A linha, famosa (e eternizada na música Trem do Pantanal, de Paulo Simões e Geraldo Roça) por ter integrado o trajeto do Trem da Morte, entre Bauru e Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, ficou quase 20 anos sendo usada apenas para transporte de carga. O projeto para que ela voltasse a ter passageiros a bordo começou em 2007, e a previsão é que até o início de 2011 a viagem se estenda de Miranda a Corumbá. "A primeira barreira que precisamos quebrar é que as pessoas entendam que não se trata de nenhum trem de transporte. É um trem turístico, um passeio", afi rma Adonai Aires de Arruda, presidente da Serra Verde Express, responsável pela operação da linha. Conceito que logo compreendi ao olhar o itinerário recebido com a passagem: a partida é às 7h30, em Campo Grande, e a chegada, às 18 horas, em Miranda.
Para sair da mira do potente ar-condicionado, logo depois do embarque mudei de poltrona. Sem dificuldade, já que metade dos 64 lugares do vagão turístico estava vaga. Ao longo das duas primeiras horas de viagem, pairava um ar de desbravamento entre os passageiros. Os olhares estavam atentos; as câmeras, a postos; todo mundo voltado para as janelas (do lado esquerdo do vagão, por indicação do guia) para avistar animais e admirar a paisagem. Só que o que ninguém ali parecia esperar aconteceu. As horas passaram, e nenhum bicho deu as caras. Não que eu achasse que veria um tamanduá-bandeira, uma onça na beira da estrada de ferro, mas, no mínimo, uma capivara. Nadinha apareceu, e tive um pouco de pena de meus colegas de jornada. Aqueles com quem conversei vieram ao Mato Grosso do Sul apenas para conhecer o Pantanal Express e acreditavam que veriam animais da região durante o percurso. Fizeram o trecho de ida no sábado e voltariam de trem para Campo Grande já no domingo. Ah, sim, como a maioria das 19 linhas turísticas autorizadas a funcionar ao longo da parca malha ferroviária do país, a do Pantanal só opera nos fins de semana e feriados.
Não que o saldo da viagem não seja positivo, ele é. E bastante. São horas agradáveis de papo, de contemplação da paisagem, de riso com os músicos-palhaços que passam pelos vagões fazendo paródias de canções sobre o Pantanal e encenando histórias divertidas. Além de ser emocionante ver a alegria dos moradores das pequenas comunidades por onde o trem passa ao ver aquela máquina apitando e cortando a paisagem. Não com vagões cheios de minério de ferro, e sim de pessoas. Eles correm para nos ver, tiram fotos, e instaura-se um festival de acenos. Mas, como nove entre dez pessoas que vêm ao Pantanal têm como meta de viagem ver a maior parte possível das cerca de 230 espécies de peixes, das 80 de mamíferos, das 50 de répteis e das 650 de aves, ufa!, é decepcionante não ver umazinha sequer. Por que fico condoída do pessoal que voltaria no dia seguinte a Campo Grande e não me incluo no pacote? Eu havia desfrutado do trem e ainda tinha cinco noites de Pantanal a minha espera quando desembarquei em Miranda. O jeito ideal de conhecer a terra de Juma Marruá.
Dividido em 11 sub-regiões, o Pantanal se esparrama pelo Brasil, que concentra 61% da área, pela Bolívia e pelo Paraguai. O ecoturismo começou a profi ssionalizar-se no lugar a partir do fim da década de 1980 e, hoje, as principais pousadas têm quartos bem estruturados, com ar-condicionado e frigobar, guias bilíngues, há canoas, barcos e veículos apropriados para fazer os passeios. Tudo organizado, mas sem perder o ar bucólico, incivilizado, o charme dessas pousadas. Apesar de os guias repetirem que não se pode garantir que os animais vão aparecer durante os passeios - "isto aqui não é zoológico", me disse o dono de uma das pousadas -, não me decepcionei em nenhuma das sete saídas que fiz ao longo de minha estada. É verdade que não entrei para o rol de sortudos que podem se gabar de ter visto uma onça. Mas sobraram jacarés, capivaras, tamanduás, cervos, tatus, queixadas, catetos, lobinhos, macacos bugio, lontras, tuiuiús, araras-azuis, gaviões e diversas outras aves. Os safáris pela Estrada-Parque costumam ser certeiros. O local é excelente para fazer birdwatching - prática que está se disseminando na região e sendo profissionalizada. Se for sua praia, não se esqueça de levar um ótimo binóculo.
Alison e Silvana, dois dos guias que me acompanharam em alguns passeios são formados em biologia. Bruna, outra guia, em veterinária. Com eles aprendi um pouco dos hábitos de diversos pássaros, a reconhecer se estava avistando uma fêmea ou um macho, além do canto de vários deles. E boa parte disso também em inglês, já que eu era a única brasileira hospedada naquela pousada. Só foi difícil engolir que bem-te-vi em inglês, por exemplo, leva o nome de kiskadee e a explicação é que ele tem um canto semelhante a esse som. Bom, em português, ele canta "bem te vi" mesmo. Além dos safáris, os passeios pelos rios são imperdíveis. Em uma canoa canadense, naveguei pelo Rio Abobral cercada de jacarés. Eles fi cam por toda parte. Nas margens, na água ao lado da canoa. No início, o medo foi maior que a vontade de curtir o entorno, mas aos poucos aqueles olhos que passam fitando o barco deixam de assustar tanto. Ao chegarmos de volta à pousada, a guia me perguntou se eu queria ir pescar piranhas. No mesmo Rio Abobral. E eu que
pensei que os jacarés eram o único problema.
A paisagem do Pantanal se transforma ao longo do ano. Ela é uma no período da estiagem, que tem seu auge entre agosto e setembro, e outra no da cheia. A chance de admirar os animais em seu hábitat é maior agora, durante a seca. Isso porque a água se torna escassa e os bichos precisam se aproximar dos rios e das lagoas. O que facilita a apreciação da vida selvagem. Ao fim dos dias de passeios, de contemplação, de sossego, de comida caseira e de cafés da manhã com queijos e pães preparados nas próprias pousadas, chega a hora de voltar.
O ônibus da companhia Andorinha que me levará de volta a Campo Grande, dessa vez em três horas e meia de viagem, atrasa. Para me entreter, observo a venda de minhocuçu (aos meus olhos, minhocas gigantes e nojentas) na beira da BR-262. O ponto é parada de pescadores que estão no rumo de Corumbá e arredores. O atendente do guichê da Andorinha me explica que aquelas são trazidas de Goiás e, por serem melhores que as da região - não estouram com facilidade -, são mais caras e disputadas. Depois de mais de uma hora de atraso, o ônibus chega. Irritada, comento com a menina a meu lado, que também estava à espera dele: "Finalmente". Ela me olha com estranheza. Observo as outras pessoas que, como eu, aguardavam o ônibus, e nenhuma aparenta qualquer sinal de aborrecimento. Parecem acostumados. Trata-se mesmo de um outro ritmo de vida.
Esta reportagem foi paga pela VIAGEM E TURISMO. Nós não aceitamos convites ou cortesias. Confie no que você lê na VT.
Conheça:
Guia Quatro Rodas
| National Geographic Brasil
| Viagem e Turismo
Expediente
| Mapa do site
| Política de privacidade
| Anuncie
| Faleaqui
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados. All rights reserved.
Site melhor visualizado em 1024x768