No verão do ano passado, os estrangeiros representaram quase 60% dos turistas que visitam o vilarejo, que está tomado por pousadas de luxo, restaurantes de cozinhas variadas e lojas chiques, cujos proprietários são... gringos. É um tal de pousada do francês, restaurante do alemão, loja do português...Sem eles, Pipa não seria o que é hoje. Depois dos surfistas e dos mochileiros nos anos 1970, a pacata vila de pescadores foi invadida por europeus que vieram para ficar, a partir da década de 90. Desde então, Pipa passou de lugarzinho charmoso a balneário sofisticado e ganhou até o apelido de "Búzios potiguar". As praias parecem ter saído de um mesmo molde: águas em tons de verde-esmeralda e areias brancas que contrastam com falésias à beira-mar e reservas de Mata Atlântica.
Uma das mais bonitas e tranquilas, a Praia do Madeiro abriga não só diferentes acentos e idiomas, mas também golfinhos e tartarugas (estas aparecem entre janeiro e junho). Ela não é das mais acessíveis. Para chegar, saí de carro do centro e peguei a estrada em direção a Tibau do Sul, parei num dos estacionamentos em cima das falésias e desci uma escada de 150 degraus. Lá embaixo, a recompensa: confortáveis espreguiçadeiras de madeira em que gringos se esparramavam à espera dos golfinhos. Aliás, eu não sabia qual era o espetáculo da vez: os bichinhos ou os biquínis gigantes e os jeans que algumas garotas insistiam em usar sob o sol de quase 40 graus.
No início da tarde, a praia se esvazia. Os poucos que ficam rondam o Bar do Jegue. Os que debandam saem para explorar outras praias. Foi o que fiz, voltando em direção à Praia da Pipa, ou "praia principal", como é conhecida. A mais movimentada da vila tem recifes que formam piscinas naturais na maré baixa, barcos de pesca ancorados e barracas espalhadas pela orla nas quais é possível provar frutos do mar e iguarias regionais capazes de tirar qualquer um da dieta. Quando as piscininhas estão cheias, os garçons precisam atravessálas num barquinho de madeira rústico para servir os turistas que ficam do outro lado, na larga faixa de areia. Não foi o meu caso. Na barraca do Ernandes, uma das mais frequentadas e famosa pelas porções de camarão, peixe e bolinho de camarão, pedi direto ao garçom a melhor oferta da casa. Vieram deliciosas patolas de caranguejo.
Mas o que faz Pipa ser um destino tão badalado é também tudo que está contido no centrinho, ao longo da Avenida da Baía dos Golfinhos, a via principal. O trânsito até se agita, às vezes de forma irritante, em volta de lojinhas, cafés, lan houses, bares e minisshoppings. Vitrines com roupas de grife, artesanatos da Indonésia, bijuterias finas ("Dette smukke!", ou "Que bonito!", exclama uma alemã para outra diante da vitrine da Gatos de Rua, loja de bijus descoladas), joias, redes, compotas e vinhos - por fi m, um letreiro luminoso chama atenção: Book Shop Café. Ao entrar, a Torre de Babel:
inglês, francês, holandês e outros idiomas que não consegui identificar. O ponto de encontro de gringos não é um lugar para comprar livros, mas sim doá-los ou alugá-los. Dos 2 500 títulos de diversos gêneros e idiomas, a maioria é fruto do escambo com os estrangeiros. "A loja vive praticamente das doações feitas por eles", diz a gaúcha Cíntia Junqueira, que abriu a loja há dez anos.
Ao cair da noite, Pipa se transforma. Os bares abrem, fecham, reabrem com outro nome, mas o movimento acontece sempre no mesmo lugar: no quarteirão do shopping Vila Mangueira. Por volta das 22 horas, os turistas começam a chegar aos restaurantes e para um esquenta nos bares. Aberto recentemente, o Aladim Chill Out Lounge tem inspiração no Marrocos nos três ambientes, com direito a narguilés. No 2o andar do restaurante Papillon, o chef francês José Pires (de pais portugueses) prepara cardápio francês. No Tapas, o cardápio justifica o nome da casa, especializada em...tapas espanholas. Todos lotam.
No início da madrugada, a animação fica por conta dos bares da rua principal. Os mais lotados são o Tribus e o OZ. Um de frente para o outro, eles fazem uma grande festa ao ar livre, intercalando música eletrônica e latina, samba de raiz e forró. De lá todos seguem para a boate mais badalada, a dos Calangos. O som varia entre música ao vivo, forró, reggae e rock. Na alta noite, as picapes vão de música eletrônica que faz a galera se acabar na pista. "Vamos a bailar hasta el amanecer", ouço de um espanhol lá pelas 4 da madrugada. A balada só acaba com o raiar do dia. O café da manhã, para quem não aguenta chegar até a pousada, é na padaria.
Pipa tem hoje mais de 4 500 quartos para abrigar cerca de 30 mil turistas por ano. "Até o fim de 2009 serão mais 2 mil leitos prontos", diz Jean Claude Progin, presidente da Associação de Hoteleiros e proprietário da Ecovila Spa da Alma, misto de pousada e spa que fica num trecho de praia quase deserto. A mais charmosa, no entanto, está no meio da confusão, na avenida principal. Não é difícil entender por que ela foi eleita quatro vezes como uma das dez melhores pousadas do Brasil no Prêmio VT. Seus 25 mil metros quadrados de área verde fazem os hóspedes esquecerem que estão no meio da vila. Micos, iguanas e pássaros silvestres compartilham os jardins com os visitantes.
No quesito praias, a queridinha é a Praia do Amor, ao sul da vila. O acesso é pela Rua Praia do Amor ou pelos recifes da Praia da Pipa na maré, baixa (consulte sempre a tabela das marés na recepção de sua pousada). Depois é só descer as escadas, improvisadas entre as falésias. Com seu formato de coração, ela é reduto de surfi stas e kitesurfistas. A enseada da galera descolada e das barracas com atendimento simpático - não dá para perder o pastel de queijo e atum e as caipiroskas da barraca do Marinheiro - também tem piscinas naturais de águas quentes. Vistas do alto do Chapadão, no canto direito da praia, formam um cenário inspirador. A paisagem também pode ser vista da pousada Sombra e Água Fresca, uma das melhores para casais. Quase todas as suítes têm piscina e sauna exclusivas. Foi em uma delas, aliás, que Gisele Bündchen se hospedou quando esteve por lá. Ela não foi vista de biquinão nem de calça jeans na praia. Afinal de contas, Gisele é brasileira - e Pipa fica no Brasil. Ainda bem.
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