O parque tem mais de 900 sítios arqueológicos, a maior concentração do mundo, e é Patrimônio da Humanidade desde 1991. Muitos sítios são de acesso exclusivo a pesquisadores e arqueólogos; outros estão por ser descobertos. Mas, mesmo que o turista fique por lá uma semana, terá muito que ver e visitar. A parte mais conhecida é o Boqueirão da Pedra Furada, com a dramática pedra de 100 metros de altura cujo furo que lhe dá nome tem data para ruir - alguns milhares de anos mais. Da mesma forma que as esculturas de Sete Cidades, o buraco foi urdido por ventos e erosão. A seus pés está a escavação mais importante, que é iluminada à noite (é preciso combinar com os guias) e onde foram encontrados fragmentos de uma fogueira. Que, para Niéde, sob contestação de muitos outros especialistas, são a prova cabal de que naquele ponto se iniciou a ocupação das Américas, há cerca de 50 mil anos - o que justifica o epíteto dado ao lugar de "berço do homem americano". As rochas ali já mostram grande número de pinturas rupestres, no padrão que irá se repetir em várias outras da região - animais, símbolos geométricos e homens com falo ereto. A datação indica terem sido feitas entre 6 mil e 12 mil anos atrás.
O parque é imenso - estende-se por 1 300 quilômetros quadrados, e não há hipótese de conhecê-lo rapidamente e sem carro. Se a Pedra Furada está perto dos ceramistas do Barreirinho - onde, aliás, nos hospedamos num albergue honestíssimo -, a região do Baixão das Andorinhas fica a uns bons 80 quilômetros dali, num lindo cânion ao qual se chega por sua parte superior. No caminho, em São Raimundo Nonato, está o muito bem estruturado Museu do Homem Americano - Niéde mora ao lado. Quando nos recebeu, não dissimilou o desânimo pelas eternas brigas que trava com o poder público, o Ibama e os caçadores locais.
Ao deixarmos a velha senhora naquela tarde de domingo, fomos com uma guia ao Baixão das Andorinhas. Ao entardecer, acontece ali o pouso simultâneo de milhares desses pássaros, que mergulham no abismo e se entocam nas frestas de pedra em velocidade vertiginosa. O repórter Fernando Sickness, que já visitou a região para o Guia Brasil, usou o adjetivo "estúpido" para definir o espetáculo. Bem a seu estilo, também subverteu o velho ditado "uma andorinha só não faz verão", dizendo que dezenas, centenas de milhares de andorinhas juntas e em ritmo camicase "fazem quantas estações você quiser". Mas os minutos passavam, e nada de os pássaros chegarem. Mais alguns minutos e já notávamos o semblante carregado da guia. Com a noite a baixar, agora ela irrompia em lágrimas. Nessa hora, se ela houvesse apontado uma relação entre o não-retorno das andorinhas e a alma supostamente corrompida dos visitantes, teria me persuadido.
Na volta do sítio, sob as luzes lindas e últimas do crepúsculo, pensei que iam no Corsa alugado dois jornalistas vivazes e superficiais o suficiente para considerar aquele fracasso meramente trivial. E, no banco de trás, como que responsável direta pelo no show coletivo, uma local genuinamente mortificada a carregar o peso de um crime de lesa-humanidade, a solidão de três desertos tão própria de seu estado.
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