A cidade é descomplicada: os pontos de interesse se concentram ao largo de uma avenida de quase 30 quilômetros, que troca de nome ao se aproximar dos Andes. De início é a Alameda, onde estão os prédios históricos; depois, as avenidas Providencia, Las Condes e Vitacura, região de compras caras e badalação. O viajante que começa sua visita por Las Condes, na zona leste de Santiago, pode ter uns lampejos de Xangai. Torres de vidro, helipontos, titânio, aço escovado, tudo ali dá um toque "América Latina? Me poupe", que a capital chilena exala desde o começo dos anos 1990, quando abriu braços e pernas ao capital estrangeiro. Prevista para junho, a inauguração do primeiro hotel W da América do Sul, a bandeira de "luxo descolado" da Starwood (rede dos hotéis Sheraton e Meridien), fala algo sobre a região. A grana que circula no Chile, um país exportador de commodities - cobre, basicamente -, atropela antigos vagares da sociedade. A Lei do Divórcio, promulgada nesta década, já vai ficando para trás, e na cadeira do velho general agora está uma mulher que sofreu nos porões. Se pelas ruas crianças e adolescentes ainda usam uniforme de normalista, nas festinhas de fim de semana simulam os movimentos sexuais do perreo, uma dança que faz do funk carioca ritmo de noviças. Historinha pessoal: em minha primeira visita a Santiago, em 1994, não consegui fechar uma única refeição com um reles café expresso. Vinham à mesa uma lata de café solúvel e uma garrafa térmica. Hoje Santiago é um playground da Starbucks. Se a evolução de uma cidade pode ser medida pela sofisticação de seu consumo de café, Santiago chegou lá rápido. A seguir, instantâneos da capital do Chile.
Centro vapt-vupt. Na região central da cidade está o Palacio de La Moneda, onde Salvador Allende, o presidente socialista do país, se suicidou no 11 de setembro (de 1973) local, e onde há agora um interessante centro cultural no subsolo. O palácio presidencial abre alguns salões à visitação, e a troca de guarda, que tinha tudo para ser o negócio mais tedioso do mundo, é curiosa. A banda executa um repertório pouco marcial, com direito até a Gracias a la Vida, de Violeta Parra, hino da esquerda sul-americana. A catedral, na Plaza de Armas, não desperta grandes emoções, exceto aos que não dispensam a foto com aquele pendant clássico da igreja antiga e o novo edifício comercial espelhado atrás. Há calçadões e nas galerias adjacentes à Plaza de Armas proliferam cafés con piernas, onde seu expresso é servido por garotas de minissaia. Há também os "con piernas" pesados, de ambientes escuros, em que as atendentes usam biquínis fosforescentes. Como Flor, uma colombiana de dez costados, com quem travei o seguinte diálogo:
- Cuál es su nombre?
- Flor.
- ¡Flor! Y cuál es su flor preferida, Flor?
- La flor carnívora.
Vá ao museu (não, isso não é obrigação). Quantas vezes você teve de mentir que, sim, adorou o Louvre ou que, claro, viu a Pedra da Rosetta (quando passou bem longe do British Museum)? Bem, em Santiago não há museus "obrigatórios". O melhor deles é o Chileno de Arte Precolombino, que tem duas pequenas múmias do povo chinchorro, que viveu há 7 mil anos no norte do Chile - as múmias egípcias são 2 500 anos mais novas -, cerâmicas e painéis didáticos. Com boa vontade, o Museu de Artes Visuais (Mavi) e a Plaza Mulato Gil de Castro, onde ele está, têm um sabor do entorno do Reina Sofia, em Madri. E o Parque de lãs Esculturas, com 30 peças contemporâneas ao ar livre, entre árvores, é muito agradável para a sesta.
Comer, comer. A "cena" gastronômica de Santiago se beneficia das incríveis qualidade e variedade dos peixes, mariscos e crustáceos do Pacífico. Nem o pior cozinheiro é capaz de tirar a maciez de um loco, o molusco muito carnudo que só existe na costa chilena e peruana (e, se isso acontecer, você já estará anestesiado pelos deliciosos pisco sours e pelos tintos da refeição). E não é nada difícil encontrar um bom ceviche (o peixe cru peruano), cortesia de emigrados quando Lima ainda não era "emergente". Um lugar inevitável para os gastrônomos é o alquebrado Mercado Central, onde se podem comprar (e comer) piroroco, macha, loco e o horrendo piure. Quanto mais estranha a aparência, melhor. Mas evite o ensopado de ouriço, que sabe a amoníaco. À noite, é na Bellavista que Santiago sai para jantar. Alguns salões de restaurantes do bairro, como o badalado El Toro, ficam nas calçadas, como que em gazebos, enquanto a cozinha e as demais partes das casas estão do outro lado, à vista dos passantes. Se a sua onda for a cozinha dita tecnoemocional, o Sukalde, do mexicano Matías Palomo, vale a visita. O chef trabalhou no espanhol El Bulli, de Ferran Adrià, onde aprendeu as técnicas de ilusionismo que usa em seus pratos. Seu "ovo frito" leva na verdade iogurte, aranja e gelatinas. Mas é um Copperfield de araque, o Palomo. Se perguntado, entrega a receita.
Mondovino. Aí é covardia. Se você tem 40 anos ou mais e já crê, sinceramente, que vinho é a melhor coisa do mundo, eis a cidade para estar no continente. O Chile, que na opinião do sommelier Manoel Beato, do restaurante Fasano, "produz bons vinhos desde a década de 70, uns bons 20 anos antes da Argentina" faz ótimos cabernet sauvignon e assemblages. Na hora de comprar, La Vinoteca e El Mundo del Vino são redes com lojas amplas e variedade de rótulos. Mas é a El Cielo, no centro, que tem preços imbatíveis. Leve cash.
Shoppinglândia. Ao Chile coube a primazia no continente na liberdade tarifária para produtos importados. Enquanto os vizinhos estatizavam, o Chile privatizava e recebia alegremente eletrônicos made in Japan (e telefonia americana, bancos hechos en España etc.). Na onda, surgiram shoppings gigantes, como o Parque Arauco, além das ruas de luxo, como a Alonso de Córdova, onde os preços das grifes Blueberry e Louis Vuitton soam como música para os brasileiros do quanto-mais-caro-melhor. Já os brasileiros que preferem ofertas vão adorar as liquidações de inverno. Roupas infantis próprias para as alturas dos Andes saem a preço de banana nos grandes magazines Falabella, Ripley e Almacenes Paris. Melhores ainda são os preços da Calle Patronato, em lojas como a System (no número 136) e a KPT (no 250).
Refúgios verdes. Você sai de uma metrópole populosa, de trânsito insano, e decide ficar num lugar poluído (Santiago está entre duas cordilheiras, o que dificulta a dispersão dos poluentes) com o trânsito de que queria distância. Mas a capital chilena tem refúgios verdes como o Cerro San Cristobal, com o melhor mirante da cidade. Se você estiver por ali num domingo, consiga uma bicicleta e siga a legião subindo o morro. É possível ir também de funicular e teleférico. Programa para o dia inteiro: lá está ainda o Jardim Botânico, com as 80 espécies nativas do país, e sessões de ioga e pilates gratuitas, aos domingos, pela manhã. Muito mais discreto, o Cerro Santa Lucia é o sítio de fundação da cidade, de 1541. Há escadas, balaustradas e esculturas com toques neoclássicos. A subida leva uns 20 minutos. Como o piso é muito liso, fecha quando chove. Já o Parque Forestal, às margens do Rio Mapocho, é um longo e estreito bulevar, ótimo para pedalar. Aos domingos, fica divertido, quando é invadido por tribos de emos e pokemons que dão um toque de Tóquio à cidade.
O Neruda que você nunca leu e mais lugares fofos. As mulheres saem tocadas de La Chascona, uma das casas do poeta Pablo Neruda (1904-1973) mantidas hoje como museus (outras estão em Valparaíso). Projetada pelo próprio Neruda, Nobel de Literatura em 1971, assemelha-se a um navio. O toque "sensível" são as marcas de amor entre o poeta e Matilde Urrutia, dita La Chascona ("A Descabelada"), sua terceira mulher: fotos, iniciais dos dois em vários ambientes e frases como esta, cravada na porta: "Matilde mia, bienamada, no quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires: yo cambio la primavera porque tu me sigas mirando". O guia Gonzalo Iturra mostra a mensagem com uma devoção quase filial. "Neruda era un tipo bonachão, tranquilo, boêmio, gostava da vida e de um uísque", diz. "Não tinha nada de sisudo." Sem arroubos de lirismo em suas paredes mas deliciosamente aristocrático, o Palácio Cousiño, perto da Alameda, é um lugar que, como no Museu Imperial, em Petrópolis, é preciso calçar chinelos de feltro para entrar. Afinal, o piso de cerâmica italiana, pintado a mão, é delicado. O palácio, cuja construção começou em 1871, pertenceu à família Cousiño, dona de uma das vinícolas mais famosas do Chile, mas que enriqueceu com as minas de carvão. Todo o mobiliário é europeu, e o lustre do hall central, de 500 quilos, impactante. Mais algumas quadras e chega-se a uma praça alongada que, como o Peixoto, em Copacabana, tem status de bairro. É o charmoso Concha y Toro, com suas ruas de paralelepípedo e seu conjunto de sobrados neoclássicos. Aproveite e fique pelo Zully, o restaurante mais romântico da cidade. O trademark local é a escadaria de mármore branco pontilhada de pétalas de rosa. Nas noites quentes, o terraço à luz de velas com vista para a praça é matador.
Doidas baladas. Santiago tem uma noite forte, a melhor parte dela vivida em casas inusitadas. Como o Boulevard Lavaud, que divide os trabalhos com a Peluquería Francesa, uma barbearia na ativa desde 1868. O bar espalha suas mesas entre pias de lavar a cabeça e secadores gigantes.
O economista brasileiro Thales de Freitas é entusiasta. "Sempre levo meus amigos do Brasil." A cidade também gosta de esconder suas melhores baladas em imóveis sem identificação. Como o Ky, um casarão cheio de ambientes - de um salão para jantar ouvindo mazurcas a uma pista com um soldado de chumbo de 3 metros entre palmeiras. A dolorosa chega numa charmosa arquinha de marchetaria. Ao sair, lá pelas 3 da madrugada, a outra casa sem identificação a procurar é a La Feria, disco eletrônica com DJs gringos e esferas que flutuam estranhamente no ar. Qualquer explicação para o fenômeno a essa hora é convincente.
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