Eram 7h30 da manhã quando embarquei no ônibus que me levaria a Santa Helena de Uraian, na Venezuela, a três horas de Boa Vista - primeira parada na jornada até o Monte Roraima, o mais conhecido dos tepuis (formações rochosas com paredes verticais e cumes planos que lembram uma grande mesa) da Gran Sabana, enorme área fronteiriça da Venezuela. Depois de uma reta interminável, chegamos à fronteira. Foi aí que gelei: pensei que não teríamos de apresentar os passaportes, e o meu estava vencido. O que fazer? Esconder-me no banheiro? Para minha sorte, a funcionária foi camarada. Nunca atravessei uma fronteira tão feliz: havia três anos eu sonhava com essa viagem.
Mais alguns minutos e já estávamos numa cidade tipicamente venezuelana. Fiz amizade com um casal de franceses, que pretendia se hospedar numa pousada chamada Casa de Gladys, ao custo de 10 000 bolívares, ou 23 reais por cabeça. Fui com eles, mas logo saí para achar algum guia. Fechei com Luiz: por 190 dólares, ele conduziria meu grupo de quatro pessoas.
Às 8 da manhã estávamos de pé. Após uma hora de asfalto mais uma de estrada de terra, chegamos ao início da trilha. Daquele ponto já era possível avistar os tepuis. Com aquela altura e aquele tamanho (o Monte Roraima tem 2 734 metros de altitude), só mesmo nessa região onde Brasil, Guiana e Venezuela se encontram.
Após muitos ataques dos mosquitinhos puripuris, mais ventania, sol, chuviscos e dois pequenos rios de fácil travessia, chegamos ao primeiro acampamento. A noite era fria mas agradável. Na manhã seguinte, acordamos quando o sol já saía de trás do Monte Roraima. Em alguns minutos, atravessamos o Rio Tek e começamos a sentir o terreno plano se transformar numa leve inclinação. A caminhada até o campo na base do Monte
Roraima demoraria mais de três horas, e as pernas já começavam a sentir o desgaste da subida. O silêncio da caminhada, a distância da família e de toda e qualquer forma de civilização me faziam refletir sobre os obstáculos que pareciam enormes lá embaixo - aqui, eles não eram nada. Depois de mais uma hora de caminhada, chegamos ao campo-base, perto do paredão, e armamos nossas barracas.
Às 6 da manhã, o guia nos acordou para três horas de subida incessante até o cume. Todos se aprontaram, respiraram fundo e iniciaram a caminhada, sob chuva. Simulamos uma disputa. Mantive a respiração constante e fui ultrapassando meus colegas um por um, até que cheguei ao topo, em menos de três horas. À minha volta, a densa neblina deixava transparecer estranhas formações rochosas e pequenos lagos espalhados pelo platô.
Curti aquele momento sublime a sós, até que, um a um, todos foram chegando. A felicidade se misturava com outra sensação: eu não sabia direito se o sonho havia se realizado ou havia acabado. Dias depois, tentei entender o que tinha acontecido. A verdade é que o monte nos modifica: após conquistá-lo, você não sabe como se adaptar de novo à cidade grande. Mas sabe o que sentiu lá e que ninguém poderá tirar isso de você.
QUEM LEVA Com a Venturas & Aventuras (11/3872-0362, venturas.com.br), o pacote de dez dias e subida ao Monte Roraima (com guia, carregadores, café da manhã, lanche e barracas) custa desde R$ 3 647.
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