Imaginem um errante navegante espanhol a bordo de uma canoa deslizando sobre as águas do Rio Iguaçu. O céu está azulado, e o calor é intenso. O dia é 31 de janeiro de 1542. Ele está à procura de um império pavimentado com ruas de ouro. Num certo momento, ao dobrar uma curva, defronta-se com um conjunto de cataratas cujas 275 quedas têm, em média, 70 metros de altura. "Santa Maria, que beleza!", exclama o navegante com sua voz rouca e emocionada. Essa é uma das histórias de Don Álvar Nuñez Cabeza de Vaca em terras americanas. Ele foi o primeiro europeu a contemplar o que hoje se chama Cataratas do Iguaçu. Nosso aventureiro espanhol não foi levado a sério e acabou sendo tomado por louco. O que é compreensível. A expectativa dos turistas que aguardavam a chegada da próxima carretinha tinha lá sua razão de ser. Afinal, depois de percorrer 2 quilômetros de floresta no Parque Nacional do Iguaçu, em velocidade lentíssima, estaríamos dentro de um barco a motor que nos deixaria "o mais próximo possível das cataratas", segundo a propaganda que eu acabara de ler. Postado na fila, eu procurava meios de despistar minha ansiedade quando uma borboleta vermelha e amarela pousou em meu ombro direito. Colada à gruta que dá acesso ao meu ouvido,
ela começou a farfalhar suas asas. Confesso que me senti privilegiado quando uma segunda borboleta embrenhou-se em meus cabelos. A partir desse momento, as pessoas da incerta fila passaram a me olhar com um misto de adoração e preocupação. "Onde isso vai parar se continuar?", pareciam se perguntar quando uma terceira borboleta começou a sobrevoar meu corpo. Mas, antes que ela pudesse pousar, suponho, em meu nariz, a esperada carretinha finalmente chegou.
"Permaneça em silêncio durante o passeio", asseverava a placa no início da trilha que nos conduziria ao Macuco Safári, nome dado à aventura que nos aguardava. Ordem que, diga-se de passagem, não foi muito bem assimilada pela maioria dos passageiros, ávidos por encontrar um macaquinho pendurado numa árvore ou a terrível onça que, segundo o guia, "já foi vista por um grupo de turistas que, por sua vez, jamais foi visto de novo". A verdade é que, se de fato esses e outros animais habitam aquele trecho de Mata Atlântica, eles pareciam perceber a presença humana no pedaço e, é claro, mantinham distância. Portanto, contentamo-nos em observar exemplares de cipós escadade-macaco, gabirobas e pés de palmito-doce.
Depois de deixar sapatos, carteiras e outros pertences vulneráveis à ação da água sob a guarda dos funcionários do porto e de vestir aqueles indefectíveis coletes salva-vidas alaranjados, entramos na embarcação. Lentamente e navegando, a princípio, em águas serenas do Rio Iguaçu, fomos em direção às quedas. Quando tudo parecia indicar que o passeio se resumia àquela contemplação distante e as águas já não estavam tão serenas, o piloto acelerou em direção a uma delas. Alvoroço. Gritaria. Euforia a bordo. Quando a água encharcou o bote, o frenesi tomou conta dos passageiros. "Entrou água até no meu cérebro!", exclamou uma senhora. Depois de duas paradas para fotos, nós, o agora bando de marinheiros destemidos, voltamos para o porto cheios de adrenalina. Quanta diferença!
Como disse nosso guia entre uma e outra piada decorada, existem três formas de contemplar as Cataratas do Iguaçu. A primeira é de baixo para cima, como no passeio Macuco Safári. A segunda, de frente. E a terceira, de cima para baixo, de helicóptero. Descartei esta última e segui rumo à segunda: encará-las de frente. Todos os mil metros de passarelas conduzem ao mirante de onde se tem uma visão panorâmica da Garganta do Diabo. Sem pressa, caminhei vagarosamente, na companhia das fiéis borboletas e sempre alerta quanto à possibilidade de encontrar um quati, mamífero que, além de ser o símbolo do Parque Nacional de Iguaçu, costuma aparecer diante dos turistas e sequestrar suas bolsas com alimentos no melhor estilo Zé Colmeia. Eu dizia que caminhava lentamente, mas meus ouvidos voavam com o vento: detinha-me no som das quedas, a princípio rarefeito, quase inaudível, mas que a cada 50 metros ia ficando mais perceptível, como se alguém estivesse aumentando o volume de um aparelho de som. É claro que a paisagem acompanhava o som: a princípio, o que eu conseguia enxergar eram fiapos d'água longínquos. A 300 metros de distância do Grande Momento, já era possível ouvir os primeiros "oh!" e "olha que maravilha!" Até que, pronto, ali estava ela, a menos de 100 metros dos meus olhos, a exuberante Garganta do Diabo. Turistas eufóricos disputavam o melhor ponto para fotos, que em geral é aquele lugarzinho clássico que deixa o fotografado de costas para a primadona das cataratas. Um senhor francês (um dos cerca de 825 mil turistas estrangeiros que vão às cataratas por ano - o que a torna o segundo destino mais visitado no Brasil, só perdendo para o Rio) exclamava em sua língua natal: "Eu não acredito!"
E aqui entra um aspecto (aparentemente) importante. Essa visão é a que temos da garganta do chamado lado brasileiro das cataratas. Porque, na verdade, ela se encontra em terras argentinas. A questão é: qual visão da Garganta do Diabo é mais assombrosamente bela, a do lado argentino ou a do lado brasileiro? O meu amigo taxista, o professor Derli, um gaúcho radicado em Foz do Iguaçu há mais de 30 anos, não vacilou: "Eles têm o palco, e nós temos a plateia". Já o guia Marcos Soares Guimarães, diplomático, decretou um sonoro zero a zero: "A Garganta do Diabo se encontra exatamente na linha de fronteira entre os dois países". Não havia outra forma de aplacar minha aflição senão visitar o chamado "lado argentino".
Portanto, na manhã seguinte, ainda maravilhado com o que havia presenciado no dia anterior, fui encontrar-me com las Cataratas del Iguazú. Quando cheguei à Estação Central para tomar o trem que me conduziria à Estação Cataratas e depois à Estação Garganta, eu me sentia como se estivesse na boca do vestiário, prestes a entrar no gramado em que seria disputada uma final de campeonato. Estava, confesso, possuído por um certo nervosismo que só foi abrandado quando una mariposa amarilla y muy hermosa pousou em meu braço. Ato contínuo, o trem partiu. Naquele instante, dei-me conta de que a natureza não tem pátria e de que as borboletas não têm nem ideia do que vem a ser um passaporte. Esse insight fez com que meus olhos se abrissem definitivamente.
A primeira parada foi na Estação Cataratas. Dali eu poderia escolher entre o Circuito Superior e o Inferior. O primeiro, como o nome já revela, nos dá uma visão mais alta da garganta e das quedas que a circundam. No segundo, as quedas não apresentam os mesmos elementos que costumam deixar os turistas enfeitiçados. Quando terminei os dois circuitos, sentia-me ligeiramente cansado. De volta à Estação Cataratas, fui surpreendido por uma nuvem de borboletas multicoloridas que me causou uma deliciosa sensação de que estava enlouquecendo. Não só eu, aliás, como todos os presentes. O balé das mariposas hermanas, folhas coloridas que voavam e se contrapunham ao céu azulado, pareceu ter deixado todos os que o presenciaram envoltos numa atmosfera onírica, ensandecida.
E foi sob o domínio desse clima de sonho que me sentei no banco do vagão que me levaria à Garganta do Diabo. Ao chegarmos à Estação Garganta, notei no rosto dos passageiros que desembarcavam do trem que voltava do meu destino uma expressão que misturava assombro e euforia.
A passarela que me separava dos olhos, dos cabelos e do hálito da Garganta do Diabo tinha 1 100 metros. Devo confessar que atravessei esse 1 quilômetro e pouco voando. E mais: que foi o único momento da viagem em que perdi a razão, o senso, a
vergonha e o contato com a lei da gravidade.
Quando me dei conta (percebi?) (notei?) (dei por mim?), já havia aterrissado no mirante da Garganta do Diabo e, a menos de 10 metros das minhas asas, Ela, a Exuberante. Ela e aqueles seus bilhões de litros d'água caindo por segundo sobre um imenso e circular nada. A fúria do seu som e a delicadeza da espuma, que logo virava névoa. Os matizes de seu branco e um penacho verde-musgo tingido em sua testa. Algumas gotas d'água explodiam em meu rosto. Embaixo, lá no infinito, sobre o berço das nuvens, um arco-íris dançava de acordo com a água. Tudo como num filme que está sendo projetado há milênios.
E foi diante desse quadro metafísico que uma borboleta pousou na murada do mirante. Agitava as antenas, parecia querer sussurrar-me algo. Aproximei-me do encantador inseto e, pasmem, leitores!, eis o que ele me disse com sua língua espiralada: "O mundo é nosso, de todos os seres vivos... As fronteiras não existem... Boa sorte, humano..." Pronto. O jogo entre brasileiros e argentinos estava decidido. O resultado foi vitória da transcendência.
QUEM LEVA A CVC (11/2191-8410, cvc.com.br) tem roteiro de três noites com passeio para o lado brasileiro das cataratas (ingresso não incluído). Os preços começam em R$ 1 198. Na Pomptur (11/2144-0400, pomptur.com.br), fica mais em conta: o mesmo roteiro de três noites mais passeio às cataratas com ingresso custa desde R$ 936.
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