Os dias longos são a marca principal do verão finlandês. Depois de um entardecer que se estende até quase 11 horas da noite, os dias amanhecem por volta das 3 da madrugada, o que causa muita confuso no metabolismo de quem não está acostumado. Ter uma cortina black-out na janela ou um tapa-olhos debaixo do travesseiro é fundamental. O inverno é rigoroso e sombrio, um período em que as temperaturas ficam abaixo de zero por vários meses e a noite engole o dia. A chegada dos dias quentes e das noites frescas é motivo de muita comemoração. Na Praia de Hietaniemi (isso mesmo, Helsinque tem praia!), os jovens se reúnem para jogar vôlei ou fazer festas que atravessam o dia e a noite.
A Grande Helsinque, que engloba outras duas outras cidades, tem cerca de 1 milhão de moradores. Mas a impressão é que há algumas dezenas. Não existem aglomerações nem congestionamentos, e a vida parece fluir sem obstáculos. É fácil andar por Helsinque desde que você tenha um bom mapa à mão e não esteja sofrendo os efeitos de quem trocou o dia pela noite. As ruas acompanham o relevo suave e o desenho recortado da beira-mar. Elas são um paraíso para ciclistas, skatistas e patinadores, que zunem pelas faixas especialmente destinadas a eles nas calçadas. São pessoas de todas as idades a caminho da escola ou do trabalho, vestidas de short ou paletó, com mochilas nas costas. Numa cidade de transporte público impecável, servida por ônibus, bondes, trens, barcos e metrôs sempre limpinhos e cheirosos, os finlandeses gostam de caminhar. A beleza nórdica chama atenção. Um exemplo: a atriz Pamela Anderson de Baywatch e recordista de capas da Playboy americana, embora nascida no Canadá, tem raízes na Finlândia, de onde seus avós partiram. Nos últimos anos, Pamela tem sido vista com frequência em Helsinque, para onde afirma que pretende se mudar. Reservei do Brasil um quarto no Hostel Academica porque fica próximo da estação ferroviária e o preço estava excepcionalmente em conta. Quando eu atravessava o pátio com minhas malas, espantei-me com uma pequena multidão de moços e moças vestidos de macacão laranja. As moças, todas loiras, pareciam paquitas. Eu tinha certeza de que eram modelos reunidos ali para algum trabalho fotográfico ou evento. Só quando me instalei é que entendi que a ala onde eu ficaria estava em reformas e eles eram operários. Daí o preço tão baixo do meu quarto.
Embora o sueco seja falado por uma minoria, é o duro finlandês que se ouve nas ruas. Uma expressão simples como "eu te amo" transforma-se em "minä rakastan sinua". Além de Nokia - o nome da pequena cidade onde a multinacional começou suas operações -, a outra palavra finlandesa que ganhou o mundo é sauna, mania nacional. Para conhecer o arrojado design dos finlandeses, faça uma visita ao Design District, um bairro inteiro tomado por escritórios de arquitetura, ateliês de artistas, agências de publicidade e dezenas de lojas de móveis, utensílios domésticos e joias, além de galerias de arte e de antiguidades. Ali se encontram cadeiras, tecidos e cristais desenhados por Alvar Aalto, o mais célebre dos designers finlandeses, responsável também pelo projeto arquitetônico de alguns dos prédios mais arrojados de Helsinque, como o Finlandia Hall. Mesmo que não dê a mínima para isso, visite a livraria Akateeminen Kirjakauppa, criada por Aalto, dentro do Museu do Design. O must é sentar-se por uma meia-hora no seu charmoso café interno (cujo nome, claro, é Cafe Aalto) para saborear o melhor cappuccino de Helsinque. Ainda na lista dos melhores e imperdíveis, suba por volta das 7 da noite (apenas modo de dizer, pois o dia ainda vai estar bem claro...) à cobertura do antigo Hotel Torni. Lá no topo funciona o pequeno e aconchegante Ateljee Bar, um lugar ótimo para fotografar a vista e tomar um drinque (o mais famoso, mentolado, chama-se, adivinhe... Aalto!). Não perca a experiência de ir ao banheiro, como melhor visual do skyline.
O porto é o coração da capital. Imenso, em forma de canal e repleto de docas e armazéns, abriga dezenas de navios ao mesmo tempo, inclusive cargueiros e gigantescos transoceânicos pintados de vermelho. Ao porto se dirigem todos os bondes circulares que conectam o centro aos bairros. Também é dali - mais precisamente da longa praça entre as alamedas Pohjoisesplanadi e Eteläesplanadi- que saem os ônibus turísticos, as charretes e até os triciclos-táxis movidos a pedaladas. No verão, um palco a céu aberto recebe no horário de almoço ou no fim de tarde algum tipo de evento cultural. Mágicos, saltimbancos e malabaristas se misturam aos turistas que se juntam, durante a happy hour, para beber cerveja nos bares ao redor. No amplo espaço aberto diante do Báltico também acontece, todo dia, uma animada feira. As barracas vendem desde arenque fresco, descarregado ali pelos barcos pesqueiros, até frutas, legumes e refeições típicas, que podem ser comidas lá mesmo em mesas coletivas montadas sobre cavaletes de madeira. É o melhor lugar para experimentar a verdadeira culinária local (vai uma almôndega de carne de rena?). Oili Salastro, uma das vendedoras mais animadas, conta que passa três meses do ano, durante o inverno, tricotando suas peças para vendê-las aos turistas no verão. "Quando minhas mãos se cansam, alugo uma casa no sul da Espanha e viajo para pegar um pouco de sol e praia", diz.
Um ferry boat sai a cada 20 minutos em direção à ilha-fortaleza de Suomenlinna. São uns 40 minutos de travessia agradável pelos canais até o arquipélago. Construído pelos suecos em 1748, esse bastião manteve a Finlândia longe das mãos dos russos durante os 60 anos de disputa entre os dois países. Ela acabou por ser conquistada pelos russos em 1808, no calor das guerras napoleônicas, e foi dominada por Moscou até que a revolução bolchevique de 1917 fez desmoronar o império do czar. O livro Rumo à Estação Finlândia, do jornalista Edmund Wilson, conta esse período turbulento da história da Europa. Suomenlinna é hoje uma espécie de vilarejo temático. Dá para passar um dia inteiro ali, caminhando pelos campos ajardinados, percorrendo as muralhas cercadas por canhões, visitando museus, cafés e restaurantes que lembram a história da independência do país. Outro passeio inesquecível leva até Porvoo. Segunda mais antiga cidade finlandesa, ela é feita de madeira e tem ruas calçadas de pedra. Cheia de histórias de incêndios, disputas medievais e casas assombradas, é hoje habitada por artistas plásticos e escritores. Restaurantes, cafés, galerias e museus garantem distração para um dia inteiro. Mas não volte no barco que o trouxe. Prefira ficar mais tempo na cidade e tomar o ônibus que sai a cada meia hora da pracinha central de Porvoo.
Talvez apenas depois de três ou quatro dias você se sinta confortável para experimentar uma verdadeira sauna. Há cerca de 2 milhões delas para uma população de 5 milhões. Ou seja, uma para cada moradia, além das públicas. As tradicionais são a vapor. A temperatura ideal, para os finlandeses, fica entre 80 e 100 graus (dificilmente você suportará os 700C). Depois de alguns minutos na quentura, deve-se mergulhar numa piscina a zero grau. No campo, os finlandeses rolam nus na neve fofa. Outros molham ramos de vidoeiro, uma árvore típica, e se autoflagelam gentilmente para estimular a circulação. Em algumas saunas, há mulheres especializadas em ensaboar e enxaguar os clientes - tudo perfeitamente inocente, acredite! Na verdade, é bem difícil juntar tanta tradição e civilidade às imagens de Pamela Anderson correndo na praia em Baywatch. Só mesmo depois de muita vodca a coisa começa a fazer sentido.
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