O criadouro de ostras Caulín é minha primeira parada. Ramón Molina, proprietário do local desde 1967, me recebe pessoalmente, abrindo as melhores ostras que já comi, servidas cruas em um coquetel frio com limão. Tiradas da água a 50 metros dali, também fazem sucesso na sopa do almoço. Sentado à mesa com vista para o mar, ouvindo as longas histórias de Ramón, começo a entender o espírito vagaroso, simples e romântico de Chiloé.
A partir da cidade de Ancud, pontuando a costa leste da ilha, igrejas de madeira entalhada e casas sobre palafi tas se distribuem pelos povoados. O conjunto arquitetônico, construído no século 19, foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco nos anos 80. Mas as primeiras igrejas, que deram lugar às versões de madeira, foram erguidas com mão-de-obra indígena. Os mapuches habitavam a ilha muito antes da chegada dos missionários espanhóis, no século 16, e deixaram uma herança marcante na cultura e na culinária locais. As dezenas de variedades de batata que eles cultivavam hoje são usadas no curanto, o ícone máximo da gastronomia. Para acompanhar seu ritual de preparo, fui até a fazenda de Hardi Dimter e sua mulher, Maria Luísa Maldonado, ao sul de Ancud.
Enquanto recebia as boas-vindas, eu observava a fumaça que vinha dos fundos da casa: num buraco cheio de brasas, os filhos do casal aqueciam pedras. Quando já estavam quentes o suficiente, elas receberam sobre si os alimentos, dispostos em camadas: carne, peixe, marisco, vegetais, batata e lingüiça. Por cima de tudo, uma cobertura de folhas de nalco (planta local), pedaços de tecido e uma capa de plástico preto. Disfarçando minha fome, aceitei sair para dar uma volta. Atravessamos um bosque até as margens do Rio Chepu, onde entramos num pequeno barco. Um dos filhos do casal remava, discorrendo sobre as mais cabeludas lendas de Chiloé, recheadas de seres míticos e galeões fantasmas. Depois de três horas de cozimento, voltamos para comer o curanto. É um prato rústico, mais curioso que saboroso, em que o forte aroma das folhas de nalco dá às carnes um gosto quase homogêneo. "Bem mais rápido é provar o prato em Ancud, no restaurante Kurantón, em que as panelas e o fogão substituem a terra e as folhas. Mas nunca será a mesma coisa", diz Hardi entre uma garfada e outra.
Se nas vilas de pescadores e agricultores a vida parece pacata, já em Castro, capital de Chiloé, tem até barzinhos com música ao vivo. Às margens de canais, estuários e lagoas, as casas coloridas da cidade mesclam precariedade e beleza enquanto se equilibram em pilotis. Uma delas abriga o restaurante Don Octavio, onde, à luz de velas, experimentei um prato em que a carne branca do cherne se misturava ao rosa do salmão, numa deliciosa trança feita com os dois peixes.
Castro é a melhor base para conhecer o Parque Nacional Chiloé, uma porção preservada de floresta tropical cortada por trilhas que percorrem dunas, praias semidesertas e lagoas. No caminho até lá, conheci mais algumas cidadezinhas encantadoras que preservam a riqueza do folclore e da gastronomia de Chiloé. Ainda hoje, em casa, lembro-me desses povoados ao saborear almejas, locos e outros mariscos enlatados que trouxe como recuerdo.
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