A senhora sem dentes que faz de sua casa uma pensão em Mistra, cidadezinha histórica na Lacônia, região ao sul da Península do Peloponeso, não poderia estar falando em grego mais claro. Sua ajudante, uma jovem e tímida russa, se esforça para traduzir a este repórter as barganhas da chefe, mas, por conhecer não mais que cinco palavras em inglês, torna a situação ainda mais insólita. Não restando mais alternativa, a dona da pousada improvisada escreve em um papel os números que equivalem ao valor que deseja receber pelo quarto, esperando animadamente uma contrarresposta com o mesmo método.
No fim da "conversa", o retorno a primitivas formas de comunicação acaba funcionando - com ajuda da estranha familiaridade que o gestual e a entonação gregos sugerem a nós, brasileiros -, mas fica difícil esquecer, neste momento, quão remotas podem ser ainda certas partes da Grécia, aonde nem o idioma anglo-saxão chegou direito. E olha que essas zonas contêm diversos focos de beleza impressionante, importância histórica inegável ou ambas as coisas. Logo me lembrei do cachorro que, horas antes, fugira aterrorizado simplesmente por encontrar esta inesperada e solitária presença nas ruínas do teatro da vizinha Esparta.
Involuntariamente, ele estava endossando a constatação de que o Peloponeso merece ter seus muitos segredos descobertos. Como o transporte público é escasso e regular,o melhor jeito é de carro, a partir de Corinto.
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