Fizemos a primeira parada a 4 300 metros de altitude, na região do Tatio, a 95 quilômetros de San Pedro, já com o sol despontando no horizonte. Despontava também, no alto da cordilheira, a zona de gêiseres, com suas cores e sua intensa atividade geológica. Jatos de água escaldante e um vapor impregnado de enxofre brotam do chão e são expelidos com força por dezenas de estreitos canais e buracos borbulhantes.
O sol esquenta o dia e, no porta-malas da van, pilhas de casacos se acumulam conforme a temperatura sobe. O próximo destino são as termas de Puritama. É um ponto escondido, freqüentado pelos hóspedes do Explora, hotelão no meio do deserto que ajuda na manutenção e conservação das fontes termais. Pagando uma taxa de 10 dólares à entrada, tive acesso a vestiários e banheiros. Piscinas naturais rasas e de água morna do Rio Puritama escondem-se em uma improvável fenda verde no terreno rochoso. Incrível.
Uns 40 quilômetros à frente, na entrada oficial da área de visitação do Salar de Atacama, redes esticadas no pátio da pequena sede dão trégua contra o sol. O calor parece emanar do céu e do chão, sempre refletido na brancura do sal petrificado. Entre uma balançada e outra, o vôo dos flamingos é o único movimento da paisagem estática da planície e de suas lagoas. São centenas, alaranjados e rosados, que variam de tom conforme a idade e a incidência da luz solar. Mas foi no famoso Valle de la Luna que tive a grande visão da viagem. Uma coleção de imensas dunas e bizarras formações rochosas forma mirantes dos quais se avistam quilômetros de terras desabitadas. Por bom senso, subi as dunas no fim da tarde, quando o sol castiga menos. A melhor base para exploração do deserto é a simpática San Pedro do Atacama, um paraíso de mochileiros com infra-estrutura impressionante para seu isolamento, a 103 quilômetros do aeroporto mais próximo, na cidade de Calama.
No terceiro dia de viagem, carimbei o passaporte atravessando a fronteira com a Bolívia. Durante o trajeto, vai aparecendo uma série de lagoas de altitude com águas azuis, verdes ou rosadas. No horizonte, um cordão de vulcões parece ter sido tirado dos livros de histórias infantis, com cones perfeitos e topos cobertos de neve. No fim da rota, o imponente Vulcão Licancabur repousa sobre a fronteira entre os dois países e faz sombra às lagoas Miscanti e Miñiques, as Lagunas Altiplánicas. Ali senti alguns efeitos da altitude, ou soroche: estava um pouco mais ofegante. "O sangramento no nariz, a tontura e a dor de cabeça cessam quase instantaneamente quando você começa a descer", diz o escalador boliviano Juan Villaroel, orientando alguns austríacos pouco antes de começar a caminhada pela base do Licancabur. Vi o grupo desaparecer no deserto; não fui com eles.
As vans retornam a San Pedro no fim do dia. Os restaurantes abrem suas portas e recebem visitantes famintos como eu com um delicioso ensopado de frango, acompanhado de quínua. Dos hotéis mais luxuosos às pousadas mais simples, os quartinhos de adobe fornecem conforto térmico - fresco durante o dia e quentinho à noite. No deserto mais seco do mundo, dormi como um bebê.
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