Exceto por mochileiros, pataxós e pelo finado deputado federal Ulysses Guimarães, que veraneava na fazenda de coco de 2 quilômetros de seu dileto Renato Archer - propriedade que se tornaria a Pousada São Francisco -, Corumbau é, ou era, uma ilustre desconhecida no hiperesquadrinhado sul baiano. Esqueça os ravers de Trancoso, os moleques israelenses de Itacaré, os garanhões italianos de Morro de São Paulo. Com o Monte Pascoal por trás, Corumbau não mudou muito desde as caravelas. Nos limites de um parque nacional e com sua ponta de areia a avançar Atlântico adentro, o lugar segue muito pacato e preservado.
E foi exatamente essa reclusão que atraiu as pousadas seletas e o público que as frequenta. As três pousadas-butique de Corumbau tornaram-se a tradução local, divulgada mundo afora em revistas de turismo e bem-viver. Ali a gastronomia é levada a sério, os lençóis são de algodão egípcio, os roupões, Trousseau, e a água de coco vem de fornecimento ilimitado dos quintais. A São Francisco, com seus 2 quilômetros pé-na areia, iniciou os trabalhos em 2000, mas foi em 2004, com novo proprietário e projeto do arquiteto Roberto Migotto, que ganhou a cara de hoje, com muita madeira teca, espreguiçadeiras com almofadas coloridas e bangalôs-latifúndio de 150 metros quadrados. A linda piscina é iluminada à noite por velas e, na sala de estar, livros de fotografia de Pierre Verger dividem a mesa com revistas estrangeiras. Mas a São Francisco é só o começo. Alguns metros adiante, a Vila Naiá, com casas de madeira e passarelas sobre um jardim recheado de bromélias e naiás (tipo de palmeira baixinha), surpreende. Muitos editoriais de moda foram feitos ali, e o superfotógrafo peruano Mario Testino já passou um Réveillon na casa azul. Faz apenas cinco anos que a paulista Renata Mellão, a proprietária, decidiu dividir seu pedaço do paraíso - 200 mil metros quadrados, sendo três quartos deles Reserva Particular do Patrimônio Natural - com poucos hóspedes (20 no máximo). Se do lado de fora as casas lembram moradias de pescadores, espere só para ver o lado de dentro, onde há camas de dossel com mil e um travesseiros, banheiros de design, objetos de decoração e cadeiras de couro nas varandas.
Nada na Vila Naiá tem horário - ou lugar. O café da manhã, por exemplo, pode ser servido no quarto, no restaurante e até na praia, às 8 da manhã ou às 3 da tarde. O que não muda são as delícias: pães feitos ali mesmo, bolos variados (o de maçã é imperdível), tapioca quentinha. Os ingredientes vêm de lá. A mussarela de búfala, de uma fazenda dos arredores; o palmito pupunha, da plantação vizinha; os peixes e frutos do mar, da praia em frente. Para acompanhar, uma bem fornida adega sob supervisão da Enoteca Fasano.
A última novidade de Corumbau investiu ainda mais em isolamento. É preciso vencer cerca de 9 quilômetros desde o centro da vila para chegar. Depois de cruzar uma porteira - e mais outra -, a Tauana se revela. Primeiro, uma varanda com animais de madeira decorativos. Depois, o jardinzão. E as cabanas, um exagero de 130 metros quadrados de onde se vê o mar da própria cama (e com privacidade total). Ali as paredes são de pau a pique; os telhados, de palha de coqueiro; a sala de banho (de quase metade do tamanho da cabana), de cimento queimado. Um par de Havaianas aguarda os hóspedes que quiserem se aventurar num banho sob as estrelas - cada bangalô tem seu chuveiro ao ar livre, além, claro, do interno. Para aproveitar todo aquele visual, as portas, altíssimas, são de vidro. "Percorri de carro milhares de quilômetros de todo o litoral do Nordeste em busca de um lugar que fosse mesmo isolado", diz a dona, a arquiteta portuguesa Ana Catarina Ferreira da Silva. "Este aqui foi o único que me pareceu que não vai mudar tão cedo." Que ela esteja coberta de razão.
BARRA GRANDE
Chegar é difícil. De Salvador, é preciso pegar ferryboat para Itaparica e rodar mais 200 quilômetros até Camamu para aí encarar uma traineira. Ou chegar a Itacaré e atravessar o Rio das Contas em balsa ou canoa - e arrumar uma carona para os próximos 40 quilômetros. Ou então fretar um aviãozinho e descer numa pista particular na Praia de Bombaça. É preciso querer muito estar ali. A recompensa: uma vila de ruas de areia onde o maior programa do dia é a capoeira debaixo do pé de amêndoas, em frente à igrejinha cor-de-rosa; uma natureza quase intocada com cenários de mangue e lagoas; e Taipu de Fora, uma praia linda que, na maré baixa, forma piscinas naturais dignas do Caribe.
Barra Grande, o principal vilarejo da chamada Península do Maraú, tem pousadas de charme e o único resort de toda a região: o Kiaroa, que prega a privacidade como seu maior trunfo - daí os bangalôs com piscina particular. Num terreno de 240 mil metros quadrados há 28 acomodações, uma sala de leitura defronte ao mar e uma lojinha da Osklen. Os novos bangalôs Malinde têm 92 metros quadrados, decoração com temas africanos e jacuzzi na varanda. Das salas de massagem do spa, inaugurado em 2008, ouve-se sempre o barulhinho de água corrente e dos pássaros. A Kiaroa impressiona, mas a última novidade na região é a Denada, com oito bangalôs coloridos de frente para a piscina e o mar. Italianos de Bergamo, Luca e Valentina Castelli chegaram ao Brasil dispostos a ficar de vez. Na Barra Grande, construíram a pousada dos sonhos e hoje cuidam de tudo pessoalmente - e tratam de garantir o melhor expresso da região a qualquer hora do dia ou da noite. Também são eles que preparam desde a prima colazione, o café da manhã (com direito a cappuccino e Nutella), até o jantar, sempre com massas fresquinhas e um bom vinho para acompanhar.
É difícil locomover-se em Barra Grande. Ou você anda quilômetros pela praia ou contrata um 4x4 (ou já chega de moto alugada em Itacaré). Assim, embalar as tardes nas espreguiçadeiras na Praia de Taipu de Fora, descansar o olhar no mar calmo ou simplesmente esperar o sol se pôr colorindo o céu inteiro de vermelho largado nas almofadas de chita do bar Macunaíma, ao lado do píer, ao som de uma música, são luxo só.
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