A mesa, naquele restaurante de Katmandu,era grande. De cabeceira a cabeceira, 19 brasileiros, todos empolgados com os dias que viriam pela frente. E também por perceber afi nidades entre nós, mesmo mal nos conhecendo. Estávamos na capital do Nepal, antigo reino hinduísta tornado república maoísta, uma pequenina nação perdida entre a Índia e a China, pela mesma razão: fazer um trekking de semana e meia pela cadeia de montanhas do Himalaia, a cordilheira mais alta do mundo. O Nepal tem oito dos dez picos mais elevados da Terra, Everest incluído, já na fronteira com o Tibete. Em apenas dois dias estaríamos nas alturas, e a ansiedade latejava em todos nós. Com isso, Toni Cotrim e Jota Marincek, os dois guias brasileiros da expedição, eram bombardeados com perguntas e mais perguntas. A ponto de, dado momento, alguém dizer: "Vocês estão com medo?" Não sei dos outros, já que ninguém admitiu, mas eu estava morrendo de medo. Mas preferi não revelar.
Meus companheiros naquela mesa eram trekkers experientes. Uns já tinham andado pela Chapada Diamantina; outros, pela Patagônia. Roberto Silva, o mais quieto e, eu veria depois, o mais rápido do grupo, percorreu o Caminho de Santiago. Não tinha nada disso em meu currículo. Por isso, antes de viajar, segui com cuidado os dois conselhos do Jota: amaciar as botas e tentar me acostumar às pirambeiras do Himalaia subindo escadarias em São Paulo. E, por minha conta, procurei me fortalecer mentalmente para as horas em que viesse a vontade de desistir.
O objetivo era chegar aos 4 133 metros de altitude, no Annapurna Base Camp (ABC), o primeiro acampamento dos que pretendem escalar o Annapurna I, a décima montanha mais alta do mundo, com 8 096 metros (só 700 mais baixa que o Everest, a primeira), e também o Annapurna South, a 7 219 metros. Se o ABC era nossa meta, para os verdadeiros alpinistas ele é o começo. A esses, como diz o blogueiro Bruno Agostini, do viajeaqui, só o cume interessa. Nossa rota para o ABC seria toda pelo Santuário Annapurna, cuja beleza lhe valeu a condição especial de santuário natural para os hinduístas. Em todo o percurso se avistam o conjunto das cinco Annapurnas, montanhas com mais de 7 500 metros, e também outros gigantes, como o Machapuchare, de 6 993 metros.
Num país ao qual os (muitos) turistas vão para caminhar, Katmandu não poderia ser pior cartão de visita. Nas ruas sem calçada, macacos, vacas e riquixás dividem espaço com carros caindo aos pedaços e pedestres. O caos é amplificado pelas buzinas que não cessam e pela poluição. Para piorar, a cidade sofre com um apagão de energia de oito horas diárias. No mês passado, com a capital vivendo mais um período de instabilidade política, houve passeatas e violência policial. Em geral, os turistas aproveitam a estada na capital do Nepal para comprar equipamentos de trekking. Os preços nas lojas do bairro Thamel são até 80% mais baixos que no Brasil se você não fizer questão de grifes. Do contrário, há na região um endereço próprio da americana North Face, a Dior dos montanhistas. Algumas lojas vendem também peças falsificadas da marca, o que logo rendeu a elas o apelido de "cara nuerte", entre nós.
A bagunça de Katmandu ficou para trás quando entramos num ônibus velhíssimo rumo a Pokhara, a 200 quilômetros. Foram longas sete horas que aproveitei para conhecer melhor o grupo. Uns planejavam a vinda ao Nepal havia tempos; outros queriam "desconectar". Mas nenhum deles, ao contrário do que eu imaginava, buscava uma experiência de transformação - mais um clichê derrubado na minha vida. Em contraste com as ruas de Katmandu, da estrada emanava um silêncio assustador, quase sólido. Na paisagem, reconheci o que imaginava ser o "Nepal profundo" ao ver um boi desnutrido, que o grupo confundiu com um iaque, e, numa parada, um daqueles banheiros com buraco no lugar do vaso.
Pokhara é possivelmente um dos melhores lugares no Nepal para ser apresentado ao Himalaia. A cordilheira envolve a cidade com imponência. Entre as 5h30 e as 7 da manhã, quando os picos nevados ficam mais nítidos, a paisagem atinge seu potencial máximo de beleza. Na cidade, encontramos os 19 porters que nos guiariam (e carregariam nossa bagagem, cozinhariam, reservariam acomodações). Eram jovens entre 18 e 25 anos que ganhavam até 7 dólares por dia, fora as gorjetas pela caminhada inteira, que podem chegar a 50 dólares. Alguns marcham de calça jeans e sapatos muito velhos. Mas vão mais rápido que qualquer turista bem equipado. Barrigudo e baixinho, Prem Shresta era o chefe deles, o que lhe justificava o privilégio de não precisar carregar malas. Gentilíssimo, ia me ajudar muito na caminhada ao sempre esperar que eu retomasse o fôlego. Foi ele quem me contou sobre o assassinato da família real nepalesa, ocorrido em 2001, que explicou algumas tradições hinduístas e que, quando voltamos a Katmandu, me pôs na garupa de sua moto para irmos ao local em que monges budistas faziam grande vigília em protesto contra a repressão do governo chinês ao Tibete.
Se todos os 11 dias de trekking fossem como o primeiro, não precisaríamos dos porters. A caminhada foi leve, seguindo o curso de um rio que cortava uma paisagem muito verde. A temperatura, naquela primavera no Nepal, raramente tinha mínimas negativas (frio de verdade fez na noite épica da chegada ao ABC). Interessante notar que, como previsto pelos guias, houve uma divisão espontânea do grupo, que formou três pelotões de acordo com o ritmo de cada um. Mesmo eu sendo uma das mais jovens, alguns anos de sedentarismo me jogaram no fundão, junto com Daniela Neves, uma pernambucana em sua primeira viagem ao exterior, e o casal Claudia e Rafael Costa. No fim do dia percebi que o sol na cabeça seria o inimigo a evitar. Jota havia dito para eu "encontrar meu ritmo" e mantê-lo, "por mais devagar que eu fosse". Parecia o "procure o seu ponto" que Don Juan diz ao jovem Carlos Castañeda nas linhas iniciais do conhecido livro A Erva do Diabo, mas a dica foi útil. O que ele não queria é que eu ficasse ofegante. Mais útil ainda foi outro conselho, da amiga Gabriela Aguerre, redatorachefe da VT, de jamais olhar para cima - e assim me privar de ver as intermináveis escadarias da Penha que se sucediam no caminho.
Na manhã do segundo dia saímos da vila de Tikhedhunga, a 1 540 metros de altitude, com o objetivo de chegar a Ghorepani, a 2 860 metros, um dos trechos mais puxados da caminhada. A paisagem verde tornou-se rosa, o rosa da fl or que cai dos grandes rododendros. E dá-lhe escadas esculpidas nas montanhas, que são o caminho natural entre os povoados da região. Quando encontrávamos os locais - velhos, homens, mulheres e crianças - em seu trabalho perpétuo de arar a terra e transportar lenha e comida em cestas penduradas às costas, recebíamos sempre o cumprimento tradicional: "Namastê!" Eles vivem num lugar onde não há televisão, a energia elétrica é rara e as estradas são as mesmas trilhas que enfrentávamos. Dormir em Ghorepani é estratégico. Trata-se do abrigo mais próximo a Poon Hill, o mirante a 3 210 metros com vista total para o conjunto das montanhas descomunais do santuário. Embora eu não tenha percorrido o mundo todo, posso garantir que poucas paisagens no planeta se devem comparar àquela, com as montanhas do Himalaia, brancas e opressivas. É verdade que a hora, hora e meia de caminhada até o mirante foi puxadíssima, e fez-me perguntar algumas vezes por que diabos mesmo eu estava ali. Mas, sem dúvida, foi um dos grandes momentos da viagem.
Após alguns dias de cordilheira, você aprende suas regras. Uma delas irrita: subir, subir, subir para depois descer, descer, descer. Do terceiro dia em diante alternamos subidas com vales muito profundos, o que fez com que sentíssemos bastante os joelhos. Pior se passou com Toni, o guia, que se viu obrigado a abandonar a jornada e ficar nos esperarando num lodge. Amor-próprio e Novalgina não foram sufi cientes para derrotar a gripe contraída no Brasil. Já era o quinto dia, e àquela altura tudo já estava bem diferente. As tardes, mais frias, e eu e todos os outros, mais cansados.
Por sorte, conjunção astral ou quem sabe por força das orações feitas a Buda (os 10% da população nepalesa que são budistas deixam bandeirinhas coloridas na paisagem como prova de devoção), as pessoas que saíram do Brasil sem se conhecer direito agora haviam desenvolvido uma solidariedade impressionante, e isso nos ajudava a prosseguir. É verdade que não tínhamos esbarrado com nenhum perigo, perigo mesmo - como a avalanche que matou um grupo de japoneses na chegada ao ABC em 2006. Com a desistência de Toni, e depois de Daniela e Claudia, minhas companheiras do fundão, meu pelotão agora era o de uma mulher só: eu mesma.
A paisagem muda muito nos arredores do acampamento-base, com vegetação rasteira e as montanhas agora mil vezes mais próximas, como se alguém houvesse apertado o zoom. Embora menos íngremes que nos outros dias, vencer as subidas a quase 4 mil metros de altitude fica bem mais difícil (Maradona e seus meninos que o digam, naquela derrota humilhante da Argentina para a Bolívia, em La Paz, em abril). Minha solidão no pelotão final havia deixado Jota apreensivo. Mais de uma vez ele me perguntou se eu queria prosseguir. A partir daquele ponto já não surgiriam lodges para me abrigar. Se eu continuasse, teria de ir até o fi m. "Daqui para a frente é neve, altitude, talvez chuva, e você vai precisar andar mais rápido." Passaram pela minha cabeça as histórias que Toni me contou na primeira noite do trekking, relatos de alpinistas que, alucinados pelo desafi o da escalada, sucumbiram não à montanha, mas a si próprios. "Em geral é o ego que não deixa o cara desistir. Mesmo quando não há condições de continuar", dissera nosso guia combalido. Com tudo isso, eu me perguntei: deveria desistir do ABC? Não. Não, mesmo. Sentia-me bem, um pouco ansiosa, mas totalmente segura.
Ainda caminhamos por mais uma hora e meia até o ABC, tempo que passei olhando só para meus pés, que seguiam, passinho por passinho, no ritmo justo para não me deixar ofegante. Em alguns momentos encarei a imensidão aterradora do paredão de neve que corria ao lado, mas logo voltava os olhos para baixo. Só levantei a cabeça quando alguém disse que já era possível avistar a placa "Welcome to Annapurna Base Camp".
Para nossa surpresa e alegria, no finzinho da tarde a névoa bateu em retirada e os maiores picos do mundo ficaram iluminados pelo sol. Dormimos apenas uma noite no acampamento e depois passamos outros quatro dias caminhando para voltar a Pokhara, a cidade que nos apresentou ao Himalaia. Foram dias com um gosto bom e fresco de missão cumprida. E que passaram como aquelas cenas em fade out, no cinema, desaparecendo lentamente, sem deixar grandes lembranças, bem diferente dos dias na ida e do momento da chegada. Se voltei transformada? Posso dizer que voltei com um imenso orgulho de mim.
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Por: Ludmila Vilar |
Foto: Eye Ubiquitous/Corbis
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