Esse é um instantâneo de um lugar que insiste, como Ronaldo Fenômeno, em voltar à cena, e sempre como protagonista. A Augusta, rua que já foi o endereço de luxo de São Paulo e o lugar mais quente do Brasil durante a Jovem Guarda, está de novo dando as cartas, as fichas, a bola. Não expulsou seus velhos habituês, prostitutas e travestis que batem ponto ali, mas incorporou um público novo, rico, lido, jovem, abusado. Como a universitária portuguesa Liliana Moraes, que agora vive no Brasil e curtia o Bowie do Studio SP. "Aqui a diversidade é completa. Em Portugal não há bairro de cidade alguma assim."
Com suas discos (em paulistanês, baladas), casas de shows e botecos de esquina, a Augusta e algumas transversais e paralelas tornaram-se uma gigante do entretenimento, uma Strip sem cassinos onde é possível fazer esquenta, jantar, ver shows, dançar, despirocar - é, numa frase, a melhor noite do Brasil. "Esse clima meio bas-fond é o que tem de mais interessante hoje na noite de São Paulo, que é a melhor do país", diz a carioca Erika Palomino, consultora de moda e durante anos colunista de vida noturna da Folha de S.Paulo.
Outros poderiam reclamar à Lapa o posto de melhor noite, mas falta ao bairro carioca o ecletismo da Augusta. No quilômetro, quilômetro e meio que importa entre a Praça Roosevelt e a Rua Antônio Carlos, o chamado Baixo Augusta, a movida é frenética. Em sete quadras estão discos, bares, casas suspeitas - e também salões de beleza, escola infantil, estacionamentos, edifícios residenciais com apartamentos subitamente valorizados. E gente entornando pelas calçadas. É um trecho que arquitetonicamente não vale o city tour, cheio de prédios e fachadas de todos os jeitos.
A mais recente virada da rua tem dta e autoria conhecidas. Junho de 2005, Facundo Guerra. Foi ele, na época com 31 anos, que abriu o Vegas no imóvel que antes servia a uma empresa de segurança de valores. A casa trouxe para a mixórdia da Augusta multidões de jovens e não-tão-jovens-assim de outros bairros. A "proposta" de "Las Vegas dos anos 50 com Cassino da Urca", em suas palavras, é na vida real um lugar com néons, duas pistas em dois andares - um luxo para a rua - e DJs. Facundo abriu agora dois novos bares. o Volt e o Z Carniceria, e anuncia o fim do Vegas no auge, ainda este ano. O sucesso do Vegas fez surgir na Augusta outras discos, como a Inferno, e bombar as que já existiam, casos da Sarajevo e da Outs. Há um ano, o Studio SP, hoje a casa de shows mais esperta do Brasil, mudou-se da Vila Madalena para a Augusta. Ali Mallu Magalhães, que outro dia mostrou seu folk bubble gum no Faustão, começou a se apresentar e é lá que Caetano Veloso quer mostrar seu novo "trabalho" aos paulistanos.
A Augusta, que surgiu como uma trilha de terra no século 19, explodiu nos anos 1960. De um lado, virou o endereço preferido dos estilistas, com suas lojas de tecidos e confecções. Do outro, ganhou vocação baladeira pela proximidade com os estúdios da TV Record, onde, todo domingo, de 1965 ao começo de 1968, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa gravavam o programa Jovem Guarda. A rua era parada de artistas e fãs que se encontravam antes ou depois das gravações. "Aqui era a Quinta Avenida brasileira", diz Anatolie Soroko, dono da sorveteria Soroko e velho frequentador da rua.
A Jovem Guarda passou, e o que alimenta hoje o sucesso da Augusta é uma mistura de patricinhas, playboys, manos, punks, góticos, skatistas, boêmios velhos de guerra e emos, os indivíduos cuja marca de distinção é a franja sobre um dos olhos, às vezes sobre os dois. Como Márcio Barcha, de 19 anos, que se junta aos "iguais" na altura do 1200 da rua. "Venho à procura de garotas", diz. Não é uma motivação incomum. Paulo César Pereio, de 69 anos, o ator gaúcho cuja voz (e parte da biografia) é um dos patrimônios da virilidade brasileira, também está nessa. Ouço suas histórias no fuleiríssimo bar 24 Horas, entre partidas de sinuca em que ele, de camisa aberta e havaianas, me vence sem contestação. "Passei o Réveillon aqui neste bar. Eu, [o jornalista] Palmério Dória, um travesti lindo e mais alguns amigos. Foi fantástico", diz. "Adoro a banda podre. Ela é autêntica.".
A Augusta também tem seus cronistas. Xico Sá, colunista da Folha de S.Paulo e autor de um blog etílico-sentimental, mora no Baixo e diz que já se "apaixonou perdidamente ao menos uma vez por dia" pelas mulheres da rua. É com uma dessas paixões que ele contracena no clipe Pra Ser Só Sua Mulher, de Ronnie Von, que o músico pernambucano Otto filmou numa casa de tolerância da Augusta na qual ela trabalhava. Xico também transformou uma sauna em "balada", a Vira Virou. "Tinha um cara lá que era porteiro, camareiro e DJ e só tocava música ruim. Aí começamos a levar nossos discos. Era um mundo de celebração", ele conta.
Se o escritor Mário de Andrade desejava, como escreveu, que deixassem seus olhos no Jaraguá, seu sexo no Largo do Paissandu e o coração no Pátio do Colégio, um bar do Baixo Augusta, o Amistosas, na Rua Martins Fontes, poderia requisitar o corpo inteiro do cantor brega Waldick Soriano, morto em 2008. Waldick, que cantou em pulgueiros da região, passou uma noite memorável no Amistosas em 2005 relembrando sua vida para o documentário Waldick - Sempre no Meu Coração, de Patrícia Pillar. Xico Sá, que estava ali, recorda: "Mesmo sem poder beber, o Waldick mandou no uiscão, pegou um violão e deu uma canja lá mesmo. Foi sua despedida da noite de São Paulo".
O Amistosas, frequentado por atores e pelos boêmios que se recusam a ir para casa, é mantido por José Libano Batista, o Charles Bronson (mas ele está mais para Jackson Antunes). Ali dentro eu engreno uma conversa com Carol, que me aponta um sujeito de uns 60 anos com uma garrafa de uísque na mesa: "Aquele ali paga bem, então dou a ele tratamento vip". Quem entra em cena agora é Antônio Carlos, de 49 anos. De camisa de seda, chapéu preto e violão, ele passa pelas mesas tocando Tom e Vinicius, Paulinho da Viola e João Nogueira. No copo, só guaraná. "Parei." Lembra-se de Waldick, mas quem ele curtiu foi Patrícia Pillar."Fiz uma música para ela, mas ela não sabe." "Que bom te ver / divina estação da primavera / que bom te ver / azul que todo rio procura..."
O bas-fond é traço de caráter da Augusta, mas em certos pontos é outro mundo que predomina. Os novíssimos bares Sonique! e Volt e a kebaberia Kebabel poderiam estar na Vila Olímpia ou no Leblon. E, se fosse possível abstrair as profissionais das calçadas da Bela Cintra e da Augusta, as "baladas" seriam quase assépticas. "Celebram o Baixo Augusta, mas o que ninguém diz é que os grupos raramente se misturam: o pessoal do Studio SP não sai com garotas de programa", afirma o produtor musical Gustavo Anitelli. A frase faz sentido, mas a Augusta seria bem outra sem essas profissionais. Quase ao mesmo tempo em que Anitelli fala isso, um travesti, vendo que fazíamos fotos no restaurante Kebabel, se oferece para posar. Depois de mostrar sua roupa de baixo para a lente de Bia Parreiras, uma garota que eu facilmente abordaria na Vila Madalena (ou na Lapa) chega e lhe pede um autógrafo. O travesti, exuberante, não perde tempo e tasca-lhe a assinatura no braço.
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