Não é por acaso que Bariloche causa esse frisson nos turistas logo à primeira vista. Além de ser linda por si só, a cidade argentina costuma receber muitos brasileiros que, na maior parte, estão indo para fazer sua estreia na neve. Todo o deslumbre (e até um certo frio na barriga) é compreensível para nós que temos, praticamente, sol e praia no DNA. É como uma iniciação num mundo desconhecido: há o esqui, as roupas térmicas gigantescas e o susto de sentir na pele que é impossível sair à rua sem luva nem cachecol. Para alguns, o cenário pode parecer desolador - quem seria o louco de pagar para passar frio? No entanto, cerca de 50 mil brasileiros parecem não concordar com tal tipo de pensamento. Esse foi o número de visitantes que desembarcaram por lá apenas entre julho e agosto de 2008, no auge do inverno. Quase na fronteira com o Chile, na província de Río Negro, Bariloche é a porta de entrada para a Patagônia, a região mais fria do continente. O movimento tornou-se tão intenso que até um consulado brasileiro vai funcionar ali de junho até setembro - com a possibilidade de instalar-se permanentemente. O senhor eufórico do avião, Roberto Gomes, de 63 anos, era um desses turistas. A bordo de um dos 60 voos fretados que funcionam apenas na temporada, ele estava a caminho de Bariloche para realizar um sonho de infância: ver neve. "Eu sempre assistia nos filmes àqueles flocos caindo, com as ruas todas brancas, sabe?", contou-me sem tirar os olhos da janela. "Antes esse tipo de viagem era inacessível, e só agora pude realizar esse sonho." Para muitos como ele, os flocos gelados não se resumem a um fenômeno meteorológico: trata-se do motivo da viagem.
Lugares com neve não faltam no mundo. Mas Bariloche tem um conjunto de facilidades que a tornam irresistível para os brasileiros que sonham ver de perto tudo branquinho. Se formos levar em conta detalhes técnicos, ela está mais próxima de avião de São Paulo - a apenas três horas e meia em voo direto - do que, por exemplo, Fortaleza em relação à capital paulista (o que dá quatro horas de viagem). Os preços dos pacotes também não desapontam: os de sete noites começam em cerca de 1 000 dólares - mais barato do que ficar num resort. Fora isso, os locais parecem nos adorar e recebem os brasileiros de um jeito muito acolhedor. As pessoas querem saber se somos de "San Pablo", contam sobre suas viagens a Balneário Camboriú e querem dicas de aonde ir no Nordeste. A língua que impera é o portunhol, e elas, gentilmente, também se esforçam para entender mímicas. Não é difícil encontrar lojas ou restaurantes que aceitem pagamento em reais (o único porém é que o vuelto, o troco, vem em pesos e com a conversão ali-e-agora no caixa do estabelecimento). Portanto, se o ditado "aqui se faz, aqui se paga" tiver valia, dá para entender por que Bariloche ganha há seis anos o Prêmio VT como a melhor estação de esqui - e ainda abocanhou o décimo lugar na categoria de melhor cidade no exterior, ao lado das hors-concours Nova York e Paris.
A primeira coisa em que reparar é a paisagem espetacular. Enquanto todo mundo bate na tecla da neve, a gente esquece da beleza fotogênica de cartão-postal que vai encontrar: os lagos reluzentes abraçados pelas montanhas e, de quebra, emoldurados por um céu incrivelmente azul. Por lá, tudo é muito e grandioso. Para ter uma ideia da imponência do Lago Nahuel Huapi, o mais importante da cidade, de tão grande, nele caberiam três Buenos Aires.
Sentir-se à vontade em Bariloche também é fácil. Para se localizar, basta focar em três pólos principais. No centro, ficam a rua principal, a Calle Mitre, e suas transversais, onde se concentra a maioria dos hotéis, das lojas, das chocolaterias e dos restaurantes. Mais adiante, margeando a cidade ao longo de seus mais de 20 quilômetros, a Avenida Bustillo, a mais importante artéria local, está aos pés das montanhas, que ficam enfeitadas de hotéis de luxo. Pegando um desvio dela, na altura do km 8,5, chega-se ao Cerro Catedral (54-2944/409-000, catedralaltapatagonia.com), a maior estação de esqui da América do Sul, com 120 quilômetros de pistas esquiáveis divididas em 56 vias.
Mesmo quem não vai para esquiar acaba se impressionando com o Catedral. Na base da montanha há uma vilazinha que é quase um mundo autossuficiente funcionando no meio do gelo: tem escolas, lojas de equipamentos de esqui e restô-bares, como o descoladíssimo Mute, reduto da high society portenha em que rola um animado après ski, e o aconchegante Ski Ranch, que serve de sopas a hambúrgueres. Há ainda hotéis e até um minishopping, o La Terraza. Em dias de pico, circulam por ali cerca de 15 mil pessoas. Por todo lado veem-se grupos de excursão, jovens snowboarders, criancinhas encapotadas. Para elas, então, tudo vira motivo de festa. Lilla Lescher, de 9 anos, logo ao descer do ônibus gritava de felicidade: "Mãe, eu tô na neve! Na NE-VE!" E foi só encontrar um montinho dela que Lilla se atirou de costas no chão e começou a abrir e fechar os braços e as pernas, como para-brisa de carro - aliás, parece até que a meninada combina de fazer essa brincadeira de "anjinho". Já os pedestres contam com um ski lift especial, o cable carril. Dá para ir almoçar no agitado Refugio Lynch, a 2 mil metros de altitude, e curtir o mesmo visual que têm os esquiadores experientes.
Se você nunca esquiou, fique tranquilo, pois os aprendizes são a maioria. As aulas ocorrem na encosta da base, e ficar assistindo (ou participar, claro) é uma diversão à parte. O treino parece comédia pastelão, com o festival de tombos e quase-tombos dos alunos. Por isso, antes de se empolgar e pagar por um ski pass (o ingresso para subir até as pistas) de uma semana, tenha consciência de que o esqui não é um esporte exatamente fácil: as botas apertam os pés, é preciso ter boa dose de equilíbrio e força nas pernas e, dependendo do caso, até vencer o medo de altura. Por isso, vá com calma. A probabilidade de você nunca mais querer ver um par de esquis pela frente, depois da primeira aula, são grandes - embora a delícia de sentir o ventinho gelado contra o rosto, quando você consegue deslizar, seja impagável.
Não precisa desanimar. O que torna Bariloche um destino de esqui amigável em especial para aqueles sem experiência no esporte é o fato de que ela vai muito além disso. Não faltam atrações off-ski para os mais diferentes públicos. Como Bariloche fica dentro do Parque Nacional Nahuel Huapi, o mais antigo do país, boa parte das atividades é ao ar livre, em meio a bosques, em trilhas na montanha ou navegando pelos lagos da região. O Refugio Neumeyer, por exemplo, afastado 40 minutos do centro de Bariloche, fica num
belíssimo e silencioso bosque. Enquanto os visitantes praticam esqui de fundo (uma modalidade mais fácil do esporte em que os pés não ficam 100% presos aos esquis) ou fazem caminhadas, os pica-paus tranquilamente constroem seus ninhos nas árvores. Já o complexo de Piedras Blancas é o lugar para praticar esquibunda. Parece coisa de criança, mas todo mundo se diverte deslizando pelas pistas sentado numa espécie de trenó individual. A brincadeira torna-se mais engraçada quando, nas curvas, as pessoas derrapam e acabam de cara na neve. E elas ficam lá mesmo, estiradas no chão, rindo da situação. Sensacional. Outro passeio clássico é o percurso de catamarã pelo Lago Nahuel Huapi até a Isla Victoria e o Bosque de Arrayanes. A primeira parada é em uma ilha de 4 mil hectares onde há um bosque de coníferas com sequoias, pinheiros, ciprestes. O outro local trata-se de uma península em que crescem os arrayanes, uma árvore rara. A floresta chama atenção pela abundância dos troncos longos e em tons de caramelo. Corre a história de que Walt Disney teria se inspirado ali para conceber o bosque de Bambi. Não passa de boato, pois o diretor só esteve no local em 1941, depois de o filme ter sido produzido, porém a semelhança com a floresta do desenho animado é imensa.
Depois de tantas atividades, a tradição em Bariloche é seguir para alguma chocolateria. Tal como o alfajor em Buenos Aires, o chocolate, em todas as suas formas possíveis e imagináveis (bombons, trufas, em "ramas"), é um dos mais famosos símbolos locais. Dá para perceber que é algo importante quando se vê ali um museu exclusivo sobre a iguaria. O Museo del Chocolate (Avenida Bustillo, km 1,8; tours guiados) pertence à Fenoglio, uma das mais antigas fábricas de chocolate artesanal da Argentina.
A história da empresa, fundada por um casal de imigrantes italianos em 1947, confunde-se com a da própria cidade. Aldo e Inés Fenoglio encontraram nesse pedaço da América do Sul a chance de recomeçar a vida no pós-guerra. E Bariloche, que era uma pequena vila incrustada nas montanhas a 700 metros de altitude, teve sua oportunidade de crescer com a chegada dos vários europeus desde o começo do século 20. Como o clima local era similar ao de Turim, a terra natal de Aldo e Inés, eles aproveitaram para fazer o que mais sabiam: chocolate. Hoje a empresa é uma das líderes na produção do doce no país e fornece, inclusive, o chocolate utilizado nos produtos da rede Havanna. E foi devorando uma caixa de trufas com recheio de doce de leite, sentada próximo à janela do avião, que me despedi de Bariloche numa tarde de sábado de céu azul. Com boa dose de endorfi na circulando pelo sangue, olhei para os lados à procura de Roberto Gomes, mas não o encontrei . Eu queria saber se, depois de uma semana na cidade, ele ainda achava que a paisagem parecia um dálmata de pintinhas. Para mim, sem dúvida, continuava um pote gigantesco de sorvete de flocos...
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