Fui parar na Austrália, mais precisamente em Sydney, para encontrar meu fi lho Maurício, que acabara de concluir um curso. Como o país tem uma bela estrutura para o turismo de acampamento (não vimos nenhum banheiro sem papel higiênico em todo o percurso), pensamos em fazer juntos um roteiro de campervan. A ideia era sair de Sydney e percorrer 1 248 quilômetros da costa leste australiana em 12 dias, passando por nove cidades. Nosso objetivo fi nal era fugir da muvuca dos centros urbanos - difícil, uma vez que 80% dos 21 milhões de australianos vivem exatamente na costa leste -, tirar boas fotos e surfar em paraísos intocados.
Mesmo com pouco espaço, acomodamos nossa bagagem e mantimentos na campervan sem grandes problemas. O espaço é reduzido, claro, mas extremamente bem planejado. Aquela que se converteria em nosso lar portátil tinha dois sofás que se transformavam numa cama de casal, outra cama num micromezanino (que ficava um pouco perto demais do teto, mas ainda assim era confortável), mesa de jantar e cozinha completa: com fogão, micro-ondas, geladeira e armários bem divididos. Uma van como essa é ideal para um casal ou dois amigos que se entendam muito bem, já que a convivência acaba sendo intensa. O ar-condicionado na cabine só funciona com o motor ligado (uma opção não muito ecológica, em caso de necessidade), mas, como as noites no litoral costumam ser bem ventiladas, não há tanta necessidade de usá-lo.
Na Austrália, os acampamentos nas campervans (ou nos velhos trailers) se chamam caravan parks. Você estaciona numa vaga determinada e conecta a extensão (que já vem nos veículos) a uma tomada. Ao lado de sua vaga há sempre uma torneira na qual você engata a mangueira (também incluída) e enche o tanque de água. Dá para cozinhar e lavar as mãos por uns dois dias. O banho rola nos banheiros dos caravan parks, que geralmente também têm lavanderia e lugar pra lavar a louça (na van até dá, mas é muito apertado).
Nossa jornada começou pela rota dos vinhos próxima a Sydney. Saindo da "capital moral" |da Austrália (Camberra é a verdadeira capital, mas Sydney é mais importante) rumo ao norte, seguimos pela parte baixa do Vale Hunter, o Lower Hunter Valley. Ali, os vinhedos se espalham por uma planície interrompida por algumas colinas suaves, ao pé da serra principal. Essa é a região vinícola mais antiga da Austrália. Hoje é um grande ponto turístico. Os viajantes se divertem voando de balão e em aviões antigos, caminhando por trilhas e relaxando em spas e hotéis, alguns bem luxuosos. Além de bons restaurantes, o vale tem lojinhas de produtores de queijos e cervejarias. Como eu não estava a fi m de me empapuçar de gordura e cevada, preferi a opção mais light, uma vinícola orgânica. A Tamburlaine Vineyards parecia uma boa. Infelizmente, não tenho muito o que dizer sobre esse vinho e sua história. O atendente que nos mostrou as instalações estava mais preocupado em vender do que em conversar. Ser viu-nos quatro exemplares, mas praticamente um gole de cada um. Ainda bem que o passeio era grátis. Para evitar decepções como essa, vale a pena se informar melhor no escritório do Hunter Valley Wine Country Tourism, onde é possível obter mapas das redondezas e acertar logo de cara.
A próxima parada teve mais a ver com nossa proposta de caçadores de sossego: o Myall Lakes National Park. Esse parque tem praias magníficas e é um "pico" de surfi stas. Como é enorme, os costões e lagos bucólicos ficam como que olhando só para você. No Myall Park, fomos recebidos por um fim de tarde idílico numa praia que, em uma de suas extremidades, é guardada por um farol. Uma nuvem longa e delgada parecia sair do farol como se fosse fumaça rumando para longe de uma chaminé. As rochas têm coloração alaranjada que a luz do fi m de tarde só fazia acentuar. Subimos até o topo do farol, onde funciona uma pousada. Dali vimos o sol tirar o time de campo. Uma família de banhistas aproveitava os últimos raios na praia, lá embaixo. Se algum dia repetir a dose, com certeza reservarei mais tempo para conhecer os parques vizinhos, como as reservas de Booti Booti e Wallingat. Os três parques juntos, uma área de 50 mil hectares, formam um dos tesouros dos australianos, os Great Lakes National Parks.
Para passar aquela noite, ligamos nossa campervan em uma tomada do Seal Rocks Camping Reserve - um agradável caravan park localizado numa península rochosa, de frente para a Praia de Seal Rocks. De manhã, conseguimos ver melhor onde estávamos. Céu azul, água verde e transparente, pequenas ondas perfeitas, praia deserta.Seal, em inglês, é foca (ou o marido da top alemã Heidi Klum). Apesar do nome, não vi nenhuma foca por ali (nem o corpulento sr. Klum). Depois de uma sessão de surfe, fomos ao Myall Lake, o lago que dá nome ao lugar.
Novo dia, novo parque. O próximo de nossa lista tinha o suspeito nome de Crowdy Bay National Park. Crowdy quer dizer "cheio de gente" em inglês. Foi uma surpresa, portanto, quando constatamos que não havia vivalma ali. Meu fi lho e eu fizemos uma fogueira. Confesso que, sob um céu absurdamente estrelado, nos sentimos como dois aborígines, os integrantes das tribos que há 50 mil anos habitam o continente australiano. Foi uma sensação que passou no momento em que nos preparamos para comer. Duvido que os aborígenes tivessem à sua disposição couve-flor ao molho curry (sou, modéstia à parte, um ás da cozinha vegetariana) e uma garrafa do vinho Syrah Eaglehawk. Com um pouco de organização, mesmo na cozinha compacta da campervan, é possível executar receitas elaboradas - e com a grande vantagem de escolher o cenário em que elas serão degustadas. A rotina em Crowdy Bay incluiu caminhadas e viagens pelas praias da região, atravessando dunas e bosques de paperbark, uma árvore nativa cujo tronco se abre como livro desfolhado pelo vento.
Para chegar a Diamond Head, um costão rochoso que separava nossa praia da vizinha em Crowdy Bay, tivemos de passar pelo camping próximo à praia. Ficamos eufóricos quando vimos o primeiro canguru por ali. E, quando olhamos ao redor, nos demos conta de que ele vinha acompanhado de vários amigos. Dóceis, os bichinhos estavam concentrados em procurar o almoço no meio das barracas (algo me diz que trancar a barraca é uma medida sábia para quem acampa na região). O primeiro encontro com um canguru, bicho cuja imagem é tão comum no imaginário popular quanto um pato ou um leão, é tão emocionante quanto ver o mar ou a neve pela primeira vez. Depois de tal encontro emocionado, tocamos para o norte com destino ao Yuraygir National Park.
Instalados num caravan park na minúscula Minnie Water, o vilarejo mais próximo, tivemos novamente o parque só para nós. Um vento forte deixou o dia frio e as praias desertas. Insistimos em andar por um belíssimo rosário de praias: Back Beach, Main Beach, Rock's Point e Illura. Sem a opressão do calor, ainda tivemos disposição para subir a encosta da serra que separa o litoral do grande deserto no interior da Austrália, o Outback. Nosso objetivo era dirigir até a folclórica cidade de Nimbin. Em 1973, a União dos Estudantes Australianos promoveu o Aquarius Festival no Vale de Nimbin. Alguns estudantes hippies gostaram tanto do evento que resolveram ficar por ali (ou esqueceram como se volta para casa, ninguém sabe ao certo). O lugar virou atração turística, principalmente por defender abertamente a liberação da maconha. Hoje em dia, além de justificar o estereótipo, o lugar tornou-se um centro zen de artes, empórios orgânicos e sítios "permaculturais", um tipo de comunidade sustentável que surgiu nos anos 1970.
De um lugar comicamente mítico, nos dirigimos a outro de fama mais defensável: a Praia de Noosa, uma lenda entre os surfistas de pranchão. O lugar é apropriado a essa prática porque suas ondas são longas e estáveis. Na região também fica o Currumbin Wildlife Sanctuary, um zoológico aberto, com cangurus, coalas e outros animais. Esse foi o último parque que vimos antes de desembarcar na parada fi nal de nosso roteiro. Tivemos de nos despedir da campervan em Brisbane, uma agradável cidade de 1,5 milhão de habitantes, famosa por seus cafés e sua agitada vida cultural. Tivemos um pequeno estranhamento, é verdade, em ver tanta civilização depois de viver tão intensamente o contato com a natureza ao largo da costa. Dissemos tchau à campervan que nos servia de casa e depois de algum tempo estávamos na Baía de Hervey esperando o ferry boat que nos levaria até Fraser Island. Essa é apenas a maior ilha de areia do mundo, com 120 quilômetros de extensão por 15 quilômetros em sua parte mais larga. Metade da ilha constitui o Great Sandy National Park. Para andar por lá, na areia fofa, só em veículo 4x4. Não tem outro jeito. O ideal é sair bem cedo. E procure reservar antes, porque a gente quase dançou. Por sorte, apareceu um utilitário 4x4 na última hora. Se você tiver medo de atolar dirigindo sozinho, empresas como a Fraser Experience organizam passeios e dirigem por você.
Na ilha, é preciso fi car esperto para pegar a maré baixa e assim andar pela praia, a Seventy-Five-Mile Beach (que mede religiosamente 75 milhas). Os lagos de Fraser têm águas azuis cristalinas, árvores de até 70 metros de altura e uma areia de matizes inacreditáveis (são 70 cores, do branco ao preto, passando pelo ocre). Dá pra fi car quase uma semana por ali, acampado, e não falta coisa para fazer. Quem não quiser andar tanto pode apreciar a Rainbow Gorge ("Garganta do Arco-Íris"), perto do Happy Valley, no meio do caminho. Indian Head, mais ao norte da mesma praia, é um dos ícones de Fraser, uma formação vulcânica de 60 metros de altura que lembra uma baleia. Além disso, essa parte é um dos melhores picos para pesca e também para avistar baleias jubarte (que desfilam ali de julho a novembro). Um pouquinho ao norte de Indian Head tem o aquarium, também conhecido como champagne pools, piscinas borbulhantes formadas pela água do mar.
Um dos cartões-postais mais curiosos de toda a Austrália fi ca em Fraser Island. É o Maheno Wreck, um navio gigante que, atingido por uma tempestade em 1935, encalhou na areia da praia. Sua carcaça já foi até usada como alvo de prática pela inglesa Real Força Aérea durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Quando estivemos lá, uma águia com um peixe no bico pousou numa das torres do destroço. Uma cena bonita aquele navio tão cheio de história em seu último descanso servindo de poleiro para uma águia distraída. Sentamos para apreciar aquela demonstração de pujança da natureza australiana. E sentimos que havíamos feito uma viagem quase espiritual.
Ah, claro: você deve estar se perguntando sobre a história de eu jamais trabalhar num restaurante japonês. Bom, entre uma parada e outra, aconteceu um acidente típico de novatos. As gavetas da cozinha das campervans têm puxadores que atuam como travas. Esquecemos de trancar e, na primeira subida, nosso farnel natureba espalhou-se pelo chão. Passado o susto, o saldo foi só um vidro de shoyu quebrado - e o carro ficar o dia inteiro cheirando a sushi. No primeiro dia, o fedor estava insuportável. Eu e meu filho nos trancamos na cabine do carro. Fica, portanto, o conselho: tranque muito bem gavetas e armários. Ou compre shoyu em embalagem plástica.
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