A ideia da Windstar foi recriar os veleiros históricos, a navegação de recreio e a cabotagem. De olhos fechados, dá até para recuar ao tempo de Vasco da Gama e das naus quinhentistas. Na verdade, o barco navega a motor, e os mastros, o cordame e as velas são apenas parte do charme. Quando sopra um vento mais forte, o capitão faz soar a sirene e logo depois se suspende o ruído abafado dos motores. Marinheiros ágeis e diligentes como formigas sobem às gáveas e simulam as artes de manobrar dos tempos de outrora, quando se faziam travessias a vela ou a vapor. É apenas uma representação, nós sabemos. Mas o frenesi, a elegância dos corpos, a precisão dos gestos, as palavras gritadas de um mastro ao outro enchem a alma até dos menos românticos. Certo dia, decerto um dos mais belos da viagem, pouco depois de zarparmos de Marselha, pôs-se um vento forte. Içaram-se as velas, hasteou-se o pavilhão, soou o clarim. Tripulantes em êxtase chegaram-se então à amurada para ver o barco a navegar ao sabor dos ventos e da corrente. É nesse instante que faz toda a diferença navegar num veleiro, mesmo que seja uma encenação, mesmo que quem puxe a barca seja um exército de "cavalos" subterrâneos. A água bate mansa no casco, o mar nunca chega a encapelar-se e são as rajadas que parecem levarnos adiante. Ao largo, passam outros barcos das mais variadas espécies, veleiros, cargueiros, chalupas, a jangada de Tom Sawyer. Todos se acenam, todos se apitam como companheiros de longa data, de muitas milhas e jornadas.
Dentro do Wind Star (uma das embarcações da companhia homônima) passeiam pelo convés homens e mulheres assíduos em cruzeiros. Há todo um cenário de rigor, como se houvesse uma cartilha dos mares. Eles vestem calça branca de linho, camisa azul de riscas, calçam sapato de vela, alguns fumam cachimbo. Elas usam vestido largo, lenço à cabeça, óculos de Jackie O. Há peles curtidas pelo sol, copos de gim, casais abraçados de olhos lânguidos postos no horizonte. É o retrato esperado nas narrativas náuticas, com a diferença de aqui ser a vida como ela é. Aquilo que se chama dress code, o paletó ou terno de cerimônia, só é exigido na hora de jantar no salão nobre. Não se pede vestuário específico nas outras horas. No entanto, ninguém sai da cabine ao acaso. Assim será todos os dias, uma estética muito bem casada de tripulantes e passageiros, menos de mil no total.
Nos navios da Windstar há todas as lojas e os passatempos que se encontram nos maiores (e melhores) do mundo, com a diferença de aqui ser tudo na medida humana. Há cassinos, cosmética luxuosa, restaurantes gourmet, spa, sala de ginástica, biblioteca, acervo de DVDs, bares (de jazz-bar a piano-bar). As 73 cabines são um exemplo de como recriar uma suíte de hotel de primeira classe em pouco mais de 20 metros quadrados. Além de todas terem janelas e um generoso espaço, contam com mimos inesperados, como internet wireless, recanto de leitura, iPod ou tela de plasma. Permitem apreciar ao mesmo tempo o hedonismo de navegar a vela e todos os luxos de um hotel-butique. De resto, no convés há famílias inteiras em trânsito, mas sem a algazarra de turismo balnear.
PALAMÓS, município de Girona e a primeira paragem depois de Barcelona, é conhecido como paraíso da petinga (variedade miúda de sardinha) e das históricas tapas, que resolveram a enfermidade do rei Afonso X, o Sábio. Muitos espanhóis viajam de Vigo, no outro lado da Espanha, para comer os pequenos peixes de Palamós. Graças ao turismo de cruzeiros, muitas das tabernas de Palamós são hoje bares e restaurantes gourmet. A primeira coisa que faz quem aporta em Palamós é ir "tapear" nas velhas tascas. O La Menta, na Rua Tauler i Sérvia, é um dos restaurantes mais conhecidos. Lá, o rei Juan Carlos come as suas cazuelas (cozidos na caçarola). Pepe y Pepe, pai e filho, governam a sala e as pescarias, e a matriarca Rosália comanda a cozinha. O cardápio depende da pesca do dia. Nesse dia, prometiam-se sargos e polvos. Depois de bebermos birras (cervejas), tinto e comermos belos chipirones con aspárragos y calabrán (uma espécie de molusco com aspargos e calabreza), é a vez de brindarmos aos sargos.
Aos sargos e ao aniversário de Vitoria Lopez, de 107 anos, criada e vivida em Palamós desde 21 de agosto de 1900. "Qual o segredo da longevidade (para além dos tintos crianza e das guarnições de mexilhão e lagostins palaminos)?", perguntaram a Vitoria. "Nunca me preocupei com nada", respondeu. Os palaminos têm fama de serem os cidadãos mais ociosos e beberrões da Espanha e os maiores consumidores de toldos e grãos de areia da praia. Pepe sugere um passeio à la Caribe: "Se fizerem mais uma hora de caminho para o norte, vão dar em uma pequena Jamaica". O Wind Star está de partida depois da hora da siesta e não teremos como comprovar a sugestão de Pepe.
MARSELHA é o segundo dia de escala e o mais demorado, com paragem de manhã à noite (em geral, nos outros portos, o barco atraca ao amanhecer e parte depois do almoço). Em sua maior parte, é uma réplica de qualquer cidade do Magrebe, com souks, muezzins, djelabas, kaftans, babuskas e entusiastas da poligamia e dos meneios lúdicos do ventre. No bairro árabe, o Cours Julien, há a vivacidade própria das praças marroquinas. O Islã tem filhos prediletos no sul da França e as ruas de Marselha são uma espécie de grande madrasta de imensidão exótica. A maioria dos marselheses descende de imigrantes que ali chegaram no começo do século 19. Armênios, espanhóis, italianos, árabes, judeus, russos, argelinos, tunisianos... Na verdade, um quarto da população é árabe. Essa amostra espelha-se na cultura urbana, nos costumes e nos mais diversos ritos. E, exceto pelas patisseries, as boulangeries e o Olympique de Marselha (o time de futebol da cidade), pouco haverá de tipicamente francês.
A maior riqueza da cidade é seu promontório e a Catedral de Notre-Dame-de-la-Garde, erguida no século 19 em estilo romano-bizantino. A subida ao morro sagrado é de funicular, ônibus, trólei, a pé ou até de burro, alugado por hora. Lá do alto, avistam-se as colinas da Sardenha e o Chatêau d'If, o antigo presídio onde o Conde de Monte Cristo foi encarcerado no romance homônimo de Alexandre Dumas. Outra das honras de Marselha é o baralho de tarô, o Tarô de Marselha, usado para jogar a variante local do tarocchi antes de servir à cartomancia. Encontra-se à venda nas lojas de bricabraque da Rue Saint Ferreol.
PORQUEROLLES, ilha no Arquipélago de Hyeres, a menos de meia hora da Riviera Francesa, tem um embaixador: Gérard Gerva, dono do Le Porquerollais, um restaurante procurado por clientes de luxo, como Johnny Depp e Vanessa Paradis. As postas de espadarte ao alho e o peixe-galo com arroz de tomate são líderes de mercado e trazem clientes de todo o mundo. Para garantir a refeição, o melhor é telefonar dias antes e reservar uma mesa, de preferência na esplanada virada para a igreja e os velhotes craques do jogo pétanque. Quem vai a Porquerolles não deve deixar escapar uma ida à pesca por 50 euros com Gérard em seu rústico bote Le Chapon. A lotação do bote é de seis marujos, além do timoneiro Gérard, que solta impropérios ao vento como o capitão Haddock.
Outra figura da cidade é a brasileira Márcia "Desirée" da Silva, gerente de uma butique na Rue de la Douane. O negócio de Márcia e sua vistosa loja podiam estar na Rue Saint Honoré. Entre as clientes distintas, gaba-se dos autógrafos de Kate Moss e da mesma Vanessa Paradis - que "lamentavelmente veio às compras sem o seu Jonnie". O penteado de garçonete e os modos frenéticos não indicam que Márcia tem 62 anos. "Sou do tempo da Bardot. Ela chegou a Búzios, eu cheguei a Porquerolles."
MONTE CARLO, capital de Mônaco, é o cenário da chegada triunfal. Lá você não deve deixar de visitar um dos maiores e mais suntuosos cassinos do mundo, o Cassino de Paris, ou apenas Grand Casino, desenhado por Charles Garnier, autor da Ópera de Paris. Além de se pasmar com o número de Bentleys e Rolls-Royces por metro quadrado, vai ficar maravilhado com os afrescos, baixos-relevos, vitrais, pinturas, esculturas... das salas de jogo. A maioria delas pode ser vista do lobby, isso sem ter de pagar os 50 a 100 francos de entrada. Depois de explorar o cassino, restam-lhe as ruas de Monte Carlo, que não suplantam (na qualidade das lojas) as alas mais distintas de Paris ou de Sampa. Outro local de grande adesão é o Hotel Metrópole. A maioria dos visitantes se deleita em ver as lojas e a beautiful people, mesmo que compre apenas um sorvete.
Conheça:
Guia Quatro Rodas
| National Geographic Brasil
| Viagem e Turismo
Expediente
| Mapa do site
| Política de privacidade
| Anuncie
| Faleaqui
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados. All rights reserved.
Site melhor visualizado em 1024x768