Udaipur é a capital de um dos reinos mais antigos da Índia. A dinastia Mewar controlava a região desde o ano 566. No século 16, o marajá Udai Singh perdeu a batalha de Chittor e decidiu que aquele novo e aprazível lugar seria a capital que restava de seu poderio. Um reino por um lago. Os mewars souberam ser politicamente mais eficazes que seus colegas de outras dinastias, que se perderam em um mar de caprichos que os tornaram famosos no mundo inteiro. As histórias folclóricas dos marajás, que gastavam baldes de dinheiro comprando os luxos mais excêntricos que alguém podia imaginar, fizeram a alegria dos fabricantes de produtos exclusivos. Os nomes são os mesmos até hoje. Malas enormes e especialíssimas da Louis Vuitton, colares elaborados com diamantes e esmeraldas do tamanho de ovos de codorna feitos por Harry Winston e Boucheron, peças rebuscadas de diamantes de Van Cleef & Arpels ou Cartier, camas de cristal Baccarat. O marajá Jayaji Rao Scindia, de Gwalior, por exemplo, mandou fazer um trem elétrico que circulava pela mesa de jantar e servia os convidados. Nada era suficientemente extravagante para eles. Mas toda festa tem, sempre, data para terminar. O fim da deles foi num dia quente de verão também, quando o Raj, como era chamado o domínio inglês sobre a Índia, acabou e o país se tornou independente. Era 14 de agosto de 1947, e Mahatma Gandhi integrou quase 600 principados e reinos que os britânicos mantinham autônomos - seguindo o ensinamento colonialista do general Wellington de "dividir para conquistar". Nascia a União Indiana.
No começo dos anos 80, Udaipur foi cenário de um dos filmes, o de número 13, da série de James Bond. A fita se chama 007 contra Octopussy. Roger Moore é encarregado de perseguir um grupo de acrobatas chefiado por uma garota chamada Octopussy envolvido em contrabando internacional de joias, especialmente um ovo Fabergé do tamanho de um abacaxi - tudo roubado com a ajuda de um general russo. Na verdade, a história é bem mais complicada e envolve até bomba atômica. Mas o curioso é que Octopussy, na ficção, morava no mesmo Lake Palace que, naquela noite calorenta, surgia diante de mim no meio do Lago Pichola. Isso sem contar que eu estava em um apartamento no mesmo complexo em que Bond, James Bond, como não poderia deixar de acontecer, dava um pega bíblico em uma das assistentes de Octopussy. O filme projetou Udaipur e o Rajastão para os folhetos de destinos turísticos e, hoje em dia, de uma das suítes principais desses palácios pode-se ter a mesma visão de 007. O visitante tem direito ainda a mergulhar na piscina que era privativa dos marajás e, se tiver sorte, contemplar a banda do marajá Arbind Singh passeando pelos jardins do palácio, tocando marchas militares inglesas com seus músicos impecavelmente uniformizados.
Octopussy e suas acrobacias foram produto da fantasia de um roteirista de cinema, mas diz uma das lendas locais que, no século 19, o marajá Jawan Singh, homem de qualidades duvidosas, prometeu a uma de suas dançarinas - a mais bela e talentosa, como não poderia deixar de ser - que lhe daria uma parte considerável de seu reino se ela conseguisse cruzar uma determinada distância do lago andando sobre um cabo. A moça, além de exímia dançarina, era excelente equilibrista e não titubeou um segundo em topar o desafio. Para desespero de outras cortesãs, que na hora sentiram a ponta do punhal da inveja espetar seu coração. No dia marcado, para deleite de alguns e espanto de outros, quando a bela já estava quase completando o percurso sobre o cabo, uma mão invejosa soltou a corda e fez cair a quase-futura marani na água. Era uma moça de muitos predicados, mas não sabia nadar. Afogou-se, para desespero de Jawan e alívio de suas concorrentes.
Udaipur conserva todo o charme e colorido da Índia, que povoam o imaginário e os sonhos de qualquer turista. Com a vantagem de que a cidade pode ser percorrida toda ela praticamente a pé por entre ruazinhas de trânsito sem sentido aparente em que o viajante tem de dividir o espaço com tuktuks (onomatopeia perfeita para os triciclos dirigidos por pilotos com vocação suicida), carros, pessoas, camelos, bicicletas e elefantes.
É clichê, mas a Índia é a terra da espiritualidade. As religiões mais praticadas são o hinduísmo, o jainismo, o budismo e o sikhismo. Há um contingente expressivo de muçulmanos. O veneziano Marco Polo, o mais ilustre dos viajantes, contava, em 1310, em seu livro Usos e Costumes dos Reinos da Índia, a história de um lugar no qual os seguidores do Islã diziam ficar a tumba de Adão, o primeiro homem. Já outros, falava Marco Polo, acreditavam tratar-se da tumba de Sakyamuni Burkhan, "o primeiro homem em nome do qual ídolos foram criados". Era o filho de um poderoso rei que vivia em um palácio com todas as facilidades que uma riqueza exorbitante poderia proporcionar. Polo conta que o príncipe tinha centenas de serviçais e, entre outras amenidades, 30 mil moças intocadas à sua disposição. Os jardins eram belíssimos. Ainda assim, ele se mantinha casto e virtuoso. Ele nunca tinha saído daquele paraíso. Um dia, num passeio a cavalo, encontrou o cadáver de um súdito. O jovem nunca tinha visto aquilo. Descobriu, então, as fragilidades e as incertezas fora dos muros. Decidiu deixar a riqueza para trás e se dedicar à meditação, "à procura daquele que nunca envelhece e nunca morre". Marco Polo não sabia, mas estava falando de Sidarta Gautama, o Buda histórico.
Aí vai um panorama básico da complexa religiosidade local. O hinduísmo é praticado por cerca de 80% dos indianos. É uma das religiões mais antigas do planeta (calcula-se que tenha surgido entre 6000 e 4000 a.C.). Formado por diferentes tradições, não possui fundador e conta com milhões de deuses. Alguns deles são campeões de audiência entre o povo. Saraswati, por exemplo, é a bela divindade do saber, da música e das artes. Como alguns de seus colegas, tem quatro braços. Com dois deles toca uma cítara. Ganesha é o deus das soluções, da boa fortuna. Antes de qualquer decisão a ser tomada, é indispensável pedir sua bênção. Ele tem um corpo humano, de criança, um pouco barrigudo, cabeça de elefante com apenas uma presa e quatro braços. Seu meio de transporte é um rato. Aqueles que estão interessados num mergulho espiritual vão encontrar, na Índia, motivos para não voltar nunca mais para casa - ou voltar mudados para sempre.
Em Udaipur, a poucos metros da porta principal do hotel City Palace, em uma praça de superfície inclinada, está o Jagdish Mandir, um templo do século 17 dedicado a Vishnu, o deus supremo para os seguidores de Krishna e Rama. Dois elefantes guardam a entrada. Na rua, mulheres vendem as flores coloridas que servem de oferenda e que acompanham as orações. As figuras humanas que, cobertas da cabeça aos pés, sobem a escadaria de mármore que dá acesso ao templo fazem lembrar a intensidade presente na tela de Arnold Böcklin A Ilha dos Mortos, de 1880. Na Índia, não só a vaca é sagrada. Os macacos, as cobras, cada um desses animais também é sagrado por razões específicas. Isso sem esquecer que você pode cruzar no meio da rua com camelos ou elefantes utilizados domesticamente para o transporte de passageiros ou de carga. A vantagem dos elefantes indianos é que eles são mais gentis e um pouco menores que seus primos africanos.
Se você é do tipo que se irrita no Vale do Anhangabaú ao meio-dia de quarta-feira ou no Maracanã durante um Fla-Flu, pense duas vezes antes de desembarcar em Nova Délhi. A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com 1,1 bilhão de habitantes (só como curiosidade, o lugar com menos habitantes é Pitcarin, uma ilha em que vivem 51 almas). E isso se nota. Seja nas cidades, seja no campo. Sempre alguém cruzará seu caminho. O Taj Mahal, por exemplo, recebe mais de 3 milhões de visitantes no decorrer de um ano (o Brasil todo recebe 5 milhões). Com a aceleração da economia na última década, o turismo interno cresceu vertiginosamente. Há pouco mais de dez anos, ao contrário do que acontece hoje, era quase impossível encontrar famílias hindus viajando pelos pontos turísticos do país. Agora, escolas levam seus alunos a descobrir, in loco, as maravilhas indianas. As oportunidades estão ao alcance dos jovens emprendedores. Kingfi sher, por exemplo, é marca de cerveja. Mas, também, uma nova companhia aérea. Ficou famosa por empregar, em uma sociedade tão tradicional, aeromoças tão parecidas umas com as outras que, quando uniformizadas (casaco e minissaia vermelhos), parecem clones. A cerveja, a bordo, é de graça.
A Constituição rejeita discriminação com base em castas, já que o regime oficial é democrático e secular. Mas isso está entranhado na cultura hindu. Alguns especialistas acreditam que o sistema se baseia numa antiga estratificação profissional, como na Europa medieval. As castas, com uma série de subdivisões, têm quatro grupos principais: os brâmanes (grosso modo, religiosos, educadores, legisladores), os xátrias (militares), os vaixás (artesãos, mercadores) e os sudras (operários). Abaixo deles, há os dalits, os intocáveis, aqueles que fazem o trabalho sujo. Lidam com mortos (animais ou humanos), por exemplo, em contato constante com o que o resto da sociedade indiana considera repugnante. Não podem rezar nos templos ou tirar água dos poços em que outras castas bebem. Não podem deixar que sua sombra caia sobre outros que não sejam seus iguais. Se, na Índia moderna, o sistema de castas tende a se diluir nas necessidades econômicas e políticas - K.R. Narayanan, presidente entre 1997 e 2002, era um dalit -, nas regiões menos desenvolvidas milhões de dalits lutam contra a pobreza e o preconceito. A crença no carma faz com que a miséria, eventualmente, seja encarada como momento transitório em um arco de tempo que se estende após a morte.
Jaipur, a capital do Rajastão, foi a primeira metrópole da Índia a ter sua construção planejada. Em 1727, o marajá Jai Singh, com a ajuda de um brâmane chamado Vidayadhar Bhattacharya, decidiu construir uma metrópole que misturasse as tradições hindus de astronomia e os cálculos do filósofo grego Euclides. Ela é chamada de "a Cidade Rosa" por suas paredes terem sido pintadas dessa cor quando da visita do príncipe de Gales em 1853. Perto de Jaipur, o Amber Fort é uma massa que, de longe, chega a parecer irreal de tão imponente; de perto parece ser mesmo de outro planeta. Foi construído sobre uma escarpa e com terraços superpostos que, de uma grande esplanada e através de portas de diversos tamanhos (a Ganesha Pol, por exemplo, tem quase 10 metros de altura, fazendo com que a porta gigantesca que dá acesso ao Aram Bagh - o Jardim dos Prazeres - pareça minúscula, em comparação), vão conduzindo o visitante a 1 001 salas repletas de histórias. É lá que, na novela, um dalit representado por Márcio Garcia, recém-chegado dos Estados Unidos, cruza em uma festa, assim como quem não quer nada, com a bela heroína, personificada nesta encarnação por Juliana Paes. O final a Ganesha pertence.
A meio caminho entre Jaipur e o Ambert Fort existe um lugar chamado Dera Hammer. Lá, se você tiver tempo e paciência, poderá assistir a um jogo de polo praticado por elefantes. Enquanto o visitante se delicia com goles de Pimm's - o tradicional aperitivo inglês que, quando misturado com limonada e gim, deixa para trás a caipirinha em capacidade de liberar qualquer tipo de inibição -, pode se divertir observando os paquidermes se movimentar com graça e determinação sobre o gramado impecável. A velocidade, porém, não é das maiores. No fim do jogo, um passeio nas costas dos jogadores é possível.
Uma das "novas" maravilhas do mundo moderno, como se sabe, se encontra na Índia, mais precisamente em Agra. É o Taj Mahal, o mausoléu do século 17 que o imperador Shah Jahan teria construído para sua amada, a princesa Mumtaz Mahal (Jorge Ben fez disso uma música de sucesso. Por uma defi ciência auditiva, sempre achei, até pôr os pés ali, que se tratava do príncipe Jazerai. Enfim...) Diz a lenda que mais de 20 mil súditos trabalharam na construção, que demorou quase 17 anos para terminar. A obsessão pela perfeição e pelo espelhamento que a arquitetura islâmica embute no espectador se apresenta em seu auge quando entrarmos no jardim. A simetria é total. Seja no desenho dos espelhos-d'água, seja nos minaretes, nas cúpulas em forma de cebola ou nas janelas espelhadas. É uma perfeita síntese de dois estilos de vida: o mogol, vindo das tribos do centro da Ásia que dominaram a Índia por mais de 300 anos, e o islâmico.
Do lado esquerdo, com o Rio Yamuna ao fundo, uma mesquita foi levantada. Outra foi erguida do lado oposto. Só que está vazia. Sua função é apenas manter o equilíbrio visual. Nada está fora de lugar. Dois detalhes passam geralmente despercebidos aos mais apressados. Um deles é que os quatro minaretes, com 40 metros de altura, estão ligeiramente inclinados para fora (só se percebe olhando de baixo para cima) para que, no caso de um terremoto ou outro acidente estrutural, eles não caiam sobre a tumba. Já a faixa com inscrições que envolve a entrada principal tem ligeira distorção visual para que apareça sempre com as linhas perfeitamente paralelas. Shah Jahan visitou sua obra duas ou três vezes apenas. Com o passar do tempo, ele perdeu o poder por causa de brigas familiares e passou o resto de seus dias trancado em uma ala de seu palácio, de onde podia contemplar a maravilha que sua paixão levantou.
O Taj Mahal provoca uma estranha sensação de déjà vu que se repete em locais deslumbrantes fotografados bilhões de vezes. As pirâmides do Egito, o Pão de Açúcar, Machu Picchu, todos eles foram vistos por todo mundo - do mesmo ângulo. Acontece que esse ângulo foi armazenado na retina e no subconsciente. Admito que, aparentemente, isso não incomoda a maioria das pessoas que fazem fila para se deixar fotografar com o monumento ao fundo. O vizinho hotel Oberoi Amarvilas tem uma visão privilegiada do Taj Mahal. Não fosse o bastante, possui uma piscina que reproduz a forma de uma antiga coletora de águas, tipo de construção muito caraterístico na Índia - e um perfeito refúgio contra o sol inclemente, que inevitavelmente despenca sobre a cabeça do viajante todos os dias.
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