Há um punhado de razões para preferir o trem noturno ao avião entre a capital francesa e a cidade das gôndolas. Companhias low-cost como EasyJet (easyjet.com) e Ryanair (ryanair.com) oferecem o trecho desde 32 euros. Apesar de parecer uma barganha, a oferta tem diversos poréns. Em primeiro lugar, é preciso reservar com dois meses de antecedência para conseguir um lugar pelo valor mais baixo. Além disso, como os aeroportos estão na periferia, tanto no caso de Paris como no de Veneza, devem-se calcular pelo menos 20 euros por pessoa para o transporte. E, se são cerca de duas horas de voo, estime que perderá mais de três para chegar ao aeroporto, aguardar o embarque, decolar, pousar...
De trem, as tarifas mais baratas custam 25 euros, e a passagem para a primeira classe começa em 55 euros. Ok, também é preciso reservar pela internet com antecedência para garantir a pechincha. A companhia de trem que faz o trajeto é a Artesia (artesia.eu), um consórcio entre a empresa que gere as ferrovias italianas, a Trenitália, e a francesa SNCF. São mais de 12 horas de viagem, mas passa-se boa parte desse tempo dormindo e, ainda por cima, economiza-se uma diária de hotel. Sem contar o charme. Pode-se ver o pôr do sol às margens do Rio Sena e o amanhecer de frente para o Canal Grande. E, entre uma coisa e outra, sonhar com os picos nevados dos Alpes, que devem passar pela janela do trem enquanto você dorme. O programa é perfeito para casais apaixonados, mochileiros e turmas de amigos.
Depois de um fim de tarde no leste de Paris, área da recém-inaugurada Ponte Simone de Beauvoir, da Biblioteca François Mitterrand (Quai François-Mauriac, metrô Bibliothèque ou Quai de la Gare, 33-1/5379-5959), embarquei em Bercy (48 bis, Boulevard de Bercy, metrô Bercy, 33-8/9235-3535) pouco depois das 7 da noite. Não espere a pompa nem a arquitetura metálica das estações de trem construídas em meados do século 19, como a Gare de Lyon. A estação Bercy foi feita nos anos 1970, é pequena e quadradona. Seus pontos positivos: por oferecer poucos trens, não vive abarrotada; além disso, é térrea e prática.
Importante: antes de entrar no trem, você preciso "compostar" sua passagem. Nas plataformas, há postes amarelos em que você deve introduzir o bilhete para que ele seja validado. As cabines de segunda classe acomodam seis passageiros. No início da viagem, ocupam-se dois sofás, um de frente para o outro. As primeiras duas horas são de conversa, leitura e lanche. No vagão-restaurante, o menu com entrada, prato principal, acompanhamento, sobremesa e frutas custa 28 euros. Na lanchonete, os panini (sanduíches prensados) saem por 4,10 euros. Quem preferir pode levar seu próprio piquenique para comer na cabine. A companhia de trem oferece garrafas de água mineral, lençóis e travesseiros. Deu vontade de se deitar? Momento de propor aos companheiros de cabine a transformação da "sala de visitas" em "quarto". O encosto do sofá se torna a cama do meio do "treliche". Conselho para claustrofóbicos: na hora de comprar a passagem, escolha a cama de cima, mais tranquila.
Perto das 10 da noite, o controlador do trem bate na porta. É preciso entregar-lhe passaportes e passagens para que sejam apresentados à polícia de fronteira. De manhã ele devolve tudo. Melhor trancar a cabine e manter objetos de valor por perto. Vez ou outra espertinhos aproveitam a calada da noite para confiscar carteiras e máquinas fotográficas.
Dei a maior sorte. Na ida, a cabine estava vazia e até lembrava a primeira classe do casal cinematográfico, que tem vagas para duas ou três pessoas. Na volta, éramos seis, como na novela. Mas todos dormimos bem, principalmente o senhor que roncava na cama de baixo. Sim, é uma boa ideia carregar aquela espuminha para colocar no ouvido.
O melhor da viagem começa de manhã. Ver os primeiros raios de sol sobre os campos, já em terras italianas, é o máximo. Se seus companheiros de cabine estiverem dormindo com a cortina fechada, saia discretamente, vá para o vagão-restaurante e aproveite para tomar um café (€ 1,50) admirando a paisagem. Ainda mais inesquecível é chegar à estação Santa Lucia (39-041/529-8727), em Veneza, por volta das 9 horas. Assim que se põem os pés para fora do vagão, ouvem-se pessoas falando alto, música, gritaria. O silêncio francês ficou para trás. Estamos na Itália! Basta descer um lance de escada para deparar com o Canal Grande, principal artéria da cidade. Em Veneza, não circulam carros - apenas pedestres, gôndolas e vaporetti, um tipo de balsa que faz a ligação entre os principais pontos turísticos.
É grave chegar a Veneza sem reserva em nenhum hotel. Mas que se atire da primeira gôndola quem nunca cometeu um erro desse quilate. Se esse for seu caso, deixe a mala no guarda- volumes da estação (€ 3,80 pelas cinco primeiras horas) e vá descobrir a cidade. Há muito que fazer em Veneza, mas o ponto de partida deve ser a Basilica di San Marco. Durante séculos, Veneza foi a principal porta de comunicação do Ocidente com o Oriente, e a arquitetura dessa igreja reflete essa mistura de estilos. Muito do que se vê hoje foi erguido no século 11. Repare na fachada, com belos mosaicos do século 17. Outro passeio imperdível é o Palazzo Ducale, antiga residência oficial dos doges, os governantes de Veneza. Foi construído no século 9 para só mais tarde ganhar ares góticos. É lindíssimo - preste atenção nos detalhes da Porta della Carta, do século 15.
Nada, porém, tem mais a cara da cidade do que passear de gôndola pelos canais. Não é um passeio barato, mas vale cada centavo. O melhor é fazer o tour organizado pela Instituzione pela Conservacione de la Gondola (528-5075, gondolavenezia.it; desde € 80). Dura 50 minutos, e cada gôndola comporta no máximo seis pessoas. Depois de um passeio desses, você nem vai se importar em ter de voltar para o trem no mesmo dia: a lembrança dos sons e das imagens dos canais de Veneza embalará seu sono durante a volta para Paris.
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