Tirei minha penca de chaves (eram três, e enormes) da bolsa, um papel com os códigos da porta anotados e fui arrastando as minhas malas prédio adentro. Um corredor escurinho dava para um pátio com árvores quase peladas nos fundos. Três andares de escada depois eu estava em casa. Sala, cozinha americana, sofá que virava cama, recheado de travesseiros e edredons macios. Um rádio-relógio na cabeceira. Em cima da mesa me aguardavam cópias das chaves e um guia dos arredores com um mapa que mostrava onde estavam a farmácia, o supermercado, a loja de conveniência aberta até mais tarde. Era tudo bem clarinho, e a cortina vermelha transparente tremelicava com o aquecimento a mil logo embaixo dela. Cafeteira, frigobar, microondas, taças de vinho, saca-rolhas, tudo de que uma pessoa precisa para férias perfeitas. Malas guardadas, fui logo conhecer o que seria o pano de fundo para elas.
Saí andando sem rumo pelo bairro de Malá Strana, seguindo os trilhos do trem de superfície vermelhinho, e apenas cinco minutos depois eu estava aos pés do mais belo cartão-postal de Praga: a Ponte Carlos, do século 14, que se estende por exatos 510 metros sobre o Rio Vltava. Do outro lado das estátuas barrocas enfileiradas, Praga se apresentava: o Klementinum, complexo barroco formado por três igrejas, um convento e outras tantas casas; as torres das igrejas de São Nicolau e de Nossa Senhora de Tyn; as ruelas calçadas e estreitas enfeitadas com dezenas de vitrines de marionetes de madeira. De repente, eis que surge imponente a Malé Namesti, a Praça da Cidade Velha, cujo centro é a famosa torre da prefeitura onde, a cada hora, o relógio astronômico exibe um encantador desfile de bonecos desde o século 15. Na volta para casa, novamente a Ponte Carlos no caminho. Do outro lado, a Nerudova, um trecho da chamada Via Real, sobe tortuosa até o Castelo de Praga (Hradcany, 420/224-373-368, hrad.cz; ingressos de CZK 250 a CZK 350), na verdade um complexo fundado em 880 pelo príncipe Borifov que inclui a Catedral de São Vito, conventos, torres e palácios que se derramam na colina sobre o rio.
Aos poucos fui me familiarizando com a vizinhança. Uma ida ao mercado para comprar café, pasta de dentes, pão fresco. Uma escapada à banca de revistas pela manhã. Muitos pit stops no bar da esquina. No terceiro dia eu já tinha as minhas preferências. O café-da-manhã e a última taça de vinho passaram a ser sempre no Noi (Újezd, 19, 420/724-111-726; Cc: todos), um café moderninho com wi-fi de graça a umas duas quadras de casa onde as vitrines estavam sempre recheadas de delícias (quiches, cheesecakes de frutas vermelhas...) - na época ainda se chamava DownTown e não tinha as raízes asiáticas que adotou recentemente. No fim da tarde, era a hora de passar no Segafredo (Malostranské Namesti), uma filial da marca italiana de cafés, para um bom expresso, um cappuccino, um chocolate quente e umas calorias extras. Aprendi a cortar caminho, descobri cantos que não estão nos mapas, me perdi por ruas secundárias. Mas o que eu mais gostava era de acordar aos pés da Colina de Petrín, coberta de vinhedos e jardins desde o século 12 e a apenas duas quadras do Vltava, junto com outros tantos moradores comuns daquela cidade enigmática.
A localização era algo que eu tinha em mente antes mesmo de começar a buscar um apê ali. Tinha de ser em Praga 1, a região mais central, onde eu pudesse fazer tudo a pé e com a maior segurança. Foi assim que cheguei à Rent & Go (Lesnicka, 7, 420/224-323-734, rentego.com; Cc: M, V), uma empresa especializada em alugar imóveis para curtas temporadas que tem no portfólio 34 apartamentos que acomodam de duas a nove pessoas, todos no centro da cidade. Os preços começam em 52 euros por dia, um valor bem menor que uma diária de hotel. Quanto mais gente, mais barato fica. Um quatro-quartos para até nove pessoas custa desde 139 euros. Logo de cara, foi tudo muito simples e fácil. Fiz a reserva no site e, na seqüência, recebi um e-mail de confirmação. Assim que efetuei o pagamento, um guia de Praga apareceu inesperadamente na minha caixa de e-mails com informações que iam desde a voltagem até telefones de centrais de táxi e dicas práticas de como ir do aeroporto ao centro, o que levar ou como fazer ligações telefônicas. No fim, um número de celular para emergências. Uma semana antes da viagem, recebi uma cópia das chaves pelo correio com os códigos das portas do prédio. Nunca encontrei ninguém, nem no começo nem no fim - à saída, coloquei as chaves no envelope selado que estava dentro do apê e joguei numa caixa de correio, exatamente como me orientaram.
Se eu não tinha bufê de café-da-manhã me esperando todos os dias ou recepção 24 horas, por outro lado havia a liberdade de preparar uma comidinha na hora em que eu bem entendesse, armários enormes para pendurar todas as minhas roupas, um aparelho de som para ouvir meu repertório preferido. Café tarde da noite? Sem drama. Outra vantagem de alugar uma casa é que você acaba ficando geralmente mais do que imaginava no lugar. Eu passei uma semana em Praga. Tempo para curtir tardes preguiçosas na ilhota de Strelecky, lendo num dos banquinhos de frente para o centro histórico. Tempo para prestar atenção às bandas de jazz que tocam no meio da rua, para assistir mil vezes aos desfiles dos bonecos do relógio astronômico, para ver o skyline da cidade de dia, de noite, de madrugada e sob a névoa espessa no comecinho da manhã.
Deu para decorar os caminhos labirínticos de Staré Mesto, assistir a um concerto-surpresa de trompete na varanda da Obecní Dum, ou Casa do Município (Staromestske Namesti, 1, 420/224-482-909), subir no alto da vizinha torre da prefeitura para ter uma das melhores vistas da cidade, percorrer toda a região de Josefov, o bairro judeu. Em Nové Mesto, era uma delícia andar com calma pela Narodní, uma rua em que o bulício é interminável, e passar horas escarafunchando o acervo da lojinha do Museu do Comunismo (Na Prikope, 10, 420/224-212-966, muzeumkomunismu.cz; CZK 180). As Casas Cubistas, únicas em Praga, e o famoso edifício Rasin (Rasínovo Nábrezi/Resslova), uma das muitas extravagâncias do arquiteto canadense Frank O. Gehry (do Guggenheim de Bilbao), ao lado do modernoso Laterna Magika, parte do Narodní Divadlo, ou Teatro Nacional (Narodní Trída, 4, 420/224-931-482, laterna.cz), brotavam surrealistas na paisagem de tons pastel.
Entre uma atração e outra, era hora de descobrir as delícias locais. Comer um suculento václavska klobása vrohlíku (um cachorro-quente feito de lingüiça bratwurst e servido em pão francês fresquinho com um molho cremoso de mostarda) numa das carrocinhas da Praça Venceslau, ao lado de executivos engravatados e pedreiros. Provar o goulash do U Dvou Kocek (Uhelny trh, 10, 420/224-221-692). E voltar muitas vezes ao Klub Architektu (Betlémske Namestí, 169, 420/224-401-214; Cc: A, M, V), um restaurante moderninho que funciona entre as grossas paredes de pedra das antigas caves de uma capela do século 12. No menu, cordeiro com frutos vermelhos, frango com maçã ácida, risoto de cogumelos. À noite os bares de jazz se transformavam no reduto da boemia e as caves seculares da cidade abafavam poderosos saxofones que não se calavam antes das 2 ou 3 da madrugada. Depois? Depois sempre tinha a Ponte Carlos na volta pra casa...
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