Mas a vida real não vai bem na "área de serviço" de Trancoso. No lado B do Quadrado, o bairro da Invasão e mais além, a paisagem se transforma para pior. Obras clandestinas pipocam. Surgiu um lixão a céu aberto, e esgotos são despejados nos rios. Isso se vê, por exemplo, em Maria Viúva e no Condomínio 2000, a 1 quilômetro do Quadrado, em que a desordem urbana é a regra. Bairros como Trancosinho e Mirante do Rio Verde crescem à custa do desmatamento de porções consideráveis do que ainda resta de Mata Atlântica - que em Trancoso está em estágio secundário, mas, mesmo assim, não pode ser derrubada, já que a vila está em Área de Proteção Ambiental. "Cansei de ver destinos turísticos acabarem pelos mesmos problemas de lá. Tudo começa com o desmatamento criminoso", diz Mario Mantovani, diretor da Fundação SOS Mata Atlântica.
"Existe um plano diretor que regulamenta o crescimento de Trancoso, mas quem disse que alguém respeita?", pergunta o empresário Randolfo Calenda, membro da Sociedade Amigos de Trancoso (SAT), formada recentemente por empresários e moradores preocupados com a preservação da vila. Por seu lado, a Secretaria de Obras de Porto Seguro afirma que fiscaliza e multa os infratores. "Obras sem alvará são notificadas e paralisadas", diz o secretário Odenir Barni. "Infelizmente, como em qualquer lugar do mundo, sempre há quem prefira ficar na ilegalidade, e em Trancoso não é diferente." Barni alega que muitas infrações não são denunciadas, o que dificulta sua fiscalização. "Quando ligam para a secretaria, é para reclamar de problemas de iluminação e esgoto." Em 2007, a secretaria contabilizou apenas 15 reclamações relativas a Trancoso, entre obras irregulares, problemas de iluminação e esgoto.
As praias já sofrem. Esgotos escorrem in natura pelos riachos que deságuam no Rio Trancoso - e que chega ao mar. "Até o óleo de fritura dos barraqueiros é despejado no rio sem cerimônia", diz Randolfo Calenda. Mesmo medidas simples, como fechar o Quadrado ao trânsito de veículos, tornam-se árdua batalha em Trancoso. "Desde 1986 tentamos bloquear a praça para veículos, mas os prefeitos preferem abri-la e fechá-la de acordo com a sua vontade", diz o empresário.
Mas há boas notícias. A Sociedade Amigos de Trancosolançou, no fim de 2007, o movimento Trancoso Sustentável. O objetivo é traçar um plano piloto de sustentabilidade que sirva também de modelo a outros destinos. "A região está com o sinal amarelo aceso e pode acabar em cinco anos se não fizermos algo já", diz o ambientalista Fábio Feldmann. Fala-se em fortalecer parcerias estratégicas com ONGs e autoridades de turismo, cultura e meio ambiente. "Queremos envolver todos, ambientalistas, moradores e turistas", diz o empresário Carlos "Calé" Bittencourt, sócio do Terravista, complexo de condomínios e resorts da região. Um pouco menos abstrata é a idéia de profissionalização da entidade. A SAT quer contratar e remunerar técnicos de meio ambiente para buscar soluções para a região.
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