Quem pode, pode
A Praia de Punta Cana praticamente não "existia" antes da entrada do Club Med e da construção do aeroporto local, na década de 1980. Hoje, a região tem 25 mil quartos e é o principal atrativo para os 4 milhões de turistas que visitam anualmente a República Dominicana. Para 2009, a Secretaria de Turismo prevê mais 1 milhão. Nos últimos três anos, o número de brasileiros no país aumentou 70%. O número de vôos triplicou. Na mesma pista, americanos aterrissam (sem escala) para jogar golfe. "Mais de 40% dos hóspedes nos procuram pelo esporte", diz Karina Argüello, a gerente do Sanctuary Cap Cana, que me conduz (em um carrinho elétrico) à suíte em que eu iria me hospedar.
Da varanda, distante dos buracos à beira-mar de Punta Espada (o primeiro campo de golfe do complexo, desenhado pelo célebre Jack Nicklaus), ainda não consigo enxergar o tal investimento de 450 milhões de dólares. Vejo, sim, um bom hotel, com suítes de até 350 metros quadrados arejadas pela brisa do Caribe e por ventiladores design. Vejo as camas macias, com travesseiros de pena de ganso e lençóis de muitos fios. E valorizo as gostosas piscinas, com vista para o mar turquesa e harmonicamente conjugadas com o restaurante sobre palafitas. O café-da-manhã tem croissant, queijo brie e iogurtes fresquinhos. Escorregadas no serviço me fazem pensar se ele será tudo o que pretende, em um prazo de 12 anos. Pela marina com capacidade para mil iates de até 250 pés, a única em um raio de 400 quilômetros, vê-se que, se não é o maior, o projeto está entre os mais ambiciosos do país.
Em uma área de 35 milhões de metros quadrados e 5 quilômetros de praia, estarão outros quatro campos de golfe e mais quatro hotéis. O Altabella Fishing Lodge, em frente à marina, deve ser inaugurado no final do ano. Se estivesse no Brasil, em uma versão bem reduzida, o Cap Cana seria a Costa do Sauípe. O que me faz ficar com o pé atrás, já que o resort baiano, depois de sete anos, já teve que se reformular. Por trás do investimento caribenho há um nome de peso: o milionário Donald Trump é um dos parceiros, junto com as bandeiras NH, da Espanha, e The Ritz-Carlton Hotel Company.
E ainda tem muitos hotéis novos na região, mais exclusivos. O ecológico Sivory tem suítes camufladas na mata ou escancaradas para a praia, com piscina particular; o belo Paradisus fica na praia de Bávaro (a mesma dos resorts tradicionais). O Tortuga Bay foi decorado por Oscar de La Renta, um dos pioneiros da nova geração de habitués do país (que inclui o ator Brad Pitt). A última novidade é o Agua Resort, um hotel-butique com 53 suítes e espreguiçadeiras de madeira acolchoadas, de frente para o mar.
Belas barbadas
Carolina, a filha de 2 anos de Marino Rosseti, corre para lá e para cá, feliz da vida e sem biquíni, enquanto o italiano de Milão tem uma discussão calorosa com a mulher. Discutiam se o mar da praia de Bávaro, onde estavam hospedados, era tão azul quanto o da Sardenha. "Escolhemos as férias pela praia, não pelas mordomias do hotel", diz Marino, com o mesmo espírito dos brasileiros que vêm aos resorts mais tradicionais da República Dominicana. Se o seu dinheiro está contado, comece com a boa notícia: um dólar vale 33 pesos dominicanos. E os pacotes estão cada dia mais baratos. Na operadora Nascimento, tradicional em roteiros do Caribe, seis noites em um hotel da rede Barceló na praia de Bávaro custam a partir de 1540 dólares com tudo incluído - até a passagem aérea da Copa, que tem escala no Panamá e dispensa o visto americano.
Só não vá achando que a viagem de dez horas terá poltronas mais confortáveis que as da American Airlines. E é sempre bom ter cuidado na hora de escolher onde ficar. Hotéis mais baratos que a média, como o Barceló Golf, podem trazer dor de cabeça (prefira o Barceló Beach ou o Palace, mais inteirões mas com bom custo/benefício). Outra dica é o Tropical, pequeno para os padrões vizinhos (300 apartamentos). Em todos os hotéis há saídas para observação de baleias (em Bayahibe) e passeios de catamarã (para a Ilha Saona), além do mergulho autônomo. Quase ninguém vai, já que os hotéis têm snorkel e caiaques de graça. Se você achar que uma semana na mesma praia soa entediante, pode combinar o roteiro com dois dias em Puerto Plata (o mar não é caribenho, mas a jovial praia de Cabarete vale a visita). Ou conhecer a mais nova aposta dominicana, Samaná - uma baía habitada por baleias. Há investimentos hoteleiros previstos na região e, em março, uma nova estrada que diminuirá o tempo médio de quatro para duas horas de viagem, a partir de Santo Domingo. Por falar nisso, a capital vale um dia extra na viagem. Por que não dois?
A vida (dominicana) como ela é
La Romana está entre Punta Cana e Santo Domingo. Na beira da estrada, meninos se divertem em uma típica "pelada" dominical. Em vez de chutar a bola de futebol, no entanto, eles dão tacadas de beisebol. Mais de cem dominicanos jogam na liga americana do esporte, e eles são acompanhados com fidelidade por seus conterrâneos. "Beisebol es todo en la vida", diz Franklin Vasquez, de 16 anos, que segue os passos de seu ídolo Edwin Encarnación, nascido em La Romana, e sonha em jogar no Yankee de Nova York.
Há um porto sendo construído na cidade. Mas a maior expectativa está mesmo em Santo Domingo, onde o Porto San Soucí deve ser inaugurado em maio. Privatizado em 2005, ele terá capacidade para atender 3 800 passageiros - ou dois navios de 70 mil toneladas ao mesmo tempo. A aposta do diretor de relações internacionais do grupo, Jorge Esteves, é que ele traga 20 mil empregos diretos e indiretos e aumente em 1% o PIB do país.
Do alto do Forte Ozama, de 1505, dá para ver o porto direitinho. A construção fica na Calle Las Damas, que recebeu o nome em homenagem à nora de Cristóvão Colombo, Maria de Toledo. Os dominicanos juram que ela trouxe uma parte do cadáver do sogro para ser enterrado aqui (e supostamente está no Faro a Cólon, um mausoléu de mármore a minutos da Zona Colonial). Colombo é homenageado em cada esquina, por ter dado aos seus moradores a honra de ter passado por aqui em 1492. Em Santo Domingo, parte de sua tripulação acampou pela primeira vez na América. Há muitos outros pioneirismos, como a primeira igreja, a primeira universidade e o primeiro tribunal deste lado do oceano.
Hoje, além dos que sonham com beisebol, há 2 milhões de haitianos na República Dominicana trabalhando na construção e no cultivo de cana-de-açúcar. E 1 milhão de dominicanos vivendo nos Estados Unidos. Mas tanto haitianos quanto dominicanos lutam contra o desejo americano de juntar a ilha em um só país. A influência americana você pode notar no Malecón, área da avenida beira-mar que passou a ser chamada de George Washington. A cultura haitiana é encontrada nas bruxarias do Mercado Modelo. Os charutos, assim como o rum, e as jóias de âmbar e larimar estão à venda no Mercado Colonial e nas ruas (no caso das jóias minerais, muitas vezes, em versões falsificadas).
Na Plaza de España fica a preservada Alcazar de Cólon, onde viveu o filho de Cristóvão, Diego Colombo. Por dentro, o Museu de Las Casas Reales é mais interessante. Mas se você quer entender as origens - e o futuro - do povo dominicano, pode trocar o acervo por uma noite inteira em um dos bares e restaurantes com mesas ao ar livre e vista para o Rio Ozama. A vida local passará por você, sem esforço. De repente, você vê o Balé Folclórico, o mais bem vestido da cidade, dançando merengue - e não é só para turista. Seus dançarinos também dançam em casa, desde pequenos. E gostam de bachata, além do reggaeton, ritmo que nasceu em Porto Rico e domina o som dos carros envenenados dos meninos do Malecón. Senhores dominicanos podem estar na mesa ao lado, comentando os estragos da última tormenta, em setembro do ano passado, que aumentou o nível dos rios e arrasou plantações. Ou dando notícias da candidatura de Leonel Fernandez Reyna, o atual presidente do Partido de La Liberacion Republicana, que, como gostam de dizer, é dos "males o mejor". Na minha visita, ele apareceu em pleno Carnaval, entre mascarados de diabos e caveiras, ao lado de um segurança com fuzil na mão. Ao ver a cena, perguntei ao senhor sobre Rafael Trujillo, o ditador que comandou o país por 31 anos. Ele me diz que ninguém esquecia dele, por supuesto, mas que os tempos eram outros. A moça está diferente. Eu não falei?
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