Algo que não se define facilmente. Com suas paisagens espetaculares, seu povo, sua história de glória e miséria e sua personalidade, sintetiza a África do presente, a do passado e a do futuro. A visão dos assentamentos e das favelas, no caminho do aeroporto até lá, oferece um contraste enorme quando se chega à segunda maior metrópole sul-africana, atrás de Johannesburgo. A Table Mountain - como o nome indica, uma montanha em formato de mesa - é o cartão-postal imediato e o mais conhecido, um clichê universal, bastante parecido com outro que você conhece muito bem. Imagine um monte ao qual se chega em um bondinho, com uma baía lâ embaixo. Lembrou outro balneário, certo? Pois qualquer coincidência com o Pão de Açúcar é mera semelhança - apenas uma de várias com o Rio de Janeiro. Como o Rio, a Cidade do Cabo é bonita por natureza e possui aquele ligeiro ar easy-going das grandes cidades praianas.
Mas a africana tem um ar tão próprio e uma trajetória tão diferente da carioca que é bobagem fazer essa viagem em busca das similitudes entre uma e outra. A tensão racial dos anos de apartheid (o regime de segregação racial que lá existiu entre 1948 e 1990) perdura. A espetaculosa baía de Camps Bay, por exemplo, carrega até hoje resquícios de sua herança dramática. Nos anos de racismo, a areia era reservada à população branca e o trecho cheio de pedras, aos negros. Hoje, as praias numeradas de 1 a 4 de Clifton, uma escarpa chique e badalada, são repletas de jovens mochileiros lindos, leves, soltos e brancos, namorando, paquerando e fazendo topless ao lado da água gelada (19 graus é a média do ano).
A Table Mountain rivaliza, em matéria de sucesso, com o Victoria & Alfred Waterfront - que, segundo os órgãos de promoção oficiais, é a atração mais visitada de todo o continente, com 20 milhões de pessoas por ano. O complexo de restaurantes, shoppings, bares, centros culturais e condomínios de luxo fica na área das antigas docas, fundadas pelo príncipe Alfred, filho da rainha Vitória da Inglaterra, no século 19. Sucessivas restaurações, nas últimas três décadas, mantiveram o charme da arquitetura vitoriana. O redesenho da área valorizou monumentos antes ignorados, como a Torre do Relógio, erguida em 1882. Ali ficavam os escritórios do capitão do porto. No 2º andar da torre há uma sala de espelhos que permitia ao capitão ter visão completa de todas as atividades no cais. É do Waterfront que saem os passeios de barco para Robben Island, a ilha-presídio onde Nelson Mandela - advogado, presidente de 1994 a 1999, herói nacional, santo, amigo do Bono Vox e modelo de camisetas e suvenires - ficou trancafiado por 26 anos. Também é comum ver pocket shows de grupos de música africana, com corais fantásticos, apresentando-se por alguns trocados.
Os arredores são igualmente notáveis - e, como no caso da Cidade do Cabo, dispõem de sinalização turística notável. O guia que me acompanhava, Cecil Taylor (na graduação racial do antigo regime, Cecil se definiu como coloured, equivalente, de certo modo, a "mestiço"), levou-me por um passeio pela Cape Peninsula Road. Essa estrada litorânea vai até o mítico Cabo da Boa Esperança, o ponto mais ao sul da África, dobrado pela primeira vez em 1488 pelo português Bartolomeu Dias, que descobria ali a ligação entre o Atlântico e o Índico. A jornada tem pit stop para um fish and chips em Northern Corner Beach. Em alguns momentos lembra a Highway 1, na Califórnia, com suas casas em paragens bucólicas e ricas e o asfalto perfeito. A certa altura, nosso carro freia de supetão para a passagem de uma família de babuínos. No verão, muitos deles invadem as cozinhas para roubar comida. Depois, andam pelo asfalto, atrapalhando o trânsito. Em Simon's Town, outra parada para apreciar as estrelas locais: pinguins numa reserva. É de assustar como animaizinhos tão fofos podem também ser tão fedorentos. É a vida. Nossa jornada terminou no Cabo, com sua vista fantástica para aquela esquina entre dois oceanos. A família do chinês Kim Ching Pak não parava de tirar fotos na placa de identificação: "Eu sou a prova de que a África é internacional", dizia Kim, num inglês terrível.
O melhor restaurante da Cidade do Cabo se chama Africa Café. A garçonete (são todas negras lindas) avisa que trará os pratos do menu fixo, uma degustação de comida africana. O pot-pourri inclui sabores do Marrocos, Malawi, Congo, Quênia etc. Quinze pratinhos. O ambiente é escuro, misterioso. A comida surpreende para o bem e para o mal (sardinha frita e meio fria não dá). Mas a experiência, digamos, sensorial vale cada centavo. O que a África do Sul tem de especial de fato, em matéria de gastronomia, está na wine country, a região em que ficam as vinícolas. Seus vinhos são destaque na indústria do Novo Mundo. Uma das propriedades mais tradicionais é o Rust en Vrede ("descanso e paz", no idioma africâner), em atividade desde 1694. O terraço onde ocorre a degustação, sob a sombra agradável de árvores frondosas, dá para um vale profundo e verdejante. O gerente começou por um merlot, seguido por um shiraz, até fechar com um pinotage, a uva típica sul-africana, mescla de pinot noir com hermitage. Difícil não traçar um paralelo entre essa mistura bem-sucedida e a dificuldade de juntar brancos, negros, coloureds, zulus e imigrantes num país cheio de promessas.
No meu último dia na Cidade do Cabo, Cecil me leva ao Jardim Botânico, o Kirstenbosch. São 528 hectares de espécies nativas numa área a leste da Table Mountain, com o skyline ao fundo. Um lugar para caminhar, ler, meditar, flanar. Uma das aléias leva a um jardim de próteas, plantas-símbolo da África do Sul. No ano passado, o governo resolveu transformar a prótea em emblema de todas as seleções esportivas. O problema é que, no caso de uma delas, a de rúgbi - o esporte nacional, historicamente dominado pelos brancos -, o símbolo é o springbok, um pequeno antílope. Se fosse futebol, solenemente ignorado, não haveria problema. "O time é conhecido mundialmente como 'Springboks'", diz Cecil. "Por que mudar agora? Como você resolve séculos de injustiça com uma medida dessas?" Cecil viveu boa parte de sua juventude em áreas reservadas a gente de sua "raça" com uma carteirinha que lhe permitia entrar (ou não) nos locais de brancos, apanhando da polícia no famoso District Six (bairro boêmio de negros e coloureds, celeiro da resistência, que hoje tem um museu emocionante sobre o apartheid). Ele olha para a Cidade do Cabo. "A prótea é apenas um símbolo, como o springbok. Acho que temos de perdoar, não esquecer. É a nossa história, gostemos ou não." O springbok segue nas camisas dos atletas de rúgbi, fi rme, pequeno e robusto, seu salto elegante congelado no ar.
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