra. Aqui cresci, me tornei homem. E aqui fiz e faço coisas que sei que não poderei fazer depois que eu for embora.
Comer jambo no pé, colhido na rua, de uma árvore pública, em frente à minha casa.
Suco de tamarindo. Siriguela a granel na beira do rio sólido, fedido, feito de lama podre, que é parte inevitável de mim, da minha história, de quem eu sou. Umbu comprado pela janela do carro, dos meninos pardos de pés descalços e dentes marrons. Que estão à venda também.
Esses coqueiros fincados na areia cálida. As sombras que dão. Que dão vontade de espreguiçar para sempre, de se encolher ali embaixo e abdicar da vida, da luta, de tudo que há por fazer. As sombras vegetais dessa terra são como bênçãos, são como regaços de prazer e abandono, oásis de paz e de felicidade sob o sol abrasante que nos cobre desde que o mundo é mundo. São paragens que convidam ao torpor. Lugares que dão vontade de morrer.
E tem essas águas mornas, esse mar de meu deus que tanta falta me fará.
Agora não quero pensar na vida. Nem na morte.
Quero imergir aqui. Curtir o que ainda dá.
Olhar para a vida adiante e dizer, com apetite: "vem cá".Â
Contos de Agosto