No coração da mais conturbada região do mundo - na fronteira com Iraque, à esquerda, Afeganistão, Paquistão e Turcomenistão, à direita, e Turquia, ao norte -, o Irã foi, no passado, berço de uma das mais importantes civilizações: o Império Persa. Os 2 500 anos de história estão preservados na arquitetura, nos costumes, no farsi (idioma indo-europeu falado pelos persas), na literatura e na gastronomia. E em oito patrimônios da humanidade, como Persépolis, onde estão as ruínas da antiga capital da Pérsia. São riquezas ainda pouco conhecidas pela maioria dos ocidentais graças a uma controversa política externa que praticamente isolou o Irã da rota do turismo internacional. Internamente, no entanto, o clima é tranquilo para os turistas. Quase não existe criminalidade, e os basidjs, a polícia da moral, raramente importunam os estrangeiros, desde que sigam algumas regras de conduta.
AOS PÉS DE ALBORZ
Nas ruas, a primeira coisa que chama atenção são as placas e os sinais de trânsito em inglês. No entanto, poucos falam o idioma, exceto nos restaurantes caros e nos hotéis - por isso, antes de sair, peça na recepção que escrevam em farsi os endereços e as direções. É meio da manhã, e o calor bate em 38ºC. O sol forte se refl ete nos picos ainda brancos da imponente Cordilheira de Alborz, que ladeia o Mar Cáspio do Azerbaijão ao Turcomenistão e faz Teerã parecer pequena a seus pés - Darmavand, a montanha mais alta, tem 5 671 metros e neve quase o ano todo. O horizonte bucólico contrasta com prédios modernos, vias largas e bem asfaltadas, trânsito caótico, poluição. São sinais da metrópole de 14 milhões de habitantes. Mais de 70% da população tem até 29 anos - nascida depois da revolução islâmica, a nova geração pouco se identifica com o regime dos aiatolás, que estabeleceram a teocracia no país, em que a sharia (lei islâmica) substituiu a Constituição e o Código Civil e passou a reger o cotidiano de quem vive no Irã.
É nas montanhas de Alborz que esses jovens encontram diversão. No inverno, lotam as pistas de esqui. A disputada Dizin é um dos 50 pontos mais altos do mundo para o esporte, 3 500 metros acima do nível do mar. Já Darband reúne as mais badaladas chaykhuneh (casas de chá) - a palavra mais ouvida durante a viagem, aliás, sempre seguida de um ponto de interrogação para o qual não se aceita negativa, é o familiar "Chay?" ("Vai um chazinho aí?"), servido quente em qualquer lugar em que se entre. Como bebidas alcoólicas são proibidas, os jovens de Teerã se reúnem em torno do guelium, o cachimbo d'água, mais conhecido no Brasil como narguilé, em diferentes sabores - o de maçã é preferência nacional. Na maioria das casas não há mesa ou cadeira, mas lounges decorados com cobiçados tapetes persas sobre pedras e coloridas almofadas. Nos restaurantes de comida regional, nos jardins do Parque Jamshidiyeh, ainda aos pés de Alborz, a comida também é servida sobre os tapetes e todo mundo se senta no chão, ao redor de diferentes tipos de kebab. O mais tradicional é o de carneiro, que não chega a ser novidade para o paladar ocidental e, por isso, um tanto sem graça. Para os turistas dispostos ao risco, a culinária persa pode surpreender. Está em algum ponto entre as cozinhas árabe e indiana. Um exemplo: frango shirin, temperado com especiarias levemente apimentadas e servido com arroz adocicado, misturado a pedacinhos de pistache e lascas de casca de laranja. Para beber, suco de romã, fruta que simboliza amor e fertilidade.
O clima de montanha, a decoração típica das casas, o aroma dos chás, a simpatia dos mercadores, a fumaça do guelium, a música cantada em farsi, o colorido dos véus... É fácil se imaginar dentro do cenário de um dos contos de Sherazade, a personagem central do clássico Livro das Mil e Uma Noites. A literatura é motivo de orgulho no Irã, principalmente a poesia, declamada pelos jovens nas rodas de bar. A escrita é uma forma de transgressão - o farsi é o 28o idioma mais falado no mundo, mas chega a ser o segundo da blogosfera, ao lado do francês. Escritores, jornalistas, artistas, amantes da literatura e do cinema se reúnem nas várias cafeterias de Teerã, como o Café 78, administrado por uma simpática armênia cristã, e o Café Ketab, cujo nome significa "Café do Livro" e que fica na sobreloja da livraria Cheshmeh. São bons lugares para encontrar iranianos com quem conversar, em inglês ou espanhol, num clima bem informal.
Longe dos olhares dos basidgis, as garotas se permitem deixar o véu caído, mostrando parte das madeixas, e segurar um cigarro entre os dedos com unhas bem pintadas - não é proibido fumar nos bares. Já as unhas... Na rua do Shopping Tandis, na subida para Darband, presenciei uma jovem ser levada pelos policiais por excesso de maquiagem, salto alto e unhas vermelhas, o que os conservadores chamam de "visual anti-islâmico". Na delegacia, os pais são chamados e assinam um termo pela "má conduta" da menina.
Como o regime iraniano impõe restrições - roupas justas, músicas ocidentais e paquera estão proibidos a ambos os sexos -, grande parte da vida social acontece dentro de casa. Isso faz com que a vida noturna iraniana não seja das mais animadas do mundo para os turistas. Exceto pelos restaurantes e pelas casas de chá, não há muito a fazer. Festas privadas são divulgadas somente no boca-a-boca para não chamar atenção de guardas e vizinhos. Se tiver tempo de fazer amigos locais e sorte de ser convidado para uma delas, não perca. Imagine aqueles inocentes bailinhos que aconteciam na sala de casa, com os móveis arrastados. O MP3 player toca de tudo, de rap a rock iranianos produzidos no exterior e trazidos na bagagem de amigos estrangeiros ou baixados da internet - apesar de o governo tentar bloquear sites em inglês. Bebidas alcoólicas são contrabandeadas e há como comprar cerveja e vinho de cristãos armênios, com entrega na porta de casa (numa sociedade em que quase tudo ocorre entre quatro paredes, o delivery é um dos serviços mais eficientes). Portas e janelas fechadas, as mulheres se sentem à vontade para deixar de lado o manto e o véu, pendurados à entrada. Nas festas entre amigos e familiares, elas usam vestidos, minissaias e decotes.
"As iranianas são muito sofisticadas", diz o vendedor de roupas Amir Salah, com loja no Shopping Safavieh, onde as vitrines exibem marcas como Gucci, Versace, Dolce & Gabbana. Fica no bairro de Valiasr, uma das áreas mais nobres de Teerã e onde os jovens se conhecem no sobe-e-desce da Rua Jordan. Para evitar a polícia, eles passam a pé ou de carro trocando números de telefone e seguem a conversa por mensagens via celular, mesmo a poucos metros de distância. As iranianas frequentam academias, tomam sol de biquíni nas piscinas públicas de Teerã e banho de mar nas lindas praias do Golfo Pérsico, mas jamais com alguém do sexo oposto. São locais segregados, assim como o refeitório das empresas e de algumas universidades. Beijos em público, nem pensar, mesmo se casados. Os muitos parques, como o Park-e Mellat, também em Valiasr, são o refúgio preferido. Os jardins iranianos são herança da antiga Pérsia, desenhados como pequenas porções do paraíso (palavra que, em farsi, quer dizer "jardim entre muros"). Sua arquitetura foi extensamente copiada e chegou à Índia - o Taj Mahal é um exemplar de jardim persa. Os Jardins Suspensos da Babilônia foram construídos por Nabucodonosor para agradar sua mulher, Amitis, que era persa. Os jardins da Pérsia, sempre monumentais, misturam bosques, canteiros de flores, fontes, lagos e imensos gramados. Lotam nos fins de tarde de quartafeira, véspera do fim de semana. Sim, sábado e domingo para os iranianos são quinta e sexta-feira, dias de descanso e oração, respectivamente.
A CAMINHO DA ANTIGA PÉRSIA
A rota mais visitada no Irã é entre Teerã e Persépolis. São 640 quilômetros, passando por Qom e Isfahan. Qom, 155 quilômetros ao sul de Teerã, primeiro ponto de parada, é considerada uma cidade sagrada e centro da teologia xiita, com suas mais de 200 madrassas (escolas religiosas) e a maior concentração de mulás (clérigos do Islã e líderes das mesquitas) do mundo. Dizem que entre seus muros foi orquestrada a revolução islâmica. Mulheres, só de chador! Destruída depois de duas invasões, a cidade foi reconstruída pelos safavids (dinastia que dominou o Irã no século 16), que instituíram a fé xiita como religião ofi cial do Irã. As principais atrações são o Santuário de Hazrat-e Masumeh, o impressionante complexo de palácios e mesquitas construído pela dinastia Safavid, e o Museu do Santuário Sagrado, na Praça Astaneh. Não é necessário, porém, mais que uma tarde para conhecer tudo e experimentar o sohan, um biscoito doce e quebradiço feito de pistache e açafrão.
A parada seguinte é em Isfahan, 250 quilômetros adiante, um museu da arquitetura islâmica a céu aberto. Vale passar pelo menos dois dias na cidade. No coração dela está a Praça Imam, de 1593, cercada por imponentes mesquitas. Jameh é a maior do Irã, construída no local onde havia no século 11 um templo zoroastrista - a religião monoteísta que surgiu no Irã e influenciou o judaísmo, o cristianismo e o próprio Islã. O melhor passeio é às margens do Rio Zayandeh, cortado por 11 pontes de pedra. Em Isfahan está também o velho Bazar-e Bozorg. Tem artigos autênticos, como os frascos feitos com osso de camelo para armazenar rímel natural, uma mistura de óleo e farelo de pedras pretas. É a maquiagem usada pelas iranianas desde os tempos da Pérsia. O palito finíssimo, para não errar o traço no contorno dos olhos, também é feito de osso de camelo. Entre maravilhosos vasos que reproduzem os mosaicos de verde, azul e vermelho, presentes na arquitetura, há ainda jogos de chá de vidro trabalhado, luminárias douradas e, claro, os tradicionais tapetes iranianos. Peça para dar uma olhadinha. Mas, se não tiver intenção de comprar, limite-se às vitrines. Os comerciantesiranianos, pouco acostumados aos euros dos turistas, ganham dos turcos na insistência. Um dos luminosos avisa: "Tapetes voadores".
Persépolis representa o ponto alto da história iraniana. Suas ruínas são os últimos vestígios do Império Persa, que dominou todo o Oriente Médio a partir de 552 a.C. Escadarias, imensas colunas e imponentes portais ficaram soterrados até ser descobertos, em 1930. À entrada, os visitantes atravessam o Portal de Todas as Nações, construído por Xerxes e onde está escrito: "Eu sou Xerxes, o Grande Rei, o Rei dos Reis, o Rei dessas terras onde muitos idiomas são falados; o Rei dessa vasta terra, longe e próxima, o filho do Rei Dario, o Aquemênida". Ali estão os restos do Palácio das 100 Colunas, onde o rei recebia os convidados mais importantes. Em seus tempos áureos, o complexo de palácios sobre o Monte Rahmat chegou a ocupar 125 mil metros quadrados. Os festejos de Ano-Novo, então comemorado em março, reuniam gente de todas as partes do império que vinha pagar tributo. Naquele que servia como harém de Xerxes funciona, hoje, o Museu Haremsara (o ingresso custa 30 000 rials, a moeda iraniana), que exibe uma série de artefatos da época.
A maneira mais indicada para aproveitar a região como se deve é ficar em Shiraz, a 70 quilômetros. Ali você pode contratar excursões de um dia inteiro. Elas podem ser com ou sem guia - em inglês, alemão, francês, italiano, japonês e, mais raro, espanhol - e saem de quase todos os hotéis da cidade. Durante o verão, sempre às 20h30, aconteceum show de sons e luzes entre as ruínas de Persépolis. É o momento em que a Pérsia encontra o Irã - um país complexo, orgulhoso de seu passado e com um futuro tão incerto pela frente.
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