A coceira começou a me deixar maluca! Olhei Rodolfo bem nos olhos. A bolota havia criado uma perninha que parecia um caminho. "Ah, seu semvergonha, você é um bicho-geográfico! Como era mesmo o nome daquela pomada? Thiabena! Isso!"
Com certeza não havia Thiabena na Indonésia, mas explicando os sintomas ao médico...
Minha filha, isto aqui é herpes!
Como assim, herpes? Nas costas?!? Mas, moço, não dói! Só coça. E soltou uma perninha, olha aí. Não é aquele bicho que sai do cachorro...
Não, querida, o cachorro não tem nada a ver com isso. Você está com herpes nas costas.
Três dias de pomada para herpes mais tarde,Rodolfo ganhou mais um irmãozinho, que nasceu na outra extremidade do tal caminhozinho. ÓBVIO QUE ERA BICHO-GEOGRÁFICO. Só aquele médico de porta de farmácia não via!
Então resolvi fazer um ensaio fotográfico dele, que foi enviado para meu querido tio Edu, médico respeitadíssimo no interior de Minas. Batata! Rodolfo era uma larva migrans que, ao não conseguir penetrar nas camadas mais profundas da epiderme, como faz no cachorro, fica vagando pelo corpo humano e provocando uma coceira insuportável.
Rodolfo voou comigo para Cingapura. E, de lá, para Paris. Finalmente aterrissou em Barcelona, onde comemorou 3 meses de vida. Do outro lado do mundo, as notícias sobre Rodolfo chegaram a Caxias do Sul (RS). De lá, meu sogro Ivan, solidário com meu sofrimento, enviou pelo correio duas caixinhas de Thiabena.
A essa altura, Rodolfo e eu éramos amigos íntimos. Tínhamos compartilhado grandes momentos. Mas a convivência estava cada vez mais turbulenta. Ele manchava minhas roupas. E eu me vingava deixando a unha crescer para atacá-lo.
Foi então que aquela caixinha amarela do Sedex chegou até mim. Aleluia! Espalhei Thiabena furiosamente nas costas. E em junho de 2008, aos 4 meses de vida, Rodolfo morreu.
Dica antirroubada: Inclua Thiabena na sua farmacinha básica. Ou algum primo distante de Rodolfo pegará carona com você.
Show de pompoarismo e sexo ao vivo: eu fui
O tuk tuk estacionou num lugar altamente sinistro. Ué? Cadê todo mundo? Aparentemente eu estava numa rua micada de Patpong, a lendária "zona da luz vermelha" de Bangcoc, que se converteu em atração turística tão obrigatória quanto as barraquinhas com insetos comestíveis. Uma vez no inferno, resolvi abraçar o diabo lá mesmo. "Você me espera aqui?", perguntei ao motorista tentando garantir minha fuga caso aquilo fosse um antro
de tarados.
O show prometia peripécias de pompoaristas e sexo ao vivo. No palco, uma menina dançava meio desengonçada com o mesmo ânimo de uma ascensorista apertando o botão do térreo pela octogésima nona vez no mesmo dia. E, de repente, com a mesma empolgação vegetal, começa a tirar uma fitinha colorida de... lá.
Mais uma pompoarista sobe ao palco. E outra...que não consegue acertar a bolinha de pinguepongue dentro do copinho e sai sob vaias e uivos. A seguinte chega confiante e pede a um voluntário da plateia que segure uma bexiga branca. Meu namorado se prontifica.
Então ela abre as pernas e lança de dentro de "si" um dardinho de papel que supostamente teria de fazer a bexiga estourar. Porém, a falta de mira ginecológica da menina faz com que "aquilo" vá parar no meu cabelo! Me desvencilho daquela "coisa" entre uma gargalhada histérica e a vontade de assassinar o cidadão segurador de bexigas.
Começa então o show de sexo ao vivo. Bem, não dava para reconhecer o termo sexo naquele vai-evem mecânico ao som de batidas eletrônicas e gritos histéricos da Madonna: "She's not meeee!".
Foi quando, de repente, segurando em algumas barras de ferro, o casal grudou no teto, continuando aquela coisa indefinida como um par de aranhas... ou lagartixas. Faço de tudo para não ter um ataque de riso e vou saindo de fininho. E constato que o danado do motorista tinha me abandonado naquele fim de mundo.
Dica antirroubada: Não tente dar uma de alternativo em Patpong. Nos shows turísticos, as "artistas" não costumam errar a mira.
Apertem os cintos, meu passaporte sumiu
Não é que naquele bar nos arredores da Khao San Road (o gueto gringo de Bangcoc), sentada de vestidinho indiano recém-adquirido, estava a Rachel Verano, que também é blogueira do Viajeaqui? A alegria do encontro foi tanta que acabei cometendo um erro grave. Vupt! Arranquei a pochete de documentos da cintura, coloquei-a dentro da bolsa e comecei a festa mais cedo do que devia.
Algumas doses de Sangsom (o demoníaco rum tailandês que certamente é muito mais apropriado para motoristas de jamanta do que para menininhas criadas pela avó) mais tarde, já de volta ao hotel, reparei que, além de um chinelo (!), faltava algo mais: minha bolsa, com meus passaportes, carteira de motorista, cartões de crédito, câmera fotográfica, certificado internacional de vacina contra febre amarela e alguns trocados.
Calma porque a coisa piora...
Pouquíssimas horas depois, sob os devastadores efeitos colaterais do Sangsom, comecei a peregrinação. Nenhum anjo havia devolvido meu passaporte na delegacia. Com a pororoca do Rio Amazonas dentro do estômago e o cérebro rodando dentro da cachola, eu me embrenhei no trânsito de Bangcoc sob um calor grudento e arrebatador em direção à embaixada brasileira.
Calma porque a coisa piora...
Fui prontamente atendida pelo pessoal da embaixada e tive a palavra do embaixador, simpaticíssimo, de que em caráter de urgência eu teria o meu passaporte novo em tempo de embarcar no voo para o Camboja, no dia seguinte. No entanto, o sistema do Itamaraty mostrava que havia um misterioso passaporte em meu nome com data posterior ao que eu tinha em mãos até então. E que, portanto, o passaporte perdido não era mais válido.
Calma porque a coisa piora...
Por causa do fuso horário em relação ao Brasil, seria impossível obter uma resposta definitiva do Itamaraty naquele dia. Eu perderia o voo. Vendo o desespero estampado no meu rosto, o ministro-conselheiro Matias Vilhena deu sua palavra de que faria das tripas coração para que o processo rolasse o mais rápido possível. Ainda assim, fui embora para o hotel com milhões de interrogações e incertezas na cabeça: e se meu passaporte tiver sido clonado? E se eu não conseguir provar que eu sou eu? E se ficar presa na Tailândia?
E como num passe de mágica...
Resolvi voltar pela terceira vez ao bar onde tudo havia acontecido, mesmo após duas respostas negativas do staff e sabendo que, no caos da Khao San Road, eu era apenas mais uma gringa bobalhona engrossando as estatísticas de roubos a turistas distraídos. E não é que, toda amassada, minha bolsa estava ali ao lado do caixa?!? Sim, uma boa alma (talvez um ladrão arrependido) tinha devolvido os pedaços de papel mais importantes da minha vida. Apenas a câmera não estava lá.
Dica antirroubada: Confie na sua embaixada. No dia seguinte, cedíssimo, a caminho do aeroporto, o dr. Matias avisou que a emissão de um novo passaporte havia sido autorizada e que eu poderia ir para lá imediatamente. Deu gosto de ser brasileira, viu?
O motorista psicopata e seu ursinho de pelúcia
De Ko Phi Phi, na Tailândia, o meu destino era Kota Bharu, no norte da Malásia. Eu estava em uma van que, teoricamente, me levaria a Sungai Kolok, na fronteira, onde pegaria um ônibus até o destino final. Ao senhor alemão que foi apanhado no meio do caminho restou só um lugar ao lado do motorista em que caberia com conforto apenas uma criancinha de 8 anos. Depois de espernear por alguns minutos, o cidadão se acalmou e resolveu aguentar espremido as cinco horas de viagem.
Poucos minutos depois, porém, o alemão começou a transferir a culpa de todos os seus males aos dois ursinhos de pelúcia (!) que o motorista usava como talismã em seu espelho retrovisor. "Estou tonto! Tira esse diabo de ursinho daqui!", gritava em surto tentando arrancar o enfeite de seu campo de visão. "Uóóóng chuiiinng koooin", gritava o motorista de volta, deferindo tapas na mão do agressor de seus ursinhos mimosos. "Você aceita um Valium?", sugeriu um passageiro inglês com o mais britânico dos sotaques, provocando gargalhadas histéricas no restante dos passageiros.
Mais adiante, eles passaram a trocar cotoveladas e, por várias vezes, alguns sopapos. Como vingança, o motorista passou a dirigir como um psicopata, fazendo ultrapassagens absurdas. E ao chegar a Hat Yai, a maior cidade da região, decretou o fim da viagem.
Não tínhamos a menor ideia de como chegar a Sungai Kolok (mesmo tendo comprado o tíquete até lá). Depois de alguns rolês pela cidade, voltamos ao motorista, que simplesmente "contratou" uma outra van por um quinto do que eu tinha pago.
Por volta das 9 da noite, nossa carroça velha parou em um lugar totalmente escuro e deserto: "Desçam. A fronteira é ali e fecha em dez minutos". Em pânico - a região é zona de confl ito com separatistas muçulmanos -, com uma mochila de 20 quilos e sem saber onde estávamos, meu namorado, uma inglesa ressacosa e eu batemos o recorde mundial dos 100 metros rasos até, a tempo, entrarmos na Malásia. Mas como chegar a Kota Bharu, a cerca de 50 quilômetros de lá, sem um tostão em ringgits, o dinheiro local? Por sorte (mais dele que nossa), um taxista de pijama se animou ao ver três loiros suados e apavorados. Chegamos a Kota Bharu às 11 da noite, 14 horas depois de deixar Ko Phi Phi.
Dica antirroubada: Para circular por destinos mais convencionais da Tailândia, compre um "tíquete combinado" em qualquer agência ou pousada. Só não confie neles se o trajeto envolver alguma fronteira.
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