Nem sempre foi assim. Em 1970, quando Cecília Correia botou pela primeira vez os pés naquela areia, não havia tantos turistas, gatinhas descoladas, resorts, pousadinhas e surfistas... Bem, talvez só os surfistas. Itacaré viveu sua primeira fase áurea entre as décadas de 1890 e 1920, como principal porto de escoamento da produção de cacau da região.A partir da crise de 1929, a cidadela de traços coloniais parou no tempo. Só chegavam os surfistas e bichos-grilos que se dispunham a transpor o difícil trecho de terra entre Itacaré e o resto do sul da Bahia. "Tínhamos de descer do ônibus para conseguir passar", diz dona Cecília. Encantada com o lugar, ela veio de mala e cuia em 1995.
Muita coisa mudou nestes 12 anos. Itacaré é hoje o quinto destino da Bahia mais vendido pela CVC - Porto Seguro, Costa do Sauípe, Salvador e Ilhéus vêm antes; Trancoso ficou para trás. A maior operadora do país trouxe cerca de 10 mil pessoas no ano passado. Entre dezembro de 2006 e fevereiro deste ano, foram 4 mil turistas. Nada mal para um roteiro que, em seu primeiro ano, 2002, vendeu apenas 800 pacotes. O atual boom turístico tem suas origens em 1998, com a construção da Estrada-Parque Ilhéus-Itacaré (BA-001). O trajeto de 72 quilômetros passa bem longe da orla, contornando antigas fazendas de coco e cacau. O mar azul (ou verde, dependendo da época do ano), a Serra Grande e o Rio das Contas compõem um cenário único, que lembra mais Ubatuba que Praia do Forte. O litoral é todo recortado, com praias espremidas entre morros de densa vegetação, sem as dunas e falésias típicas da Bahia.
No município configurou-se uma geografia bem definida. As pousadinhas baratas, os botecos para a moçada e a muvuca-mor concentram-se na rua, antes chamada de Caminho das Praias, hoje conhecida como Pituba. Os restaurantes descolados e as lojas de artesanato com preços nas alturas ficam nos arredores da Rua Lodônio de Almeida, próximo ao colorido Beco das Flores, no centro - esqueça do centro antigo, degradado, feio e com áreas perigosas.
No fim do bairro da Pituba, as ruas de terra do condomínio Conchas do Mar abrigam pousadas: umas em terrenos minúsculos, outras em meio a um tantinho de Mata Atlântica preservada e as mais bacanas, com decoração charmosa e mimos como café-da-manhã a qualquer hora do dia ou serviços de spa e beleza. Tratar os hóspedes com sombra e água fresca é uma lição aprendida com os resorts que ficam nas praias do sul. Para chegar a tais praias, é preciso voltar pela BA-001 e pegar trilhas por entre propriedades privadas (em geral, o acesso é cobrado). O Itacaré Eco Resort e o Village estão na Praia de São José, dentro de uma área de proteção ambiental (e atualmente estudam uma fusão para 2008); o Txai, num trecho à sombra dos coqueirais da extensa Praia de Itacarezinho. "Sabíamos que vilas descobertas primeiro por surfistas tendem a desenvolver o turismo mais rapidamente", diz Renato Guedes, surfista que rodou o mundo antes de se tornar um dos fundadores do Txai, o melhor resort itacarense, segundo o Guia Brasil 2008.
Para conseguir seu lugar sob o sol de Itacaré, empreendimentos dessa natureza precisam de autorizações emitidas pelo Conselho Regional de Administração e pelo estado da Bahia. Em contrapartida, os resorts promovem ações sociais e ambientais ligadas à sustentabilidade - o que não impede que sejam multados vez ou outra. Em março, as obras do Warapuru, mega-resort seis-estrelas do grupo português Somague na idílica Praia de Engenhoca, foram embargadas pelo Ministério Público Federal, sob suspeita de danos à vegetação e irregularidade nas autorizações para construção. Os problemas foram resolvidos, e o projeto, que prevê 40 bangalôs e 19 casas particulares com a grife da designer neozelandesa Anouschka Hempel, dos Blake's de Amsterdã e Londres, segue a pleno vapor - a inauguração está prometida para julho de 2008.
Houve até manifestações de moradores pela continuidade das obras, nas quais trabalham 1 300 pessoas. O turismo que veio com a BA-001, é claro, gera emprego para os nativos. Manuel de Oliveira Pinto, funcionário do Txai, descreve com orgulho os passeios de luxo que promove em sua canoa. Ao som de música instrumental, a embarcação leva, no máximo, quatro hóspedes por vez a navegar pelo Rio das Contas. "Saio às 4 da tarde, com tempo suficiente para chegar à Ilha de Manguinhos, bem no meio do rio, e brindar o pôr-do-sol com champanhe", diz. Como dona Cecília e todos que moram em Itacaré, seu Manuel sabe bem que nem sempre foi assim.
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