No anedotário de minha família há a história de uns tios-avós que, em plena Segunda Guerra Mundial, com a navegação suspensa e a gasolina proibida aos carros de passeio, enfrentaram as mais que precárias estradas da época em um carro movido ao malcheiroso e pouco produtivo gasogênio só para visitar Buenos Aires. Não é raro encontrar sinais dessa época. Com um sorvete de doce de leite na mão (podem não ter o melhor futebol do mundo, mas ninguém tira dos argentinos a Copa Mundial do Doce de Leite), saindo da sorveteria Un'Altra Volta, leio uma placa que diz que, no mesmo prédio (esquina da Quintana com a Ayacucho), morou nos anos 1940, exilado da ditadura franquista, o filósofo espanhol Ortega y Gasset. Ele foi apenas um entre inúmeros notáveis que por lá viveram.
Mas o que nos atrai tanto em Buenos Aires? Ok, há a arquitetura que nos lembra Paris e Madri, as livrarias que deixam qualquer um que goste de livros numa ansiedade atroz, os cafés - há 35 mil deles, segundo estatística de 2006 feita pelo jornal El Clarín -, a vida noturna animada, os senhores e as senhoras elegantes tomando seu chá da tarde, os motoristas de táxi politizados e cultos, as galerias de arte, os cinemas, os teatros, o Malba e o Museu de Arte Decorativo, sempre com excelentes exposições temporárias num magnífico palácio patrício, e outros palácios, como o Pereda, onde fica a embaixada brasileira (só comparável ao Ortiz Basualdo, da vizinha francesa), e ainda o Paz e o Anchorena, na Praça San Martín - sem falar dos três seguidos na Avenida Alvear: um transformado no superchique Hyatt, outro na embaixada da Santa Sé e o terceiro, talvez o mais bonito deles, eternamente fechado e às escuras.
Poucas cidades no mundo são tão agradáveis e seguras para andar a esmo (será que é isso, então?). Além dos circuitos conhecidos - nem por isso menos interessantes - estão os bairros residenciais, com boa arquitetura e muito verde. Vale a pena perambular pelas ruas atrás do Cemitério da Recoleta, por exemplo, rodeadas de praças, árvores centenárias e pequenos prédios ultrachiques. Ou atrás do Malba, outro pequeno oásis verde, em que mora boa parte do quem-é-quem na cidade. Um pouco mais longe, mas a não mais que 20 minutos de táxi, fica Belgrano R, com uma ilha-jardim das mais bonitas que já vi, e casas de um bom gosto único e discreto.
Isso sem falar nos restaurantes diferentes que nos fazem repensar na verdadeira vocação de Buenos Aires para as carnes; nos hotéis charmosos e descolados (e por menos de 180 dólares a diária); em tudo o que Palermo Viejo (ou Palermo Soho, para os mais descolados locais) tem de novo a cada estação; nos museus que enriquecem a vida da cidade.
Na verdade, o que nos faz voltar sempre é a capacidade que ela tem de se reinventar, de se transformar, sem no entanto perder sua essência, sua alma. Talvez esse seja o segredo mais bem guardado de Buenos Aires, que, como tantas outras metrópoles do mundo, nunca sai de moda e sempre atrai viajantes do mundo todo - afinal, os brasileiros podemos ser os mais fiéis e constantes, mas não somos os únicos.
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