Ninguém parece mais discutir que em Goiás, bem no centro do país, onde esse diálogo foi travado, não tem mar. A Praia do Cerrado, na verdade a maior piscina de ondas da América Latina, inaugurada no ano passado, conquistou os turistas com sua água doce e quente e suas ondas recomendáveis até para hidrofóbicos. Instalada dentro do Hot Park, a principal atração do Rio Quente Resorts, complexo que há seis anos é o melhor resort de termas e interior do Prêmio VT, a Praia do Cerrado tem ondas programadas que chegam a no máximo 1,20 metro, sempre quebram no mesmo ponto e não põem medo em ninguém. Elas funcionam por meia hora - e "descansam" na meia hora seguinte. "Quando você começa a se acostumar, o negócio para", diz Valdenir Ribeiro, de Santa Maria (RS). Mas nem a inconstância desse mar desanima as mais de 2 mil pessoas que passam o dia na areia branquinha. Esse número pode triplicar nos fins de semana e, mesmo a Praia comportando até 15 mil banhistas, é bom chegar cedo para conseguir seu lugar à sombra. Porque sol, esse, sim, é uma constante em Rio Quente.
A rotina na praia goiana é muito similar à de qualquer uma no litoral. Logo cedo chegam surfistas - ou os aspirantes a, que pagam 60 reais por uma hora de aula. Das 8 às 9 da manhã, as ondas são transversais e exclusivas deles, já que o Hot Park só abre de verdade às 9h30. Aos poucos vão chegando as senhoras e as famílias, com baldinhos, boias, bolas e toda a parafernália necessária para manter a garotada distraída até a hora do almoço. Mas, antes de ficarem com o pé na areia, elas precisam passar pelas lojinhas do caminho, que vendem tatuagem, tererê e sorvete, produtos típicos do comércio praiano. E também doces de baru e casca de laranja, esses, sim, delícias goianas. Com a chegada desse público, o "mar" muda e começam as ondas "diamante", mais fracas que as transversais. "É a preferida do público", diz Manoel Carlos Cardoso, diretor de marketing e vendas do Rio Quente Resorts. "Já testamos as nove que temos, e essa foi a de maior aceitação."
Somando água e areia, a Praia do Cerrado tem 25 mil metros quadrados. A faixa contínua de areia, 210 metros de extensão. O público se divide por ali. Senhoras e crianças pequenas ficam na Prainha da Marina, onde as ondas são poucas e a profundidade máxima é de 50 centímetros; garotões e pais esportistas ficam na Praia do Bikini, que deveria se chamar Praia da Sunga, visto o público que ocupa suas arenas de vôlei e futebol de praia; os outros pais, adeptos do levantamento de copo, ficam no bar molhado, numa piscina de frente para o "mar", mas não dentro dele. Na Praia há ainda 300 cadeiras. Os hóspedes dos hotéis do Rio Quente Resorts podem migrar para a área privativa, à direita da Praia, vetada aos day users ou a quem não está em nenhum hotel da rede.
Na área reservada, as cadeiras não são de plástico, mas de madeira e tela, e há dois bares exclusivos. Se achar pouco, alugue um balé-balé, cabana típica das praias do Sudeste Asiático, com cama e almofadas, que mexe com o imaginário dos hóspedes. "São superconfortáveis. É muito luxo isto aqui. Você se sente uma estrela", diz a gaúcha Ana Lúcia Molina, de Santa Maria. Para aproveitar as melhores, que comportam até seis pessoas e dão direito a guarda-sol, geladeirinha, garçom particular e kit com bebidas e snacks, é preciso desembolsar 200 reais. É salgado, mas dá status no Cerrado.
Você não precisa ser nenhuma estrela, porém, para os "paparazzi" do Rio Quente correrem atrás de uma foto sua. Eles estão por toda parte, de uniforme azul-claro e câmeras digitais nem sempre profissionais. Na Praia o assédio é ainda maior, onde os "paps" encaram até as ondas e tiram fotos-surpresa dos banhistas. O resultado pode ser visto à noite, no Hotel Pousada, onde cada imagem custa 12 reais (em CD) ou 16 (impressa). "É muito caro", reclama Odílio Costa, de São Paulo. "Mas você vê a foto de sua filha ali, num momento único, e fica tentado a comprar."
São as famílias que a cada ano fazem o resort bater novos recordes de ocupação e representam 65% dos clientes. Em 2008, os hotéis do Rio Quente Resorts, que juntos têm mais de 900 dormitórios, receberam mais de 1 milhão de pessoas. Para 2009, espera-se um aumento desse número em 15%. Do estado de São Paulo, são agora três fretamentos semanais, dois partindo de Cumbica, com a TAM, e um de Campinas, com a Azul. A última grande novidade no complexo foi a inauguração do Eco Chalé e Camping, em julho, a 3,5 quilômetros do Hot Park, com 20 apartamentos, 11 chalés, seis bangalôs e 50 vagas para motor-homes (trailers), com diárias desde 88 reais por pessoa. São as mais baratas dos sete hotéis do complexo. Até 2012 o resort pretende expandir o Hotel Turismo, hoje com 122 apartamentos, e muito mais que isso: construir dois hotéis com 580 apartamentos cada um, além de um campo de golfe.
Os investimentos hoteleiros são bem-vindos, mas o Hot Park seguirá sendo a principal atração. E nele, se de manhã as pessoas querem praia, à tarde procuram emoção nos seis toboáguas e no Half Pipe - escorregador em forma de U, inspirado nas pistas de skate - ou calmaria nas boias do Rio Artificial. É lá também que está a Bird Land, viveiro de aves onde araras, tucanos, corujas, maritacas, entre outras espécies, são tratadas e reintegradas à natureza. As aves são oriundas de apreenssões do Ibama e ficam na Bird Land até poder voltar à mata. A visita custa 28 reais, mas, como naquela vinheta do Silvio Santos, tudo aumenta. Por mais 28 reais você pode tentar manuseá-las e, com outros 16 reais, um fotógrafo registra o feito e lhe dá uma imagem impressa.
Com o fechamento do Hot Park, às 17h30, a maioria dos hóspedes vai para as piscinas e duchas do Parque das Fontes, outro parque aquático do Rio Quente Resorts, onde a temperatura da água pode chegar aos 38 graus. No Poço do Governador, onde as águas brotam e são ainda mais quentes, os mais resistentes atravessam a noite, já que as piscinas ficam abertas 24 horas. "É maravilhoso você poder mergulhar aqui, ficar vendo as estrelas enquanto nada", diz Delcide Rosset, de São Caetano (SP). Quem está nos dois hotéis dentro do complexo, o Pousada e o Turismo, aproveita mais. Nos demais, passa-se a depender de transfers, que vão até as 3 da madrugada. Essa rotina só se altera às quartas e aos sábados, quando a Praia do Cerrado abriga um luau e todo mundo vai pra lá nem que seja só para conferir se as ondas vão funcionar ou não. Mas, se elas não aparecerem e o "mar" se tornar uma piscina parada, só a areia fria nos pés e o vento nas folhagens das palmeiras "importadas" da Bahia dando um toque praiano, ninguém vai ligar. Amanhã vai ser outro dia.
Esta reportagem foi paga pela VIAGEM E TURISMO. Nós não aceitamos convites ou cortesias. Confie no que você lê na VT
Conheça:
Guia Quatro Rodas
| National Geographic Brasil
| Viagem e Turismo
Expediente
| Mapa do site
| Política de privacidade
| Anuncie
| Faleaqui
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados. All rights reserved.
Site melhor visualizado em 1024x768