Os garçons, de colete e gravata-borboleta, descansam com os braços para trás. Tudo está perfeito - tirando o fato de que não há um único cliente. Durante um dia inteiro eles aguardaram, com sua carta de vinhos, com seu risoto de funghi, com suas toalhas xadrez, e ninguém veio. Na mesma rua, a Borges de Medeiros, na mesma hora do almoço, um estabelecimento mais modesto tem as janelas embaçadas, tamanho o número de clientes. É um rodízio de comida alemã a preço módico.
A cidade que há 50 anos vive do turismo alcançou em 2008 o posto de destino de inverno mais procurado do Brasil, de acordo com uma pesquisa de voto popular no site do Ministério do Turismo. Ultrapassou Campos do Jordão, em São Paulo, e as estâncias da Serra Fluminense. Gramado também é o destino de serra mais bem votado no Prêmio O Melhor de VT desde a primeira edição, em 2001. Praticamente todos os seus 33 mil habitantes vivem do turismo - números oficiais dão conta de que 90% da economia local é movimentada por essa atividade. Só em 2008, Gramado recebeu 2,5 milhões de turistas, segundo dados da prefeitura. São 130 hotéis e uma centena de restaurantes. Da última vez que alguém contou, eram 10 726 leitos nos hotéis e 11 195 cadeiras à disposição para almoços e jantares. Para a temporada de 2009, que se inicia neste mês, Gramado prepara não só a maior estrutura de sua história. Elabora também uma revolução propagandística. "Queremos vender Gramado como um artigo de luxo, com gastronomia e hospedagem classe A", diz Gilberto Tomasini, secretário de Turismo do município. Segundo ele, ninguém precisa sair do Brasil para ver a Europa chique. O primeiro símbolo da transformação é o projeto Gramado Glamour, lançado em São Paulo (com a presença do indefectível Amaury Jr.). Esse projeto prevê a inauguração, neste mês, de um complexo que abrigará grifes caras. Mas a imagem de turismo "classe A" vai contra o fluxo tradicional de viajantes que definiu a cidade? Ou se encaixa perfeitamente em sua história? De toda forma, o desejado upgrade ainda não passa de um projeto.
Gramado é um lugar cunhado para o turismo. O centro, onde circulam milhares de pessoas diariamente, parece não passar de um modesto cruzamento de avenidas. É muito mais. Uma delas, a Borges de Medeiros, é uma grande vitrine, e entre suas lojas e restaurantes não há um elo fraco que destoe. Guarnecendo as calçadas de cor clara, sempre muito limpas, há a presença contínua do bordo, árvore originária da Ásia, cujas folhas ficam vermelhas antes de cair. Já a Avenida das Hortênsias tem uma vocação mais grandiloquente. Ela concentra lojas e hotéis de maior porte e as casas noturnas e dá acesso a alguns parques. Nas duas avenidas impera a arquitetura bávara, de tijolos aparentes e telhados com franjas de madeira trabalhada - uma experiência visual e tanto para quem encara a paisagem pela primeira vez. Não parece Brasil. De tão impressionadas, algumas pessoas tiram fotos até ao lado de agência bancária - só pela surpresa de ver o banco de sempre envelopado nessa arquitetura.
Sem o frio, o "clima europeu" não faria sentido. Há até a suspeita de que certos termômetros sejam "viciados". Uma observação rápida revela que alguns registram temperaturas 2 ou 3 graus abaixo de outros menos aparentes. O assunto preferido na cidade é a apoteose desse frio: a raríssima neve brasileira. Alguns palpitam que não é o frio que a traz, mas a falta de vento. Há até uma corrente que crê na elevação da temperatura como elemento climático decisivo para seu aparecimento. Desde uma nevasca em 1994, que fechou as estradas e embranqueceu a paisagem, qualquer precipitação é motivo para comemorar. No Natal, alguns hotéis e parques até encomendam neve artificial. O aposentado Vasco Orlandi, que visita os bancos da praça com seus amigos diariamente, é um defensor inexorável do frio. "Embora não faça bem para mim e meus amigos, o frio é a vitamina de Gramado", diz. "Já vi gente ir à igreja rezar para fazer frio."Enquanto estive em Gramado, caiu do céu por alguns segundos algo que os locais definiram como neve. Estava mais para uma geada com cristais miúdos, mas este repórter sentiu um leve arrepio, como se estivesse prestes a participar de um momento histórico. Que não veio. Frio e Gramado parecem mesmo indissociáveis. O curioso é que a cidade não floresceu para o turismo como destino de inverno. Gramado foi descoberta por porto-alegrenses que fugiam do verão inclemente na Baixada Gaúcha.
Mais curioso ainda é saber que a cidade não foi fundada por italianos e alemães, mas sim por habitantes de uma pequena ilha no Atlântico, antiga colônia de Portugal. Os açorianos criavam gado no Sul durante o século 17. Com os anos, a curiosidade os levou a descobrir um vale no coração da Serra Gaúcha. Apareceu então uma primeira invernada - o curral em que viajantes trocavam suas montarias - onde passa a Avenida Borges de Medeiros. Ali surgiu um frágil meio urbano, que atraiu alemães e italianos. Com o passar das gerações, os imigrantes europeus foram chegando mais perto e expulsaram os açorianos, dos quais só restou a fascinação local pelos caminhos de hortênsias. O passo seguinte foi impor seus gostos arquitetônicos, como o estilo bávaro de construção e o enxaimel - algo que desde 1999 a prefeitura requer no projeto de qualquer nova construção. Nos verões da década de 1920, com a inauguração da linha férrea, Gramado era cotejada por turistas em busca daquele que, no boca-a-boca, já era considerado um pedaço da Europa incrustado no Brasil. Assim, a vila de imigrantes era povoada pelos moradores da cidade grande.
Com seus baús vinham revoluções comportamentais - uma progressão que ocorreu em marcos como o primeiro Festival de Cinema de Gramado, em 1973, que trouxe representantes do movimento hippie para a pacata vila de colonos. O bonito de Gramado é que os velhos donos da terra não desapareceram - são, na verdade, os sustentadores da gastronomia local, com a produção da matéria-prima de bares e restaurantes. Vêm deles o milho para as polentas na chapa, o frango que vira galeto ao primo canto, a abóbora e o trigo que resultam nos tortelli típicos de Gramado. Ainda hoje os colonos circulam pelas ruas centrais. Quando andam por entre os turistas, são um resquício do tempo, como se houvesse um defeito na paisagem.
Vê-los em seu elemento natural é mais harmonioso. O roteiro Raízes Coloniais, que sai da rodoviária de Gramado, leva até algumas propriedades rurais, com passeios estruturados e seguros. São casas de madeira com réguas verticais, escoras preenchidas por tijolos feitos a mão e assados um a um no forno da família. A maioria tem mais de 100 anos. Só o assentamento da base das casas, feito com um tipo de rocha lascada chamado de pedra-ferro, podia demorar três anos. A principal atração do passeio é o moinho da família Cavichon. Um feliz forasteiro nesse roteiro de raízes é o paranaense Renato Boddy, dono do bucólico restaurante Cantina 28. Ele e Clara, sua mulher, arrendaram metade de um sítio para vender polenta. No pátio do restaurante há pinheiros, um riacho, ovelhas e a vinícola de Nobile Conte, dono da propriedade. Boddy fica por ali, trocando copos de lugar, balançando sua barriga de homem próspero. Mas é Conte quem faz o papel de showman. Descendente de italianos que, segundo Boddy, há pelo menos uma década tem 77 anos, ele brota dos lugares mais improváveis, sempre com uma garrafa na mão. "O Conte faz os venenos lá no porão dele e depois traz para a gente provar", diz. Este repórter, prevendo confusão, pede a Boddy uma crítica sobre o vinho branco produzido por Conte. Boddy faz o melhor elogio que consegue: "É um vinho produzido honestamente". O velho muda de assunto: passa a falar de seu destilado de kiwi. "Usei 400 quilos de fruta para conseguir 8 litros. É o destilado mais caro do mundo". Provo o destilado, que revela um leve gosto de desinfetante. É bom saber que, procurando, Gramado consegue esses peque nos momentos de diversão improvável.
Ultimamente, entretanto, há pouco espaço para o improviso. Nas escolas da rede pública, os alunos têm aulas de turismo uma vez por semana. "Precisamos falar com eles agora, antes que estejam cheios de piercings e tatuagens", diz Regina Berwanger, diretora da Escola Henrique Bertolucci. Ali eles aprendem noções básicas do funcionamento de um hotel e a história da cidade. O aluno Ademar, de 15 anos, trouxe as anotações pedidas pela professora. Acanhado, debruça-se sobre a folha pautada cheia de garranchos. Ele quer trabalhar com turismo? Acha que preferiria ser mecânico, mas toparia um emprego numa recepção.
Gramado é, a bem da verdade, a locomotiva que puxa para a frente os outros destinos da Serra Gaúcha. Faz as vezes de quartel-general para quem deseja explorar a região. Seus destinos clássicos estão sempre em grande forma. O Lago Negro, com seus pedalinhos de cisne e seus pinheiros trazidos da Europa, é romântico por vocação. Como quase tudo em Gramado, é artificial (foi criado em 1957 para ajudar a vender condomínios) - embora seja postiço há tanto tempo que o passar dos anos lhe emprestou certa legitimidade. O Mini Mundo é sucesso com a criançada. Trata-se de uma espécie de Alemanha portátil, com miniaturas de prédios e castelos.
Para justificar todo o amor que recebe do turista brasileiro, Gramado prepara-se para ser ainda melhor. O calendário de festividades para datas importantes - Páscoa, Festival de Cinema, Natal - foi estendido. A Páscoa de Gramado dura um mês, e o Natal se estende por 65 dias. Há disseminado entre os empresários locais um sentimento de que a próxima fronteira é segurar os turistas por mais tempo. Para isso, a iniciativa privada investe em novos parques. Recentemente foi inaugurado o Gramadozoo, com espécies brasileiras ameaçadas de extinção, como o lobo-guará e a onça-pintada. O Alpen Park, que tem arvorismo e um trenó sobre trilhos, acaba de inaugurar um cinema em 4D. Para este mês, embaixadas do turismo serão montadas na Rua Coberta, na Praça das Comunicações e no Lago Negro. Lá acontecerão oficinas gratuitas de fotografia, moda, rapel e golfe, entre outras. Quem gosta de pedalar pode pegar emprestados uma bicicleta e um MP3 player. "Construa e eles virão", como foi dito no filme Campo dos Sonhos. Se tudo der certo, as tradições coloniais em breve coexistirão com o consumo de luxo - e a cidade estenderá ainda mais o alcance de seus apelos.
Esta reportagem foi paga pela VIAGEM E TURISMO. Nós não aceitamos convites ou cortesias. Confie no que você lê na VT
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